Conto | CHUPA-CABRA12 min de leitura

— Se amanhã tu ainda estiver aqui, vai queimar junto da casa.

A cada latejar do olho lembrava-se daquelas palavras. Estava sentado no canto mais escuro do bar, longe da luz matinal e de curiosos. A sombra escondia providencialmente sua vergonha. Com a cabeça baixa não via muito além do balcão à sua frente e parte da movimentação do Seu Chico, o dono da birosca. Alguém sentou ao seu lado e, pelo estardalhaço, já sabia quem era.

— Vi Kiara saindo da casa cheia de malas e pacotes. Dona Quitéria e seu Adenor tão lá ajudando. – havia uma pergunta não feita nas palavras de Davi.

Não olhou para ele. Sua explicação, justificativa ou desculpa esfarrapada ficaram presas na garganta, num bolo indissolúvel. Não havia o que dizer. Suas palavras não mudariam a situação. Em menos de 24 horas seria um sem-teto, no entanto, a desgraça vinha mais cedo, com o abandono da esposa.

— Você é um bunda-mole, Tonho! – foi o que ela lhe disse tão carinhosamente após a ordem não oficial de despejo.

— Deixa ela ir… – foi o que respondeu ao amigo.

Davi conhecia bem a apatia do camarada. No entanto, sua indisposição para a luta havia atingido a indiferença. Virou-se no banco para que pudesse encará-lo de frente. Tonho continuava com o olhar baixo e, ao perceber a encarada do amigo, olhou para o outro lado, evitando contato visual, tentando disfarçar a deformidade roxa que era sua face esquerda.

— Olha pra mim, rapá. – Davi foi ríspido. Já sabia que, às vezes, precisava ser um pouco mais grosso com o amigo. – Vâmo, vira logo!

Tonho virou, embora, uma tartaruga teria virado mais rápido. Não era timidez que o fazia continuar com o nariz apontado para baixo. Ergueu o olhar apenas o suficiente para fitar o amigo por dois segundos e, depois, concentrou-se no balançar de seus sapatos, incapaz de suportar o julgamento que ele lhe fazia.

— Puta merda! Foi o Tyson, né? Cacete. Tonho… – não conseguia nem articular bem as frases.

Na infância, Tonho era sempre o alvo predileto dos valentões do bairro, mas nunca ganhou um olho roxo daqueles. Davi estava sempre por perto para impedir que o bullying não passasse de alguns pescotapas. Dessa vez não foi capaz de impedir mais uma covardia contra o amigo. Via-o, seus quase dois metros encolhidos numa figura patética, com cara de choro, com o olho direito sufocado pelo edema e roxidão. Era capaz de sentir dor por ele. Alguma coisa devia ter quebrado por ali. E também sentia pena.

— Ô seu Chico, traz uma branquinha da boa aqui pra nóis. – falou com algum bom humor, tentando levantar o moral de Tonho, e disfarçar sua preocupação. – E também um pouco de gelo num saquinho.

— Eu tenho até amanhã às oito em ponto pra entregar o terreno pra ele. – falou baixinho, aproveitando que o velho fuxiqueiro se afastou.

— Mas não pode,Tonho. Seu pai comprou aquele terreno com dinheiro suado dele. É seu. De papel passado e tudo.

A cachaça e o gelo chegaram. Davi entregou o copo a ele e já se apoderava da bolsa de gelo.

— Toma.

Tonho virou o líquido e a queimação desceu pela garganta. Deu uma tossidinha contida ao tentar esconder o descostume em beber.

— Vou fazer o que? Ai! – o gelo entrou em contato com a pele ferida de uma vez em seu rosto e Davi fez questão de pressionar bem.

— Segura aí. Ô seu Chico, traz mais uma pra gente.

Tonho manteve a bolsa gelada junto ao rosto, embora a ardência contribuísse mais para a dor do que para o alívio. Ainda assim, era do seu feitio não reclamar.

— Quando o Tyson quer; ele consegue. Não é à toa que é o dono da favela. – ponderou.

— Não é assim que funciona, cara. Você tem que defender o que é seu. Vai pra polícia, sei lá. Sua mulher tá lá te deixando. E você aqui sentado. Vai perder tudo assim? Toma.  – empurrou a nova dose, mas Tonho nem a pegou.

O homem choroso preferiu ignorar a bebida, ignorar os conselhos. Colocou o saco de gelo no balcão e saiu sem mais explicações.

 

Sinceramente, desejava ter um par de óculos de sol bem forte. O sol estava lhe matando mais do que os olhares que encontrava pelo caminho. Queria logo chegar em casa e se fechar no quarto escuro. A falta de luz e pessoas lhe fazia bem. Precisava concatenar um pouco as ideias.

— Ei. Você é o Tonho, filho do seu João? – ouviu perguntarem às suas costas enquanto abria o portão.

Pronto. Agora viria um olhar de surpresa com nojo e mais a maldita pergunta: “o que aconteceu com você?” Embora quisesse muito evitar aquela situação, era educado demais para deixar quem quer que fosse falando sozinho.

— Sou sim. – falou ao se virar.

Não encontrou nada do que esperava. O espanto foi seu. Parado à sua frente um senhor negro sorria-lhe de maneira gentil, apesar dos os dentes amarelados e até a falta de alguns, fosse uma visão grotesca. Mas o que lhe causou um frio na espinha foram aqueles olhos brancos a lhe encarar tão profundamente. O homem era cego. Então, como sabia quem ele era?

— O senhor… – estava pronto para lhe pedir uma explicação, mas foi interrompido.

— Que bom que te encontrei, meu filho. Eu vinha muito aqui. Você era um bebê de colo. – Tonho queria interrompê-lo, mas o homem parecia uma metralhadora de palavras. – A mata aqui perto tá sendo devastada. O que a Mineradora tá fazendo vai trazer a desgraça pra cá. Tem coisa ruim morando na mata. Sai daqui, meu filho… Antes que seja tarde.

Um aviso tão dramático quanto aquele acabou pontuado por um barulho de explosão. A Mineradora abria caminho, bem ali por perto. Barulhos como aquele eram frequentes.

Refeito do susto, voltou-se para o velho e agora teve que lidar com uma súbita taquicardia. Ele simplesmente havia sumido.

 

Acordou e já era noite. O olho ainda doía, mas também as costas, ombros e principalmente o pescoço. O sofá puído, sem dúvida, não era o local mais indicado para uma soneca. Bem, soneca não era a melhor palavra.

Até que para alguém que havia tomado um porre estava muito bem. Não demorou para se lembrar de onde estava e do que havia acontecido. Depois que saiu do bar e foi para casa matutar. Algo havia sido plantado dentro dele. Encontrou a velha carabina do pai e enquanto conferia as engrenagens envelhecidas inflava o peito. As coisas precisavam mudar. Defenderia o que é seu e ainda teria a mulher de volta. Isto se conseguisse puxar o gatilho, pois seu corpo inteiro tremia só de imaginar. Era isso, ou morreria. Chegou à conclusão de que lhe restava a morte certa. Foi por esse motivo que passou as primeiras horas da tarde bebendo todas as bebidas da casa até que adormecesse.

O silêncio era sufocante, mas não tanto quanto a expectativa. Pela calmaria da vizinhança já deveria ter passado da meia noite. Isso queria dizer que faltava menos de oito horas para que Tyson chegasse. Menos de oito horas e um dos dois encontraria seu fim. Os pelos da sua nuca se arrepiaram. Respirou fundo e buscou calma em si mesmo. Ao menos aquilo acabaria.

— Diacho de cachorro. – pulou do sofá quando ouviu o ladrar de Oscar. Parecia vir de todos os cantos e de lugar nenhum. Será que ele veio mais cedo?

Engoliu em seco e o sentimento de mudança ficou entalado na garganta. Os joelhos chocavam-se um no outro e suas pernas não pareciam responder aos seus comandos. Cada passo em direção à porta foi mais difícil que o outro. A carabina, então, pesava uma tonelada. Mas ele chegou à porta da frente e a abriu lentamente. O cano da arma foi o primeiro a espiar para fora. Depois, espichou o olhar para fora e não viu nada além da luz amarela da varanda.

A rua de terra batida era um breu total, mas não havia sinal de Tyson. Menos mal. Mesmo assim, o cachorro continuava a latir.

— Oscar, vem cá. – falou bravo, mas não elevou a voz. Não queria ser ouvido por ninguém. O latido estava cada vez mais longe e vinha dos fundos da casa. Precisou correr para buscar uma lanterna. Pouco tempo depois já estava nos fundos do terreno, varrendo-o com a luz fraca. Depois da cerca baixa feita de sobras de madeira usada havia uma área de grama alta e, em seguida, um resquício de Mata Atlântica. Não era a primeira vez que Oscar se perdia ali.

Dessa vez era diferente. Havia algo no ar, um frio inexplicável que o fazia se arrepender de não ter pegado um casaco. Quando entrou na mata, não percebeu que era abraçado por um nevoeiro rasteiro que não passava das suas canelas. A lanterna ajudava, mas não vencia mais do que dois metros da escuridão à frente. Guiava-se pelos latidos e grunhidos do cão. Não percebia que aquele era o único som que havia. Nada de balançar de galhos ou cricrilar dos grilos. A carabina dava a confiança que precisava e ouvir o choro sofrido de seu amigo canino fazia com que esquecesse de qualquer temor.

Chegou a uma clareira cortada por um fino córrego. O som vinha dali. O cachorro estava lá, desfalecido, mole, morto. Era segurado por um par de mãos esverdeadas, com três dedos cada. A lanterna caiu da sua mão, mas o facho continuava apostando para lá. O que quer que fosse aquilo não tinha mais que um metro. Parecia uma espécie de símio, os braços mais longos que as pernas, olhos ovais e amarelos, o corpo com alguma penugem. A boca ou tromba estava ligada ao pescoço de Oscar e parecia sugá-lo como um canudo. Encarou o intruso com raiva, num aviso para não se aproximar, enquanto seguia firme se fartando com o sangue do pobre Oscar.

O sapato de Tonho estava colado ao chão e o grito engasgava-o. Ainda bem que respirar era uma tarefa automática. Lembrou-se das histórias que seu pai lhe contava e do aviso do velho cego. Ali não era o interior e não havia cabras, nem mais florestas, muito menos outros animais para que aquela criatura pudesse se alimentar. E o chupador estava com fome. Tanta fome que largou a carcaça e deu um grito agudo em direção ao seu expectador.

Tonho viu a bocarra cheia de pequenos dentinhos e coberta de sangue. Ele sabia, era o próximo. Mas o instinto de sobrevivência se sobressaiu. Não iria morrer assim, não daria esse gosto ao Tyson. Precisou vencer a inércia para levantar a carabina numa mira desesperada e imperfeita. O tiro não acertou. O bicho desgraçado continuou gritando e avançando rapidamente. A tremedeira e descoordenação impediam que ele recarregasse a arma. A criatura chegou até ele, agarrando-lhe a perna. A tromba se espichou e se fixou em sua canela.

Eram dezenas de pregos perfurando a pele. A arma caiu enquanto seu corpo esmorecia. A eletricidade percorreu cada fibra do seu ser. E, de alguma forma, sua visão se encheu de estrelas. Ele fechou os olhos e elas continuaram lá. Seus pensamentos estavam presos em sua cabeça. Todos os músculos se contraiam e não executavam as ordens que disparavam do seu cérebro. Cada sugada e cada gota de sangue que se esvaia era sentida. Era como tentar empurrar a parede com o pé. Inútil.

A vontade de sair venceu a paralisia. Ele conseguiu dar um coice curto, mas eficiente, acertando a cara do bicho. Precisou controlar a respiração e buscar forças sabe Deus de onde. Levantou. A perna machucada não dava apoio. Quase caiu. A besta ainda estava no chão, grunhindo, mas iria levantar. Aos tropeços ele deu um novo chute. A perna ferida não estava tão inútil afinal. E conseguiu alguns segundos de vantagem.

Perdeu o equilíbrio e parte das forças. De joelhos estava perigosamente perto do monstrengo. Seus dedos se agarram em algo. Para sua sorte, havia alguma providência divina pronta a lhe ajudar. O bicho veio com tudo, apoiado nas quatro patas e com a bocarra escancarada. Só precisou de força o suficiente para posicionar a carabina o melhor que pôde. Ele estava perigosamente perto. Não precisou caprichar muito dessa vez, felizmente. O gatilho pareceu emperrado, duro, e precisou de toda vontade que nunca foi capaz de ter em toda sua vida para puxá-lo. A besta deu seu último grito de ameaça.

Ele empapou-se de sangue, miolos e suor. Soltou um longo suspiro e uma lágrima escorreu. Então riu. Um riso alto e libertador. Deixou-se cair de cara no chão, sentindo a dureza da terra pedregosa, cheia de musgo e folhas. A chuva veio de uma vez para lavar sua alma.

Adormeceu. As poucas horas que restavam para a manhã passaram. Apesar do cansaço, ele acordou numa pontualidade de dar inveja a qualquer despertador. Dez para as oito ele estava de pé. O sol quente da manhã era o seu relógio. Esticou as costas num alongamento preguiçoso. Parecia que havia tido uma excelente noite de sono. Pegou a carabina com carinho e encarou a fera que ainda jazia morta bem próximo a si. A caminhada não seria tão longa de volta à sua casa e a faria com prazer. Havia livrado a floresta de um monstro, enfim, se livraria de seu próprio monstro. Tonho, ou Tonhão como seria conhecido dali para frente, estava pronto para fazer o Tyson comer chumbo.

Camila Servello Aguirre

Camila Servello Aguirre

Nasceu no interior de São Paulo e atualmente mora na capital, onde vive dividida entre suas duas maiores vocações: a veterinária e a literária. Embora fique maluca de pedra tentando se desdobrar entre ambas, não trocaria a caneta, muito menos a maloqueira Picanha, sua goldenlícia. Teve seu primeiro livro, “Os Cinco Demônios”, publicado em 2015 e já tem novos projetos em andamento. Atormentada por ideias, se diverte torturando o leitor com histórias cheias de reviravoltas.
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