— Por que essa água é quente, papai? — perguntou a menina na canoa.
— Porque é uma lágrima, querida.
— Lágrima de quem?
— De alguém que gosta muito de você — respondeu o pai, secando os olhos com o braço.
— Estou com sede. Posso tomar dessa água? — perguntou a menina, uma mão já mergulhada na água quente que rodeava a embarcação.
— Essa água é salgada, meu bem. Não dá pra beber, ou você vai ficar que nem eu.
— Velho? — arriscou a menina, esboçando um sorriso.
— Velho feio — respondeu o pai, rindo junto da filha.
Mas ele não conseguiu acompanhar a gargalhada cheia de energia da filha. Era difícil rir com a garganta seca e o corpo desidratado. Por dias navegaram aquele mar salgado, as estrelas como sua única companhia. Dia após dia, a chuva se recusou a cair e os cantis já tinham esvaziado. A névoa viera de brinde no dia anterior. O ar estava abafado. Sufocante.
— Olha, pai! São árvores mortas lá na frente?
A névoa dificultava a visão fraca do pai, e para enxergar, ele teve de tirar os óculos embaçados. E mesmo com a vista ruim, não demorou para avistar a silhueta das árvores sem folhas, como esqueletos de madeira morta.
— Acho que estamos chegando, querida. Logo você não vai mais sentir sede.
— Tá bem. — A menina balançava a mão na água morna, enquanto tentava penetrar a névoa espessa com o olhar. — A gente vai encontrar, papai? A Porta? — Ela levou a outra mão acima da testa, para enxergar mais longe.
O pai permaneceu calado. A menção da Porta fez suas mãos congelarem. Parou de remar por um minuto, observando a filha brincar com a água salgada, com a compreensão dura de que o momento não se repetiria.
Nunca mais.
Pois lá ela seguiria o seu próprio caminho, e levá-la era o seu dever. Assim estava escrito. Por isso estavam indo em direção à Porta. À despedida.
— Papai?
— Deve estar por aqui, querida. Presta atenção pro papai.
A menina agora fazia uma luneta com as mãos, e sondava o horizonte em busca de novidades na paisagem desolada.
— Eu achei, papai! Olha lá!
Acima da linha do horizonte, na direção exata apontada pela menina, o gigantesco salgueiro balançava sem vida acima de todas as árvores mortas, imponente na paisagem inerte.
— Já? — Ele queria ter dito mais, mas as palavras lhe faltaram, como aconteceu tantas vezes na sua vida. Pousou a mão no ombro da filha. Ela estava gelada, apesar do vapor abafado que os envolvia. Voltou a remar.
— Papai? Por que aqui é tão triste?
— Por quê? Bom, porque é um lugar de solidão.
— O que é solidão? — A curiosidade da menina era infinita, mesmo aqui e agora, e saciar a curiosidade da filha era uma das alegrias da sua vida.
— Você está vendo mais alguém? Ouviu um passarinho sequer desde que subimos neste barco?
— Não. Nenhum passarinho. É bem quieto aqui. Só tem nós dois.
— Não sente falta dos seus amiguinhos?
— Sinto falta da mamãe. A gente vai encontrar ela na Porta?
— Eu espero que sim, minha linda. — As palavras da menina tinham o peso da saudade. — Eu espero que sim.
— Pai, olha só! É uma floresta!
Enquanto conversavam sobre a Porta e sobre a solidão, o horizonte havia mudado sensivelmente. Uma centena de salgueiros suspirava ao vento mais à frente, confundindo o caminho.
— Filha, pega a bússola pro papai?
A menina retirou animada a bússola da mochila, além de um caderninho e uma caneta Bic pra fazer as anotações. Abriu o caderno e estacou.
— O que foi, querida?
— A bússola ficou maluca. Olha só! — ela disse, entregando o instrumento para o pai.
O ponteiro girava loucamente, sem propósito. Chacoalhar e bater de leve no objeto não surtiu efeito.
— Filha, acho que não vai ter bússola nenhuma. Teremos de nos virar sem ela.
— Vamos seguir o coração? — perguntou ela, o rosto iluminado pelo sorriso mais lindo do mundo.
— Sim, querida. Vamos seguir o coração.
A menina, excitada pela perspectiva de seguir o coração, voltou a brincar com a água quente do mar de lágrima. Mas depois de um ou dois instantes ela parou e afundou o braço na água até o cotovelo, intrigada com alguma coisa.
— Papai, pode parar de remar um pouco?
Ele não questionou o pedido da menina. Retirou os remos da água no mesmo instante e aguardou curioso.
— A água se mexe.
Foi a vez dele sentar ao lado da filha e afundar o próprio braço na água quente e salgada. Era uma sensação estranha: a temperatura do líquido era a mesma da sua pele. Era como se a sua mão, o seu braço inteiro estivesse longe ou deixasse de existir. Era a temperatura de uma lágrima recente.
A menina estava certa: havia correnteza, e mesmo sem remar o barco seguia seu caminho. Subitamente, ele percebeu que alcançariam o horizonte muito em breve. O barco ia direto até a Porta onde ele e a filha seriam separados para sempre.
— É verdade! — Tentou afastar o pensamento triste e aproveitar a filha enquanto podia. — Isso se chama correnteza. — Abraçou a menina, ignorando seu o corpo gelado. Ele tinha calor para dividir.
— Como num rio?
— Como num rio.
— Direto pra Porta?
— O que o seu coraçãozinho diz, querida?
— Que sim.
— Então vamos deixar o rio nos levar.
Aos poucos o barco ganhou velocidade, e o que antes era silêncio foi se transformando num murmurinho. O vento balançava o salgueiro naquela mesma direção. O mundo acabava logo ali na frente.
— Papai, estou com medo — disse a menina, agarrando o ursinho que repousava ao seu lado no chão da canoa.
— Não precisa ter medo. O papai está aqui. — Quis afagar o cabelo da filha, mas sabia que não havia cabelo debaixo da touca azul. Aquilo doeu. Ardeu dentro dele. Abraçou a filha, beijou a testa dela, e continuou: — Logo a gente vai encontrar a mamãe. Agora se segura firme no papai.
Quando o chão sumiu, eles simplesmente despencaram, com barco e tudo rumo às profundezas do mundo. O mar inteiro despencou com eles, como se fossem um. Enquanto desciam, um aroma de perfume de criança intensificou-se a cada metro, acalmando-os, lembrando que estava tudo certo.
— Papai, esse perfume é igual ao meu!
Quando chegaram lá embaixo, o barco afundou como uma gaivota atrás de uma presa certa, e quando voltou à superfície, não tardou a acalmar sobre a água. Logo além da praia, viram um portão de luz. A maré fez todo o trabalho dos remos perdidos, carregando-os, onda após onda, até a areia. Enquanto se aproximavam dos momentos finais da jornada, o pai a mantinha tão quentinha quanto possível num abraço que bem poderia durar para sempre.
Ele desceu primeiro, ajeitando os óculos enquanto pisava na água morna. A menina estendeu os braços e foi descida delicadamente, até os seus tênis prediletos afundarem na areia molhada e as ondas abraçarem suas pernas finas. Eles deram as mãos e seguiram na direção da luz; em silêncio.
A brisa gelada que acariciou o rosto do pai carregava o aroma suave do perfume tão familiar, tão bom que o sufocava. A areia fina e fofa sob os pés dos dois, da cor de creme, escondia uma superfície mais dura, branca e pálida abaixo. Passo após passo a luz dourada cresceu e os envolveu. Ele teve de proteger os olhos com um braço, mas não largou a mão delicada da filha em nenhum momento.
Logo à frente jazia um monte rosado. Para o pai, lembrava a bochecha de uma menina, maquiada. Lá em cima, encontraram o portal. Tudo era luz, o mundo era branco. Tudo era branco.
Da brancura infinita que os envolvia, uma mão se estendeu na direção da menina.
— Vem, minha querida.
— Mamãe! — E a menina fez menção de correr na direção dela, mas o pai não a soltou. Após encarar a filha por um momento, puxou-a de volta e a abraçou como nunca antes, e assim ficou, imortalizando aquele momento. Não queria soltar.
— É chegada a hora dela, querido. Você sabe o que precisa fazer.
— Dói demais.
A mãe estava linda. Radiante. Ela se aproximou dos dois e os envolveu num abraço quente, quase incorpóreo. Encarou o pai da menina com um olhar calmante. A mão dela, quente, tocou seu rosto com carinho.
— Eu sei, querido. Mas você precisa ser forte.
— Eu não pude fazer nada!
— Você fez tudo que pôde. Estou orgulhosa de você.
— Eu vou poder ficar com você, mamãe? Eu estava com saudade!
— Sim, querida. Vamos ficar juntas! Não é o máximo?
Sem aviso, começou a chover terra. Era pouca no começo, e caía aqui e ali, precipitando do céu nebuloso muito acima. Mas logo os nacos de terra começaram a cair aos montes, como se uma montanha os quisesse enterrar.
— O papai vai vir com a gente?
O chão começou a tremer.
— O papai tem que voltar pra cuidar do seu irmãozinho.
A menina se desvencilhou da mãe e abraçou o pai.
— Não quero que vá, papai. Fica com a gente.
— O seu irmãozinho precisa de mim. Você entende não é?
A menina assentiu, cabisbaixa.
— Aqui. Pra você! — A menina estendeu para o pai seu ursinho. Presente da mãe, dois anos antes. A lembrança perfeita.
— Vamos querida! Está na hora.
— Eu te amo, papai! — E com três beijos na bochecha ela se despediu.
— Eu também te amo, querida. Não se preocupe. A mamãe vai cuidar de você.
Ele não soube dizer se as duas sumiram no véu de luz ou se tornaram luz. Eram a luz da sua vida, afinal, e iluminaram seu caminho para além daquelas profundezas, por entre um mundo de terra que desabava e enterrava uma etapa da sua vida, de volta para casa.
Ele tinha de ser forte. Tinha um filho pequeno para cuidar.
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