Conto | Descendo4 min de leitura

Carlos correu em direção ao elevador, mas não conseguiria chegar antes dele terminar de se fechar. De repente, uma mão vinda de dentro do elevador segurou a porta. Carlos respirou aliviado e entrou.

“Obrigado ”,  disse Carlos com as mãos sobre o peito, tentando recuperar o fôlego.

“De nada ”, disse o senhor que trajava um impecável terno branco e aparentava estar na casa dos sessenta.

Carlos apertou o botão do térreo e se recostou na parede.

“Primeira vez que saio tão tarde e encontro com alguém nesse elevador. O senhor trabalha em qual andar?”

“Estou aqui a trabalho, mas não trabalho aqui ”, respondeu polidamente o senhor.

“Ah, sim… Desculpe a minha curiosidade, mas o senhor trabalha com o quê? ”, perguntou Carlos

“Viagens”,  o homem respondeu com um leve sorriso no rosto.

“Viagens?! Não sabia que tínhamos uma agência de viagens nesse prédio.”

“E não tem. Vim apenas lidar com um cliente.”

“Ah! Então o senhor é um agente de viagens.”

“De certo modo, sim. Mas não descreveria meu cargo dessa maneira.”

“Descreveria como? ”,  disse Carlos tentando controlar a curiosidade

“Quer mesmo saber? ”, perguntou o homem. Carlos balançou a cabeça positivamente.

“Sou um anjo ”.  A expressão divertida no rosto de Carlos sumiu rapidamente.

“Isso é algo sério demais para se brincar”,  retrucou Carlos.

“Jamais brincaria com coisas envolvendo o Nosso Senhor.”

Carlos olhou para os números do elevador e ainda faltavam alguns andares para o térreo. O senhor voltou a falar:

“Eu vim te buscar, Carlos. Sua hora finalmente chegou.”

“Primeiramente, eu ainda estou vivo e além disso você não é um anjo. Você é alguém que está debochando de algo muito sério ou então um maluco.”

“Você não poderia estar mais errado”,  disse o senhor sem perder a calma . “Primeiro, você morreu ao entrar nesse elevador. Seu coração não é mais como antigamente e aquela pequena corrida foi o suficiente para cuidar do resto. Mas relaxe, seu lugar ao lado do Nosso Senhor está garantido.”

“Você só pode ser um louco varrido. Se você é um anjo, me prove. Fale algo que só você saberia.”

“Eu sei, por exemplo, que você expulsou seu filho de casa quando descobriu que ele era gay”.  Carlos ficou assustado com a revelação. Sempre escondera a sexualidade do filho da maioria das pessoas a sua volta.

“Eu tentei ajudá-lo. Eu o levei para a nossa igreja como o pastor me orientou, mas ele se recusava a mudar de ideia.”

“Eu sei. Você sempre foi ótimo, jamais duvidando e ouvindo o seu pastor. Não poderia existir alguém mais servil que você. Por essas e outras, você tem um lugar garantido no pós vida.”

“Mesmo? E a minha família?”, perguntou Carlos.

“Sua esposa também está quase garantida lá, visto que ela era tão obediente quanto você, enquanto seu filho provavelmente não virá.”

“Ele é um ótimo garoto, mas escolheu viver em pecado”,  disse Carlos pesaroso.

O senhor puxou uns papéis de seu bolso enquanto aquiescia.

“Só vou precisar que você assine aqui para garantir os seus direitos ao lote”, disse o senhor com contrato e caneta estendidos.

Carlos assinou o papel e o entregou para o anjo. O homem dobrou o contrato e o guardou em seu bolso.

“Tudo certo! E bem a tempo do fim da descida.”

“Descida?!”

Nesse momento as portas do elevador se abriram e um calor absurdo invadiu o elevador.

“Para onde você achou que estava indo? ”,  perguntou o senhor em tom de divertimento.

“Você me enganou! Você disse que era um anjo e me fez assinar aqueles papéis”,  protestou Carlos com uma expressão apavorada ao contemplar a visão fora do elevador.

“Não houve nenhuma mentira da minha parte. Afinal, um anjo caído ainda é um anjo.”

“Você mentiu para mim. Você falou que estava a mando de Nosso Senhor e eu só assinei os documentos porque você me garantiu isso.”

“Disse que estava a mando de Nosso Senhor e não de Seu Senhor. Você não pode me culpar pelo seu engano.”

“Eu fiz tudo que ele pediu, como pude parar aqui? Tem algum erro nisso”.  O suor escorria pelo rosto de Carlos.

“Não tem erro nenhum. O cara lá de cima pediu basicamente para amar o próximo e você não conseguiu fazer isso nem pelo seu filho. Agora eu tenho um contrato com a sua assinatura que comprova que você tem um lote em seu nome aqui.”

“Eu só assinei porque você me enganou, se você não tivesse feito isso, eu não estaria aqui.”

“Você está aqui justamente por fazer coisas que terceiros mandaram fazer em nome de Deus tão cegamente ”, disse o senhor enquanto conduzia Carlos, em choque, para fora do elevador.

A porta do elevador começou a fechar.

Yuri Szirovicza

Nascido no Rio de Janeiro em 1993, sonha ser escritor desde 2002 quando escreveu sua primeira história que possuía 30 protagonistas. Felizmente, aprendeu a trabalhar com menos personagens de destaque. Ama quadrinhos, filmes e longas caminhadas na praia e odeia escrever sobre si mesmo na terceira pessoa.

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