Conto | Levon, a criança do Natal

Por: Yuri Szirovicza

Levon olhava para o relógio ansiosamente toda vez que a imagem da cabine de transmissão desaparecia da tela. Eram 22 horas da véspera de Natal e ele só conseguia pensar sobre o quanto queria estar em casa ao lado de sua esposa e filho. Detestava a ironia de que para dar uma vida mais confortável e melhor para eles, tinha que ficar longe pelo maior tempo possível. O mês de dezembro havia sido muito desgastante, mas isso era só uma impressão causada pelo ano inteiramente cansativo.

Ao fim da transmissão, Levon removeu seu equipamento, pegou as chaves do carro, desejou um feliz Natal para todos que, assim como ele, estavam longe de suas famílias trabalhando. Entre abraços e desejos de feliz Natal e aniversário, Levon se sentia mal por estar com tanta pressa e não ter mais tempo para dar atenção àqueles que considerava sua segunda família.  Continuar lendo “Conto | Levon, a criança do Natal”

Conto | Meu pesadelo de Natal

Por: Adele Lazarin

Tive minha primeira decepção com o Natal aos oito anos.

Fazia muito calor, como sempre faz nessa época do ano. Entediado, me larguei no chão da cozinha e fiquei deitado no piso gelado. Sem força para sequer levantar o braço e enxugar a testa, continuei sofrendo imóvel com o suor escorrendo pelo meu rosto.

Ouvi a chave girar na fechadura da porta da sala e o salto alto da minha mãe entrar correndo em casa. Em poucos segundos, vi dois pés calçando sapatos vermelhos aparecerem em meu campo de visão limitado, pararem por um momento e sumirem de novo. Então senti um cutucão forte nas costas e resmunguei baixinho em protesto. Continuar lendo “Conto | Meu pesadelo de Natal”

Conto | Mas é pavê ou pá…

Por: Camila Servello Aguirre

Precisei abrir o primeiro botão da calça. Naquele ritmo, terminaria a noite mais obeso do que o leitão que devoramos. Largado para trás, começava a achar a cadeira o local mais confortável do mundo. O calor, tão comum em dezembro, era ainda pior com o estômago cheio. Meus movimentos eram letárgicos e suor escorria em grossas gotas. Seria culpa do vinho ou daquela lerdeza após uma refeição farta?

Não dispensava atenção a mais nada. Não que não quisesse, mas era simplesmente impossível. Estava curtindo aquele momento único de contemplação, perdido em pensamentos, sentido a barriga cheia e hipnotizado pelas luzes que piscavam coloridas do lado de fora da janela. Não dava para responder à tia que perguntava sobre “as namoradinhas”, ou ao pai pedindo que fosse buscar mais uma cerveja, nem ajudar a avó que trazia mais uma pesada travessa de alguma guloseima. Pelo amor de Deus, não cabe mais nada aqui dentro! Dava tapinhas pouco acima do umbigo esperando que houvesse algum alívio. Os primos menores, correndo e gritando pela casa, me perguntavam alguma coisa com insistência. Eles, eu fazia questão de ignorar. Continuar lendo “Conto | Mas é pavê ou pá…”

Conto | O que o Natal pode trazer

Por: Tiara Gonçalves

Houve um tempo em que as festas de Natal eram cheias de luz. As pessoas se reuniam em volta de grandes mesas cobertas com toalhas brancas e comida abundante. Todos riam, contavam historias e trocavam presentes. Mas esse tempo ficou para trás.

Nos natais da vida, Mariland não ganhava presentes. Não comia nada diferente; era sempre a mesma proteína de soja ou sopas enlatadas, como em qualquer outro dia. Entretanto a garota tinha algo raro nos dias atuais: ela tinha esperança. Mesmo quando os agentes do governo invadiam o assentamento e levavam os homens ainda saudáveis, mesmo quando o frio era intenso demais e todos eram obrigados a se amontoarem para compartilhar um pouco de calor corporal, mesmo quando a energia, racionada, era totalmente cortada e eles ficavam no escuro. Ainda assim, ela era capaz de sorrir e se encantar. Continuar lendo “Conto | O que o Natal pode trazer”