Conto | Transformação10 min de leitura

Carlos não tinha medo do escuro. Era na luz que os perigos se mostravam.

A escola com suas regras, explícitas ou não, sempre o apavorava. As pessoas nas ruas que o julgavam e olhavam com desdém, eram monstros atormentando seus sonhos. A família cheia de preconceitos era o seu principal algoz. Carlos temia sair às ruas, temia se mostrar como realmente era. Aquela sociedade, dita normal, não era o seu lugar. Somente na escuridão ele estaria seguro.

Ele queria apenas desaparecer ou talvez, não estar mais naquele corpo que não se encaixava nele, como uma roupa que ficou larga demais e para a qual não havia troca.

A mãe, sua única companheira na infância, havia se tornado sua carcereira. E cheia de cobranças e metas inalcançáveis apenas o fazia se sentir mais desconfortável. Ele não conseguia se interessar por nada. Principalmente pelas atividades que a mãe insistia em obrigá-lo a fazer. Ele não gostava de contato físico e deixou isso bem claro quando desistiu das aulas de judô. Assim como desistiu das aulas de música, natação e inglês.

A mãe tentava se relacionar com o filho oferecendo todo o conforto que podia comprar, mas Carlos não demonstrava interesse por seus presentes. Nenhum deles. Quando ele desistiu do vídeo game, ela achou que poderia ser maconha. Ela sabia o que a maconha em excesso podia fazer a uma mente. Sabia por experiência própria.

Passou a investigar as coisas do filho: a mochila; as gavetas; as meias. Esconderijos menos óbvios, como um boneco em resina que estava há anos largado sobre uma cômoda. Claro, era impossível esconder algo ali, ela percebeu frustrada.

Mas não desistiu. Estava revirando o guarda-roupa quando a porta do quarto se abriu.  Foi tomada pela vergonha. E se virou já pensando nas desculpas que daria para seu comportamento bizarro.

Carlos estava parado atrás dela, com um pacote de batatas chips numa mão e o celular na outra. Seu olhar era mais de deboche que de raiva. Ele não ligava muito para aquilo também.

— Sério, mãe? Revirando meu armário? O que você tá procurando? — Ele disse. — Drogas, camisinha, alguma coisa roubada? Se for pornografia, nem perca tempo. Isso não existe mais… Temos smartphones agora.

— Filho estou preocupada com você — ela disse, com paciência —  acho que precisamos conversar. E como você já me pegou em uma situação constrangedora eu vou perguntar de uma vez: você está fumando maconha?

— Não.

O olhar de deboche de novo. O ar de fastio. Aquilo a deixava louca. Ele realmente não se importava.

— Carlos, por favor, você pode me falar a verdade.

Ele atravessou o quarto e se jogou na cama espalhando farelos de batata, os olhos azuis eram frios e não deixavam de encará-la.

Ela estava a ponto de chorar, mas se conteve e se sentou perto dele, na ponta da cama, tomando o cuidado para não tocá-lo. Toques afetuosos costumavam deixa-lo nervoso.

— Você pode conversar comigo. Sobre qualquer coisa.

— Mas, mãe, não tem nada para conversar. Você me fez uma pergunta, eu respondi. Fim da conversa.

Eles ainda se olharam por mais alguns momentos e então ela se deu por vencida, depositou um rápido, cauteloso beijo na cabeça do filho antes de sair do quarto, com um suspiro longo.

Carlos esperou até ouvi-la bater a porta do banheiro e ligar o chuveiro para se levantar da cama. Correu até a porta e a trancou. Fechou as janelas. Em seguida ligou o notebook e foi direto para o fórum no qual estava na madrugada passada. Leu depressa as últimas atualizações até achar a postagem que queria. Sorriu aliviado ao ver que ela ainda estava lá. O título surreal só aumentou sua curiosidade: “Como se tornar um lobisomem”. Havia um link para um perfil no Twitter e Carlos logo o acessou.

Estalou os dedos e deu uma rápida olhada no celular, nenhuma mensagem ali. Ele já sabia que não haveria nenhuma, só estava tomando coragem para prosseguir.

Então escreveu rápido, as palavras se atropelando. Leu e antes de pensar em mudar alguma coisa mandou por DM sua dúvida:

— Oi, vi seu link num fórum ontem. Você sabe mesmo como se tornar um lobisomem?

Esperou por quase dez minutos, antes de ter a resposta.

— Sim eu sei. Quantos anos você tem?

— 18. — Ele mentiu.

—  Me passa teu WhatsApp.

No aplicativo Carlos e seu novo amigo misterioso continuaram a conversa. Depois de muitas perguntas o perfil de @Laycan_271 concordou em passar as informações para a tal transformação.

— Mas se lembre de que é um caminho sem volta. Vc tem certeza de que é isso que vc quer?

— É tudo que eu sempre quis na minha vida.

— Então vai lá. Amanhã a gente se fala de novo.

Carlos seguiu todas as instruções de Laycan, e nos dias seguintes passou a comer apenas carne mal passada, fazer orações estranhas e invocações a entidades que ele mal conseguia pronunciar o nome, e dormir apenas duas horas por noite. Era difícil, mas Laycan ficava com ele nas madrugadas insones. Conversavam sobre a vida de Carlos, mas nunca sobre a de Laycan.  Mesmo assim o garoto sentia que estavam conectados. Pela primeira vez na vida, não estava com medo.

Os rituais continuaram e conforme a lua cheia se aproximava, a mãe, cada vez mais preocupada, tentava em vão conversar com o filho, este por sua vez a ignorava e se trancava no quarto escuro. Laycan o convenceu a marcar o corpo com símbolos supostamente sagrados. Então, Carlos procurou e encontrou uma antiga navalha do avô e com ela fez os desenhos de várias luas, conforme o seu “mentor” lhe mandara, por mensagens cada vez mais longas e detalhadas. As pequenas luas nos antebraços e tornozelos sangravam e eram escondidas por mangas compridas e calças escuras. Quando as meias se sujavam com sangue Carlos as escondia no fundo da lata de lixo, e se a mãe o questionava sobre os pares faltantes ele brigava com ela. Com xingamentos e provocações voltava para seu refugio no quarto.

A mãe também procurava refugio: no álcool. E logo novas garrafas de whisky e vodca surgiram no armário da cozinha. Ao comentar sobre isso com Laycan, Carlos ouviu do amigo sem rosto, que era um bom sinal. Tudo conspirava para que a transformação acontecesse da forma que deveria ser.

E então ela chegou. A lua cheia surgiu no céu quando ele ainda estava claro. Linda, amarelada e brilhante. O sol da noite. E Carlos estava pronto.

Com a orientação de Laycan se preparou para o último, decisivo passo antes de se transformar. Passou o dia todo em jejum o que gerou outra briga com a mãe.

— Você não pode ficar assim. Vai acabar doente. Talvez já esteja. — Ela disse quase gritando.

— Mãe, me deixa em paz. Você é quem me deixa doente! — Ele retrucou no mesmo tom.

— Se me dissesse o que tem eu poderia ajudar…

— NÃO PODE! — Ele gritou mais alto que ela. — Ninguém pode me ajudar, porque eu não preciso de ajuda! Para de pegar no meu pé, eu sei o que estou fazendo!

— Você só tem quinze anos! Não sabe de nada, só está sendo irresponsável e inútil e acabando com a própria vida!

— Falou a bêbada! Alcoólatra!

O tapa veio antes do que ele esperava e deixou uma marca vermelha no lado esquerdo do rosto dele. Carlos se trancou no quarto, de novo, e chorou alto por muito tempo. Ele ouviu o choro da mãe, mas não sentiu nada diante do sofrimento dela. Então soube, havia chegado a hora. A hora da transformação.

Mandou outra mensagem para aquele que agora chamava de mestre:

— Farei hoje. No horário que você disse.

— Não se preocupa, cara! Tô com você.

Carlos se levantou depois da noite colorir de negro a parede do quarto e caminhou lentamente até a escrivaninha. Tirou a chave que trazia pendurada no pescoço e abriu a gaveta. A navalha do avô estava lá ele a apanhou e saiu, atravessou o pequeno corredor e colou o rosto na porta do quarto da mãe. Ouviu por alguns minutos a respiração ritmada. Ela dormia.

Ele abriu a porta, com cuidado e ao parar do lado da cama percebeu a garrafa de whisky no criado mudo. Quase vazia. Os olhos dele se apertaram e ele fez uma careta de desgosto.

A lua banhava o cômodo com seu brilho frio, quando Carlos encostou a navalha afiada, na garganta da mãe. Lembrou-se das palavras de Laycan. Em sua mente perturbada o garoto dera uma voz sútil ao mestre, mesmo sem nunca tê-la ouvido.

— Tem que ser rápido. Encoste a lâmina um pouco abaixo da orelha esquerda dela. Aperte com força e puxe para a direita. Tem que ser rápido. Assim ela não vai sentir dor. Não se esquece de falar as palavras: Te ofereço, grande deusa Lua, este sacrifício em sua honra. Conceda-me o dom de ser seu servo.

Carlos fez conforme ordenado. Mas, ao contrário do que Laycan lhe dissera, houve um barulho assustadoramente doloroso quando a navalha cortou a garganta da mãe. E um reflexo, que a fez abrir os olhos e a boca no momento em que ele puxou a lâmina. Houve um instante, antes que o sangue começasse a jorrar, em que o olhar de ambos se encontrou. E o filho não sabia mais o que estava fazendo.

Ele soltou a navalha do avô e recuou até a parede mais próxima, buscando um apoio, mas o mundo parecia girar enquanto a vida da mãe se esvaia em um rio de sangue.

Estava acabado, ele sabia. Não tinha como voltar, fechou os olhos e esperou pela transformação. Esperou por pelos e por presas, pelo rabo comprido e garras afiadas. Mas esperou principalmente pela ligação instantânea e inquebrável que teria com lobo alfa, com Laycan.

Ansiava por isso mais que tudo. O momento no qual deixaria de ter consciência humana e seria parte do todo. Ao lado dele: seu mestre e único amigo. Mas conforme o tempo passava e nada acontecia Carlos começou a entrar em pânico.

Por que a transformação não começava logo? O que ele havia feito de errado? Talvez, por ter sentido pena da mãe no último instante? Estava sendo punido?

Ele apertava as unhas contra os braços e se balançava de trás para frente, continuamente. Chamava por Laycan em sua mente, crente que nunca mais precisariam se falar por mensagens de texto no celular. Eles deveriam estar ligados para sempre agora. Ele prometeu isso. Mas só havia o silêncio.

Carlos começou a chorar. Um lamento alto e desesperado, quase um uivo. Mas não o uivo de um lobo. Não o uivo que Carlos gostaria de ouvir. Apenas o som de uma criança sozinha e apavorada. E então a companhia tocou. Laycan estava lá, finalmente.

Tiara Gonçalves

Mineira que trocou o norte de Minas Gerais pelo interior de São Paulo, Tiara é analista fiscal e apaixonada por números e palavras. Deixou a literatura tomar conta de sua vida nos últimos anos. Escreve principalmente sobre magia e fantasia, pois acredita que é preciso sonhar e fugir (um pouco) do mundo racional. Quando não está envolta em decifrar nossa complexa legislação tributária, gosta de levar o filho, Pietro, para dentro de suas histórias, lugar onde constroem castelos e matam dragões, porque todas as crianças merecem se aventurar por mundos mágicos.

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