Estava em cima da hora. O semáforo fechou assim que cheguei à esquina. Ajeitei minha saia escura que havia subido alguns dedos na tentativa falha de chegar rápido ao outro lado da rua.
Olhei em volta, impaciente; o céu estava nublado anunciando que, em breve, iria chover. Preciso me apressar pois ainda tenho duas quadras para andar e não trouxe guarda-chuva. Foi nessa divagação que o avistei do outro lado da rua.
Nossos olhares se cruzaram por um segundo…
O resto simplesmente aconteceu. Seus olhos azuis pararam o tempo; me perdi dentro deles e senti como se ele passasse pelo mesmo. Do olhar veio um sorriso, e em câmera lenta o mundo continuou. O estranho veio em minha direção, caminhando devagar com a pasta de couro na mão. O terno escuro impecável e a gravata azul nem se mexeram conforme ele se aproximava.
Quando dei por mim, estávamos na padaria chique da esquina conversando, inicialmente sobre o que fazia pelas redondezas, passando pelas nossas infâncias até os planos para o futuro. A cada comentário engraçado ou teoria maluca, nossos sorrisos e olhares se encontravam, numa conexão que jamais sentira igual. Não sou de acreditar em destino, mas parecia tudo muito certo.
A padaria virou nosso lugar especial. A padoca que já era parte da paisagem ganhou uma cor especial: primeiro encontro. O primeiro de muitos. Passamos a nos encontrar ali pelo menos duas vezes na semana à noite. Muita coisa mudou nos próximos meses. Meu cabelo encurtou em um chanel que sempre tive vontade de fazer, ao mesmo tempo que o rosto liso dele foi tomado por uma barba fina que mantinha sempre impecável e combinava com o sorriso de comercial de pasta de dentes que ele exibia ao me ver.
A vida estava tão perfeita que pareceu voar. Nossos amigos se conheceram, nossas famílias se gostaram e passaram a frequentar a casa uma da outra nos feriados e fins de semana. Meu pai se assustou com a ideia de casamento, mesmo após dois anos de relacionamento, mas se rendeu ao meu sorriso. Sabia que ele e minha mãe estavam felizes, era visível, mesmo quando chegou a hora de me entregar a meu futuro marido no altar.
Conseguimos um apartamento próximo à casa em que ele morou com os pais na zona sul. Era pequeno, mas aconchegante; e foi ficando cada vez mais com a nossa cara. A cada salário, um item novo chegava para transformar aquele cubículo num lar.
Mal completamos a decoração e a vida nos fez adequar o espaço para mais uma pessoa. E depois outra. Em pouco tempo, o apartamento ficou pequeno para a agitação que elas trouxeram para nossas vidas.
Estávamos procurando uma casa com quintal grande e próxima de onde morávamos para que as meninas não precisassem se mudar para longe. Queria que elas tivessem um lugar para brincar e correr à vontade.
Era noite, o jantar estava quase pronto e olhei para o chão da sala pequena enquanto minhas filhas brincavam no tapete com bonecas e carrinhos junto ao pai. Elas falavam agitadas enquanto ele imitava vozes diferentes de acordo com a história que eles estivessem montando. Meu olhar cruzou com o dele, aquele brilho azul, a mesma magia da primeira vez.
E de repente, um trovão me trouxe de volta a realidade.
A realidade, é que nada disso aconteceu. O homem que vi atravessar a rua, olhou o relógio apressado e seguiu seu caminho. Em apenas um olhar eu vi todo um futuro, possível apenas em minha mente.
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Texto livremente inspirado na música Possibilities, do Teddy Geiger
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