Para quem está desembarcando agora nas aventuras protagonizadas pelos detetives Cormoran Strike e Robin Ellacott vale um alerta: não se trata de uma série policial padrão. O pano de fundo por trás dos casos investigados em cada edição é formado pelos encontros e desencontros da dupla em uma Londres contemporânea.
Ou, no caso de Branco Letal (Rocco, 2019), quase contemporânea. O quarto romance escrito por J. K. Rowling sob o pseudônimo Robert Galbraith foi publicado originalmente em 2018, mas sua ação se passa durante os Jogos Olímpicos de 2012, organizados na capital inglesa.
Diferente dos demais livros da série, quando a autora inseria uma longa passagem de tempo entre um caso e outro, desta vez o leitor é apresentado aos acontecimentos logo após Vocação para o Mal (Rocco, 2016) como uma espécie de prólogo e só então insere uma passagem de tempo.
Diferente dos livros anteriores, em que a principal característica da agência de investigação era a pindaíba, desta vez a fama alcançada pelo último caso desvendado ajudou nas finanças do escritório a ponto de Strike tornar Ellacott sua sócia e contratar mais assistentes. O dinheiro continua contado, mas Strike deixou de ser um Peter Parker de sobretudo.

O ponto de partida para a ação que conduz as 656 páginas do romance é o surgimento de Billy, um jovem que aparenta sofrer de transtornos mentais e que afirma ter presenciado, há muitos anos, o assassinato de uma criança. Quase ao mesmo tempo, Strike é contratado pelo ministro da cultura para descobrir quem o está chantageando por algo que ele não pode revelar. O que o detetive também desconhece é que essas duas histórias estão mais ligadas do que imagina, culminando em um desfecho surpreendente.
Desenvolvido paralelamente ao roteiro da série Animais Fantásticos, o romance é considerado pela própria J. K. Rowling o mais difícil que já escreveu por sua complexidade e pelo momento que vivia. Talvez seja essa, em parte, a razão para alguns pontos controversos que o livro traz em suas páginas.
Em determinados trechos e no desenvolvimento de alguns personagens, a sensação é de que faltou a mão do editor. Não pela extensão, que não é um problema se houver uma história abrangente, mas na forma como o show don’t tell é deixado de lado e substituído por uma narrativa enfraquecida por mostrar demais, e na ausência de desfecho para personagens que provavelmente não aparecerão em edições futuras.
Além disso, quem acompanha a carreira da autora com mais atenção já percebeu que sua habilidade para lidar com temas um pouco mais espinhosos não é das melhores. A polêmica acerca da sexualidade de Alvo Dumbledore na série Harry Potter é um bom exemplo. No caso de Branco Letal, a forma caricata e depreciativa como ela descreve todos os integrantes de um grupo de esquerda está longe de parecer uma boa decisão autoral.
Controvérsias à parte, Branco Letal dá conta do recado como sequência da saga vivida por Cormoran Strike e Robin Ellacott. Os dramas pessoais da dupla de detetives continuam se desenvolvendo de maneira a prender o leitor até mais que o próprio caso a ser desvendado. Sem dúvida, esse é um ponto positivo de uma série que ainda tem muitas histórias para contar.
Capa: Editora Rocco
- Entrevista | Leonardo Santhos - 14 de setembro de 2021
- Resenha | Sangue Revolto - 24 de agosto de 2021
- Resenha | Jogador Número Dois - 1 de junho de 2021
