Resenha | Americanah5 min de leitura

A palestra de Chimamanda Ngozi Adichie no TEDGlobal de 2009 trouxe o alerta sobre o perigo de contar “uma história única”. A autora nigeriana chama a atenção para como estamos acostumados a ouvir e perpetuar as mesmas histórias e a tomar isso como verdade absoluta sobre qualquer assunto, mas, principalmente, sobre um país ou um povo.

E é justamente o oposto disso que a autora faz no livro Americanah, seu romance lançado em 2013 e absolutamente atual. O livro acompanha a vida de Ifemelu, imigrante Nigeriana nos Estados Unidos, que mostra um outro lado do que é ser mulher, negra, africana e imigrante. Um lado muito mais real do que vemos habitualmente em romances ou filmes.

Na Nigéria dos anos 1990, Ifemelu e Obinze vivem as descobertas do primeiro amor, cercados pelas mazelas do regime militar que comanda o país. Diante do dilema das universidades locais – sempre em greve – e na esperança de um futuro melhor, Ifemelu consegue uma bolsa de estudos e parte para os Estados Unidos deixando sua família e seu grande amor para trás, com a promessa de se reencontrariam mais tarde na América.

Mas a vida da protagonista não é nada fácil no começo. Morando com a tia e o primo pequeno, sem dinheiro ou trabalho, ela se dá conta, pela primeira vez, do que é o racismo. Ela toma consciência de que é negra. Algo que nunca havia afetado sua vida antes.

A construção de Chimamanda é cativante. Ela nos leva pelas palavras de Ifemelu a questionar nossas certezas. A existência do racismo, principalmente o velado, disfarçado de gentilezas supérfluas, é um tapa na cara daqueles que fingem que vivemos em uma sociedade igualitária. Isso fica óbvio quando Ifemelu é obrigada a alisar seu cabelo para conseguir um emprego, no comportamento submisso de sua tia com qualquer americano branco, “como se estivesse sempre pedindo desculpas”.

Com o passar dos anos, Ifemelu se torna uma blogueira de sucesso e conquista estabilidade financeira. Em seu blog escreve sobre as “Observações diversas sobre negros americanos (antigamente conhecidos como crioulos) feitas por uma negra não americana” — nas palavras da própria Ifemelu — mas esse sucesso não é suficiente para ela, que se sente sozinha mesmo em um relacionamento estável. Ela sente falta de Obinze.

Outro ponto alto na trama é a narração, em alguns capítulos, da vida atual de  Obinze. Algo enriquecedor para a história. Pelos olhos dele, podemos observar a força e a frustração dos que ficaram para trás; a maneira como ele se adaptou à vida sem a mulher que amava e como decidiu seguir em frente apesar dos reveses que o acometeram. O reencontro entre os dois é algo esperado com ansiedade.

Ifemelu decide voltar para a Nigéria, após treze anos nos Estados Unidos, e sofre um grande choque de realidade: ela não se encaixava mais em seu próprio país! Se sente estranha. A gíria usada por ela e seus amigos na adolescência serve muitíssimo bem para ela agora, que se sente uma “Americanah”, espécie de termo pejorativo para aqueles que deixavam o país e voltavam forçando o sotaque e tentando ser mais estrangeiros que nativos. Não é intencional, é claro; ela se adaptou à vida na América para sobreviver, e, de volta à Nigéria, terá que se adaptar novamente.

Americanah é um livro muito denso, cheio de nuances e camadas. Mas também é um livro muito bem-humorado e irônico. Com uma descrição precisa, a autora consegue nos apresentar a Nigéria de forma brilhante. Seja descrevendo a cidade onde Ifemelu cursa a faculdade Nigeriana, falando sobre a lentidão com que a vida transcorre naquela cidade, até mesmo ao dizer como a protagonista sente falta de subir e descer as escadas, devagar. Tudo contribui para tornar o cenário quase palpável.

Apesar de ser um calhamaço de 516 páginas, a leitura é prazerosa, passa rápido. Os personagens são ricos, plurais e Chimamanda não tem pressa em descrevê-los. Eles nos cativam de forma diferente e, não, menos importante.

Podemos citar um ponto fraco no livro, que não passa despercebido: a conclusão superficial que alguns personagens têm. Em dada altura do livro, já estabelecemos uma relação com cada um e desejamos saber que fim levaram, expectativa que é frustrada em alguns casos. Nada que comprometa a narrativa, mas, ainda assim, um incômodo. Uma lacuna a ser preenchida pela imaginação.

Eu diria que Americanah é um romance completo. A história de amor está lá, apesar de ser secundária. A aventura de se lançar para uma nova vida buscando um sonho, também. Mas é impossível falar desse livro sem citar a forte crítica social que carrega, a própria Ifemelu é uma personagem extremamente crítica. Ela sofre com o racismo e o machismo e lida com suas consequências, e os enfrenta. Sem medo de dizer o que pensa, e sem medo de que suas gritas sejam tratadas como vitimismo ou o famoso mimimi, que conhecemos tão bem, cada vez que abordamos tais temas.

É preciso falar, discutir, problematizar tais assuntos e a literatura tem papel fundamental nesse debate. Americanh faz isso com maestria. Nos contando outra história. Não a história de uma menina negra que sofre a vida inteira com tragédias e abusos para no final ser salva, por um príncipe (ou um missionário branco). Não. Este é um livro em que ninguém precisa ser salvo, em que os personagens caminham com os próprios pés, cometem os próprios erros. A protagonista não é uma heroína, ela é cheia de defeitos, e isso talvez, seja o que a torne tão envolvente.

Em tempos de intolerância e preconceitos cada vez mais gritantes, Americanah se torna cada vez mais essencial. Chimamanda deixa claro, nesse livro, a importância de contar histórias plurais, como ela nos diz na palestra já citada: “Nós somos impressionáveis e vulneráveis face a uma história…”

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Tiara Gonçalves

Mineira que trocou o norte de Minas Gerais pelo interior de São Paulo, Tiara é analista fiscal e apaixonada por números e palavras. Deixou a literatura tomar conta de sua vida nos últimos anos. Escreve principalmente sobre magia e fantasia, pois acredita que é preciso sonhar e fugir (um pouco) do mundo racional. Quando não está envolta em decifrar nossa complexa legislação tributária, gosta de levar o filho, Pietro, para dentro de suas histórias, lugar onde constroem castelos e matam dragões, porque todas as crianças merecem se aventurar por mundos mágicos.
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