Conto | Aprendendo a voar13 min de leitura

Chega a tão esperada primavera. A casca quebra. As barreiras se rompem. A vida emerge da escuridão. O instinto materno transmite a certeza de que ele é bem-vindo. O conforto aconchegante sob as asas; a sensação de segurança; a confiança de que será cuidado; o alimento adquirido sem a menor dificuldade; o calor da plumagem. Tudo afasta o pequeno pássaro do conceito básico do medo.

Afinal, ele é presenteado com proteção.

Os dias passam. Os sentidos se desenvolvem. O que antes era apenas trevas adquire forma e cor; o inodoro, analisado com mais atenção, ganha fragrâncias diversas e exóticas; a noção do invariável e eterno calor é substituída pela agradável sensação da brisa; o gosto da comida, até então inimaginável, traz explosões de sabores e combinações intermináveis; o silêncio perpétuo é rasgado pelos diferentes cantos, deixando-o eufórico.

O desconhecido começa a fazer sentido gradualmente.

O aroma adocicado de uma fruta. Os pios costumeiros. A briga com os irmãos para a obtenção do alimento. A minhoca cessando a fome. O farfalhar de folhas. O quebrar de um galho. O rosnado estranho e ameaçador. O predador que se aproxima. A fúria materna. A atenção permanente. As asas protetoras. A percepção em constante desenvolvimento.

A independência aos poucos toma corpo.

Ao redor, os irmãos se aprontam; as patas agarradas às beiradas do ninho; as asas balançando no ar, acompanhadas de pios entusiasmados e olhares sonhadores. Nesgas de sol achando passagens entre as árvores. O frescor da mata.

Um perfeito dia para aprender a voar.

Vários filhotes, de outros ninhos, tentam se equilibrar no ar, fingindo que este, além de maleável, seja palpável. A mãe do passarinho está logo à frente, batendo as asas de forma encantadora e convidativa.

“Vocês conseguem”, ela incentiva.

Os irmãos inflam o peito de coragem e saem mundo afora. Todos pretendem se desgarrar do ninho e partir em suas próprias aventuras. Eles fazem parecer fácil. Na dúvida entre ficar ou partir, ele olha para as árvores que sempre reconheceu como lar. Os pequenos galhos que formam sua cama macia. As folhas secas ao redor.

“Está na hora”, a mãe diz alegre.

Os demais se impulsionam e somem de vista, caindo, precipício abaixo, alçando-se do chão centímetros antes de desaparecerem em meio à relva alta. Intrigado pelo desconhecido, o passarinho, nada confiante, decide participar. Ele se apoia na beirada do ninho; observa o penhasco e profere um chiado inundado de pânico.

“Vamos, é só um passo”, a mãe o encoraja.

O pequeno coração martela contra o peito, mas o medo ainda não faz parte do seu ser; é pura adrenalina e expectativa. Ele inspira e expira, se aprontando para o maior passo que dará em toda sua vida. É sua hora tão aclamada. O mundo passará a ser seu ninho agora. O ímpeto cresce. Ele abre as asas, procurando abraçar tudo que o mundo oferece e fecha os olhos antes de mergulhar. Uma brisa forte sopra em seu rosto e o pequeno pássaro, em choque por estar se aproximando do chão com tanta velocidade, implora por socorro.

A mãe o ampara e o leva de volta ao ninho.

A respiração ofegante. Os olhos arregalados. Ele acabou de desvendar o que o medo significa, ou, ao menos, de achar que desvendou. Assustado, ele se encolhe.

“Tente de novo. Você precisa aprender a mexer suas asas”, a mãe o repreende.

Com mais receio das consequências da desobediência da ordem materna proferida do que da própria queda, ele segue as orientações.

Um. Dois. Três…

Novamente ele grita por socorro. A mãe, sentindo-se no dever de protegê-lo, mas ao mesmo tempo de ensiná-lo, ao invés de ampará-lo por completo e o levar em segurança ao ninho, apenas suaviza sua queda. A queda dói, o passarinho se dá conta. Depois de um tempo, a mãe o devolve ao ninho para uma terceira tentativa. Os irmãos riem, pousam no ninho e o empurram diversas vezes. Envergonhado e humilhado, a faísca de uma possível confiança em si mesmo desaparece. O mundo é apavorante. Os riscos são desproporcionais, então por que corrê-los?

O desconhecido passou a não ser bem-vindo.

A mãe ralha com os demais filhos pela brincadeira sem graça. Ela protege seu filhote, sempre protegeu.

“Esse é o instinto de sobrevivência. Não posso cuidar de vocês para sempre. O primeiro passo para o sucesso é o mais difícil, pois é seguido do primeiro tombo”, ela avisa.

Mas não resta nada que ela possa dizer para fazê-lo se sentir melhor. Então, ela o abraça. Porque o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço protetor. Com os olhos enterrados na plumagem macia, ele derrama lágrimas de derrota e frustração que ferem sua alma.

Voar? Nem pensar.

***

A mãe, com muito esforço, convence o passarinho a tentar novamente. Mas, depois de dias de tentativas infrutíferas, os demais não podem mais esperá-lo. Eles irão se separar; não existe como evitar. O desespero o atinge. Como ele sobreviverá? Sua mãe. Sua mãe sempre o protegeu. Seus irmãos se despedem um a um, desejam a ele que encontre seu caminho, que bata suas asas e seja menos medroso, então partem para seus destinos. Resta apenas ele e a mãe.

“Preciso ir”, ela informa. “Não posso mais esperar, tenho que construir outros ninhos, seguir adiante. Está na hora de tentar uma última vez”. A mãe é sua proteção. Se sua mãe se for, o que será dele? O passarinho suplica para que ela não vá, que não o abandone. Quer apenas um lugar para ficar, chamar de lar. É sua desculpa.

“Você precisa ir”, a mãe faz sua última investida, já saindo do ninho. Mas se ele não quer, por que precisa? “Porque é preciso partir para saber onde realmente se quer estar. O mundo é amplo demais para sempre ficar em um mesmo lugar, com receio do desconhecido, e colorido demais para se deixar cegar”, ela diz, dando meia volta e seguindo seu próprio caminho.

A realidade devastadora o esmaga em segundos: ele está sozinho.

A floresta se torna mais escura e densa. A natureza o condena. A seleção natural à qual a vida submete a tudo e a todos. Sem a proteção das asas da mãe, ele se sente exposto ao frio, perdido, como se estivesse em um ninho qualquer. Sem o barulho dos irmãos, aquele não é mais seu lar. Encolhido, ele permite que o coaxar das rãs o embalem no sonho mais profundo de toda sua vida.

Ao acordar, está descansado, mas faminto. Decide sair do ninho mesmo que não esteja preparado. Afinal, talvez nunca esteja preparado. É o instinto dizendo para se desgarrar do passado e seguir em frente.

As patas se apoiam na borda do ninho, flexionadas. Seus olhos se deparam com uma minhoca no solo. É sua chance. Nunca estaria tão pronto como naquele momento. Ninguém poderia fazer isso por ele. Com foco, tendo seu objetivo em mente, ele se atira e balança as asas para um pouso tranquilo. Só depois de se alimentar percebe o grande passo que tomou. Não precisa mais voltar, agora que partiu. Impulsionando as patas no chão ele levanta voo pela primeira vez. Conforme o vento sopra, o carrega, ele se acostuma e segue seu rumo, abandonando o que um dia foi seu lar.

***

Os dias se transformam em meses.

Voar não é tão difícil, afinal. A floresta deixou de ser sombria e a vida não é tão ruim quanto um dia pensou que fosse. A época do acasalamento chega. Pássaros de todos os tamanhos e cores tentam impressionar suas possíveis parceiras, almejando um futuro promissor. Ele os observa, planeja suas táticas. Escolhe uma candidata pomposa, com penas vermelhas e amarelas, cujo canto o deixa encantado. Ela voa alto e rápido. Destemida. Já que era seu oposto, seria um belo complemento.

Ele, para impressioná-la, utiliza-se das estratégias alheias. Mergulha no ar, formando um arco, e voa bem rente ao chão; as penas encostando-se à grama. A possível parceira não esboça qualquer reação, muito pelo contrário, o ignora. Ele desenha círculos no ar, tentando captar sua atenção, mas falha novamente e quase acerta uma árvore. A possível parceira apenas ri. Envergonhado, mas determinado ele decide fazer o que nenhum outro pássaro fez…

Voar para além das árvores.

Tomando impulso, ele, rapidamente, se desvencilha das folhas e chega ao azul celeste do céu. Percebendo ter captado a atenção da fêmea, o pássaro decide voar ainda mais alto para demonstrar suas habilidades.

Todo aquele tempo que gastou aprendendo a voar valeria a pena agora.

No entanto, ele se descuida. Quando percebe, está voando alto demais e um gavião, inimigo mortal, se aproxima.

O medo, de fato, existe. E um novo sentimento, enraizado no medo, também o atinge: o pavor.

O instinto de sobrevivência berra dentro dele.

O pavor existe! E o perigo está à espreita, aguardando uma oportunidade para abocanhá-lo por inteiro e o separar da vida.

Ele voa em ziguezague, tentando despistar seu predador, mas não existe para onde correr. O gavião está mais perto. Cada vez mais perto… Suas asas não são rápidas o suficiente. O pássaro entra em choque. Ele se lembra daquele pequeno passarinho que não conseguia sair do ninho, que não era bom o bastante e não estava preparado para uma tarefa tão assustadora, e suas asas travam.

A gravidade faz seu papel e ele cai em queda livre em meio à mata, batendo em folhas, galhos; atingindo o chão.

Assim que recupera consciência, ele tenta voar. No entanto, uma dor lancinante atravessa seu pequeno corpo, provocando leves espasmos. Sua asa está em um ângulo engraçado, nada natural. Com esperança, ele aguarda, esperando que a fêmea de penas vermelhas e amarelas vá a seu encontro, ajudá-lo, mas ela não vem. Ninguém vem.

Novamente, ele se encontra sozinho. E, dessa vez, bem machucado.

Deveria saber melhor, se reprime. Voar alto demais é se expor ao perigo. No fim das contas, fingir ter qualidades que não se tem é uma péssima ideia. A falta de atenção havia lhe custado a parceira. Nenhuma fêmea gostaria de um passarinho imprudente, que não sobrevivesse para ajudar a cuidar e proteger os futuros filhotes.

A cautela é essencial.

E, no fundo, ele não queria ser um pai ausente, como o dele fora.

A dor é insuportável para o pequeno corpo. Ele grita. Implora. Chora alto para que alguém o ampare. Quando está a beira de desistir, logo antes de desmaiar, uma mulher coloca as mãos em forma de concha sob seu corpo frágil e o ergue do chão.

***

Algo prende suas asas junto ao corpo. Grades estão espalhadas por todos os lados.

Preso.

É isso o que os humanos fazem: eles aprisionam, achando que cuidam, com a ilusão de que libertam.

Apoiando-se, ele consegue levantar. O mundo gira. A dor, pelo menos, diminuiu. O soar de um canto melódico, alegre, doce e envolvente atinge suas orelhas. Ele fica eufórico. É uma linda fêmea, azul e branca. Ela voa de maneira elegante pelo pequeno espaço. Foge da sua compreensão a tranquilidade no olhar dela. Receoso, ele apenas a observa.

A mulher que o recolheu da floresta entra pela porta e estende um dos dedos no ar. A fêmea azul pousa sobre o dedo e profere um lindo canto.

O canto perfeito.

A porta fica entreaberta. O passarinho pode ver o céu, as árvores, o mundo ao qual ele pertence. A fêmea, no entanto, nada faz. Apenas canta e agrada sua dona. Como um ser com asas pode ser um bicho de estimação? Como alguém que pode voar não busca a liberdade?

Entre gritos histéricos ele permite que suas faixas sejam trocadas.

“Deixe que ela cuide de você”, a fêmea azul diz. “Ela me ajudou quando eu estava ferida também”. Mas por que ela, se estava curada, ainda não havia ido embora? Por que não estava procurando uma maneira de escapar e readquirir sua liberdade? “O verdadeiro significado da liberdade é poder escolher entre ir ou ficar”, foi sua singela resposta, horas depois.

O processo de reabilitação foi longo e doloroso. A asa dói pouco após meses de pequenas sessões terapêuticas com a mulher que o tirou da floresta. Ela não era de todo má, afinal. O ajudou com o machucado, seus dedos acariciaram suas penas, deram-lhe alimento e envolveram-no em cobertores. E ela não o transformou em escravo.

A fêmea azul e branca sempre ficou ao seu lado, dando-lhe apoio e incentivo; cantando como só ela sabia, alegrando seus dias de recuperação e desolação; auxiliando-o quando possível. E agora sua gaiola era balançada de um lado ao outro e ele estava ao ar livre.

Ele está pronto. Completamente pronto para tentar voar.

A mulher leva-o ao pátio. A brisa sopra, roçando em seu pequeno bico. A fêmea azul e branca o acompanha, radiante. O coração dele martela contra o peito, as lembranças atingindo-o de uma vez. Ela sabe o que acontecerá em seguida. A história está se repetindo.

A mulher coloca a gaiola sobre o parapeito da janela e deixa uma abertura.

Nada o impede de sair voando.

“Vamos, você está pronto”, a fêmea azul diz. “Não tenha medo, é só não voar alto demais, nem baixo demais…”. Dessa vez, porém, o pássaro não tem medo de cair, não tem medo do desconhecido, mas sim de não poder ficar. “Agora, você pode fazer o que quiser.”

Então, ele entende.

Não é preciso saber voar para poder ficar, embora seja, sim, necessário saber voar para poder decidir entre ficar e partir. A liberdade é o poder de decisão. O pássaro sabe que cairá mais vezes, pois ninguém aprende a voar sem antes cair, se machucar. O importante é o que se faz no meio tempo, entre o cair e se reerguer, entre o falhar e o persistir.

A fêmea azul é iluminada pelos raios do sol. Ele sabe que ela jamais partirá, deixará sua dona. A fêmea azul canta, incentivando-o. É por causa daquele canto que ele abre as asas.

O aprender a voar nunca acaba, é um ensinamento que nunca cessa.

Ao menos, agora, ele já sabe onde ficar; resta apenas reaprender a voar.

Vitória Castro

Nasceu em julho de 1995, em Taubaté-SP, cursa Ciências Jurídicas e Sociais na PUCRS, em Porto Alegre, onde mora. É formada em Inglês e Espanhol, aspirante à escritora e passa a maior parte do tempo em que não está envolvida com a faculdade afundada em livros e séries. Filha de militar e professora, tem vida de nômade e viaja nos fins de semana para ver a família. Acredita em bruxos, lobisomens e que, com um pouco de talento e esforço, tudo é possível.

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