Resenha | Vocação para o Mal

Por: Michel Costa

J.K. Rowling acertou mais uma vez. Ou melhor, Robert Galbraith, pseudônimo menos famoso por trás da obra. Vocação para o Mal (Rocco, 2016) é a continuação perfeita para as histórias de Cormoran Strike e dá sequência à saga iniciada com O Chamado do Cuco (Rocco, 2014) e sucedida por O Bicho-da-Seda (Rocco, 2015), estabelecendo com mais força o cânone do detetive inglês.

Nesta aventura, Strike se vê diante de um novo e instigante caso quando Robin Ellacott, sua assistente, é destinatária de uma caixa contendo uma perna feminina decepada. Para espanto da dupla de investigadores, o membro solitário vem acompanhado de um bilhete com a estrofe final de uma canção do Blue Öyster Cult, curiosamente, a banda preferida da falecida mãe de Strike, a super groupie Leda.

A partir desse começo perturbador, tem início uma caçada ao criminoso responsável pelo envio da perna e à suposta vítima. Dono de uma galeria nada invejável de inimigos, Cormoran repassa às autoridades os nomes de quatro possíveis suspeitos. Todavia, a polícia londrina parte no encalço do mais renomado da lista, justamente de quem o detetive menos desconfia.

A tentativa de encontrar os outros três e a exposição das razões para odiarem Strike marcam a jornada de Vocação para o Mal. Sem adentrar o campo dos spoilers, é a chance para Rowling explorar temas espinhosos como pedofilia, estupro e o chocante Transtorno de Identidade da Integridade Corporal (TIIC), doença que faz seu portador desejar ser amputado de um ou mais membros.

Paralelo ao macabro evento, Strike e Robin vivem uma relação mal resolvida que dá sinais de estar indo além do âmbito profissional. Saindo de um relacionamento conturbado que durou 13 anos, Strike agora cultiva um namoro insípido com a radialista Elin, enquanto Robin vive seus últimos dias antes de sacramentar sua união com o noivo Matthew. Uma premissa que dá à Rowling a oportunidade de mudar o ponto de vista narrativo do investigador para sua assistente durante as 496 páginas do livro.

Como nas histórias anteriores, a narrativa adotada pela escritora é a terceira pessoa. Mas, ao contrário do que a cartilha moderna de autores recomenda, Rowling não se apresenta como adepta do Show, Don’t Tell, arte de mostrar e não contar como os personagens estão se sentindo. Em vez disso, ela opta por mergulhar na alma de suas criações para trazer seus sentimentos à tona e não apenas indicar as reações ao leitor, permitindo que o mesmo faça esse juízo. No entanto, trata-se de uma escolha que não compromete a leitura em nenhum momento e nem se confunde com uma forma de menosprezo à inteligência do leitor.

Por outro lado, o leitor ávido por desvendar o caso antes do desfecho pode se decepcionar. Boa parte das pistas está disposta ao longo da trama, porém, o intuito de surpreender faz com que Rowling siga a linha dos mestres do suspense que omitem detalhes que permitam cravar o culpado com segurança. Outro aspecto que pode incomodar os mais exigentes é o fato de Strike ainda atravessar uma situação financeira periclitante, o que não faz sentido para um detetive que se tornou quase uma celebridade ao desvendar casos de grande repercussão.

O ritmo é mais lento do que a geração atual de leitores está acostumada. Quem estiver procurando um thriller de ação desenfreada vai se deparar com uma trama mais intimista onde os conflitos são muito mais internos que externos. Algo que, logicamente, não interfere na qualidade deste novo best-seller da escritora britânica. Uma leitura viciante que fica ainda melhor para quem optar por ler ao som dos clássicos do Blue Öyster Cult.


Card alaranjado com a foto e a mini bio do escritor Michel Costa. A foto dele está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio do escritor.

 

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