Conto | Liberdade

Por: Adele Lazarin

O vento carregou Laila para longe do penhasco, em direção ao abismo. Sem amarras ou segurança, ela se deixou levar pelo impulso, mergulhando de cabeça e abrindo os braços, pronta para abraçar o mundo. A barriga começou a formigar, e, logo, esse estranhamento se transformou em cócegas. Partindo do umbigo, o sentimento de liberdade se expandiu por todo o corpo até explodir em uma risada.

E, então, ela abriu os olhos.

O mundo se descortinou à sua volta. O mar, lá embaixo, se aproximava rapidamente, o azul marinho brilhando mais intensamente do que quando ela o observara momentos antes do salto. As montanhas pareceram se abrir, mostrando vilarejos e florestas que se perdiam de vista. O cabelo, que antes estivera firmemente amarrado no topo da cabeça, se soltou enquanto a garota caía, e alguns fios vibravam em seu rosto.

Enquanto todo o peso dos medos que carregava há tanto tempo bandonava seu corpo, Laila levou a mão à espada do pai, presa à cintura. Ela sentiu os dedos envolverem as joias do cabo, quentes como sangue. Era a única lembrança que tinha da família e o único objeto que atrevera a levar consigo durante a fuga. O resto eram memórias de um passado que gostaria de esquecer, junto aos escombros de sua antiga casa.

Segurando a espada com força, como se temesse perdê-la durante a queda, Laila juntou os lábios e assoviou. O ruído, longo e agudo, reverberou entre as montanhas e alcançou o céu. Ainda caindo, ela esperou.

Em pouco tempo, a jovem ouviu o som crescente de asas batendo, se aproximando cada vez mais. Apesar da velocidade em que caía, conseguiu virar o corpo com certa facilidade e olhar para cima, a tempo de ver um imponente hipogrifo voando em sua direção.

As penas coloridas nas asas fortes do animal refletiram a luz do sol, iluminando o rosto de Laila. Os olhos negros, da cor do céu noturno, cintilaram ao olhar para ela. Um misto de carinho e saudade. Apesar do corpo pesado, o hipogrifo encolheu um pouco as asas e circundou a garota suavemente até alcançar a velocidade da queda dela, e permaneceu voando ao seu lado.

Laila tirou a mão do cabo da espada e a pousou no corpo do gigante ao seu lado. A cabeça, as asas e os membros dianteiros lembravam uma águia, enquanto as pernas traseiras e o rabo se assemelhavam às de um cavalo. A criatura virou o bico para a garota em uma tentativa de sorriso.

Os dedos roçaram nas penas ásperas do animal, mas ela não se importou com o toque ríspido em sua pele. Em vez disso, o contato apenas lhe fez sentir conforto pelo reencontro com um velho amigo. Finalmente, ele havia voltado para levá-la embora daquele lugar e ela, enfim, partiria em sua própria aventura.

Segurando firme as penas no pescoço do animal, mas não forte o suficiente para feri-lo, Laila sentiu que estava na hora de seguir em frente.

O hipogrifo soltou um grito rouco e, delicadamente, empurrou as asas para baixo, endireitando o corpo pouco antes de chegar ao mar. Laila sentiu um puxão no estômago quando deitou sobre o dorso do animal, e riu. Ela checou mais uma vez se a espada estava segura em sua cintura e depois tocou com carinho a cabeça de águia à sua frente.

— Estou pronta.

Com mais um grito, o hipogrifo abriu as asas ao máximo e subiu aos céus. Os dois estavam juntos novamente e, agora, poderiam conhecer um mundo novo.


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