No meu aniversário de oito anos, apontaram uma arma para minha cabeça. Mas sabe o que ficou guardado, mesmo, como uma cicatriz na minha retina? O brilho nos olhos do traficante que torturou e matou minha tia. Forçaram a gente a assistir, meu irmão e eu. Tentamos dar as mãos. Sorrindo, quebraram nossos dedos.
Quinze anos depois, a situação nesta cidade de merda continua ridiculamente triste. Hoje era para ser um dia feliz. É o aniversário de vinte e cinco anos do meu irmão. Como a irmã querida que sou, preparei um bolo de chocolate. Pouco me importa se gastei dinheiro que não tenho. Só queria ver um sorriso alegre no rosto dele.
Ele chegou acompanhado de um amigo, um traficante. Eles entraram na minha sala com fuzil pendurado no ombro. Era para ser um lugar sagrado, um refúgio imune à violência lá fora. Quando invadiram meu espaço com armas e cheiro de cachaça, um enjoo atacou meu estômago como uma úlcera.
Vela assoprada e bolo comido, chega a hora dos presentes. O meu foi modesto, um kit de espetos novos. Mas então veio o presente do traficante: uma pistola preta.
Enquanto engatilha a arma novinha, os olhos do meu irmão brilham. Isso me dá calafrios. Eles são portas para aquele dia horrível, e eu tenho a chave. Está na minha retina. Enquanto riem na sala de estar, estou de joelhos, amordaçada, os dedos quebrados. Eles abrem uma cerveja e tudo o que ouço é aquele tiro.
Dyego Maas
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