Por: Clóvis Nicácio
— Você está livre agora.
A frase pronunciada na presença da princesa morta, momentos depois de ter exalado o último suspiro, parecia surreal. Nenhuma das duas criaturas queria ou podia acreditar que tudo acabou. A que parecia uma mulher humana reagiu como se estivesse em outro mundo.
— Agradeço a deferência, Majestade, mas não me sinto livre. Minha permanência em seu planeta não foi só por causa dela. Todos me receberam muito bem. Eu deveria ter imaginado que isso poderia acontecer. Deveria ter me preparado melhor para defendê-la. Não consigo aceitar esta despedida.
— Não foi sua culpa, Criatura de Luz. Se você falhou, eu também falhei. Todos, eu e meus súditos, sabíamos desta possibilidade. Desde o nascimento, Ayshalind sempre esteve em perigo. Como castigo por minha incapacidade em protegê-la, perdi minha filha, perderei meu reino e serei o responsável pela destruição do meu povo.
Mesmo não havendo lágrimas, a mulher podia sentir a sinceridade e a dor no coração do Rei Lacertan, o enorme monarca esverdeado de quase oito metros de altura com mais de seis toneladas. Se fosse uma criatura menos volumosa ela se arriscaria a dar um abraço naquele pai, visivelmente sofrendo com a ausência da única filha. Nunca viu uma daquelas criaturas chorando. Nem sabia se tinham essa capacidade.
— A Princesa me contou sobre a guerra civil, mas não disse que a situação estava tão crítica. O que pode acontecer agora?
— Ela era nossa última esperança de manter alguma ordem. Meus inimigos são poderosos e agem nas sombras. Estão tentando me derrubar há vários ciclos para implantar um regime de escravidão. Sei que estão recrutando muitos seguidores, com a promessa de riquezas. Enquanto eu tinha uma sucessora, as chances de vitória deles com a minha morte eram reduzidas. Agora me tornei o único alvo, e quando eu não estiver mais aqui não haverá ninguém para proteger meu povo.
— Isto não pode acontecer, Majestade. Conheci Ayshalind há pouco tempo, mas através dela sei que o senhor é um governante sábio e justo. Este movimento precisa ser detido.
— Sem uma herdeira e na minha idade, nosso regime Monárquico está condenado. Ela parece que previu isso e me fez uma proposta revolucionária, como só os jovens conseguem imaginar. Se a tivesse escutado, minha filha ainda estaria viva. E pensar que ela só viveu dois ciclos de maturidade.
— Cada ciclo na sua cultura equivale a cem anos na minha, Majestade. Minha experiência diz que os duzentos anos dela foram suficientes para torná-la bem adulta. Vossa Alteza a educou muito bem.
— No último décimo de ciclo você se tornou uma amiga muito especial para Ayshalind. A sua presença foi o último pedido dela. Por isso te chamei aqui, neste momento tão difícil.
Para um humano normal é praticamente impossível reconhecer emoções no rosto de uma criatura coberta de escamas, embora os sentimentos vibrem nas mesmas frequências energéticas. A mulher podia sentir as menores alterações e não tinha necessidade de interpretar rostos.
— Se me permite perguntar, Majestade, qual das ideias dela era revolucionária?
— Ela sugeriu que eu extinguisse a monarquia. Na verdade, nunca pretendeu usar a coroa. Preferia viajar e conhecer todos os universos. Eu estava considerando permitir que ela partisse com você, quando esta desgraça aconteceu.
Em civilizações avançadas, quando conduzidas com sabedoria, até trocas de regimes podem ser executadas, sem provocar maiores traumas. A criatura luminosa havia observado algumas situações assim em outras culturas do segundo universo, provando que a evolução está em pleno andamento. É um consolo, pensar que alguma coisa positiva pode ser extraída de uma tragédia. Sem a capacidade de interpretar variações mínimas de energia emocional, o Rei continuava:
— Eu deveria nomear uma junta de cidadãos confiáveis para criar um governo de transição e depois passar o poder para eles. Nesta fase, para provar o meu envolvimento, minha sucessora natural seguiria para o exílio em algum lugar distante e depois que abdicasse do trono, eu mesmo seguiria ao encontro dela. Se nesse meio tempo alguma coisa me acontecesse, ela voltaria para assumir o trono no meu lugar, mesmo contra a vontade. Agora, nada disso importa mais.
— Essa transição acabaria com a guerra civil?
— Provavelmente sim, pois os rebeldes dificilmente derrotariam uma junta de cidadãos sérios, legalmente nomeados. Mesmo que matassem ou corrompessem algum deles, ou outros neutralizariam a revolta. Mas isso seria uma coisa de longo prazo. Estimo que levaria uns oito a nove ciclos para afastar definitivamente o fantasma da escravidão, almejado por uns poucos poderosos inconsequentes.
— Majestade, nós acabamos de vê-la partir. Alguém mais sabe que a Princesa pode estar morta?
— Não, só você e eu. Dos três seguranças que estavam com ela, na hora do atentado, um morreu e os outros dois a trouxeram para cá, depois de matarem o assassino. São os que mandei te procurar. Meu médico particular saiu para buscar ajuda com ela ainda viva. Ninguém sabe ainda que o ferimento foi fatal. Será um choque terrível para eles quando souberem que ela não resistiu. Por que pergunta, Criatura de Luz?
— Na minha unidade de tempo, estivemos juntas por dez anos. É suficiente para que eu a admirasse profundamente. Ela sempre esteve preocupada com o senhor, mas nunca me disse que ela mesma podia morrer violentamente. A Princesa me protegeu e me acolheu, e mesmo assim falhei com ela. Quero compensar, de alguma forma.
— No que está pensando?
— Se Vossa Alteza permitir, podemos prosseguir com o plano dela.
— Explique-se.
— Quando nos conhecemos, eu estava sendo perseguida por falsos Quiropters, outros seres polimórficos como eu. A Princesa me escondeu na nave dela e permitiu que me disfarçasse como uma da sua espécie. Enxotou meus perseguidores e me protegeu. Ficamos amigas. Usei o disfarce várias outras vezes. Não tenho poder para devolver a vida para Ayshalind, mas posso proteger a memória e a honra dela, por algum tempo.
— Está propondo tomar o lugar dela?
— De certa forma, sim. Posso assumir a aparência dela e partir para o exílio, enquanto Sua Majestade acaba com a guerra civil e restaura a paz. Todos devem pensar que ela continua viva, apesar de distante. Prometo ajudar todos os povos e todas as espécies que puder, em nome dela. Farei com que todos se orgulhem da Princesa.
— Ela me contou dos seus poderes, mas não tenho o direito de te pedir algo assim! Os rebeldes te seguirão e outros atentados vão acontecer.
— Meus poderes me tornam imortal, Majestade. Meu corpo físico pode ser ferido e posso ser neutralizada por algum tempo, mas saberei me defender. Enquanto me parecer com a Princesa, estarei protegida dos meus próprios inimigos. Será bom para nós duas. Em nove ciclos eu voltarei, simulando alguma doença, para morrer aqui. O povo, que então estará livre, poderá oferecer o funeral que Ayshalind merece, digno de uma Princesa. Vossa Majestade só terá que conservar o corpo dela, até meu retorno.
— Posso mantê-la numa cápsula criogênica, em segredo. Tem certeza que quer fazer isso? Eu e meu povo teremos uma dívida eterna para com você, mesmo que seu nome nunca apareça.
— Toda a honra será minha, Majestade. Eu só existo para ajudar. Neste caso, estarei redimindo a minha falha.
— Sei que será uma farsa, mas é nossa única chance de salvar a todos. Minha filha aprovaria. Esse segredo deve permanecer entre eu e você, Criatura de Luz. Transforme-se, quero ver.
A mulher começou a brilhar, dissolvendo a aparência humana e voltando a própria essência, justificando o nome de Criatura de Luz. Como se fosse um vagalume, flutuou até o corpo da Princesa e o tocou por alguns momentos, absorvendo as instruções para o próximo estágio. Em seguida, a luz voltou a se expandir, até a altura de seis metros, e se alargou formando um enorme corpo esverdeado com cinco toneladas. A cópia perfeita da Princesa Ayshalind surgiu na frente de um Rei estupefato.
— Isto é incrível! Eu não acreditaria se não tivesse visto com meus próprios olhos… Mas, você está ferida!
— Copiei o ferimento, Majestade. Para poder sair deste aposento sem causar suspeitas. Mas em mim não é mortal; farei com que meu corpo se cure assim que possível.
— Acredito em você. Agora, precisamos definir nosso futuro. Venha comigo, antes que o médico volte. Vamos preparar sua partida.
— E a Princesa?
— Estes aposentos são particulares e estão isolados. Cuidarei da minha filha pessoalmente quando for seguro. Ainda tenho muitos súditos leais, que me ajudarão com a cápsula criogênica. O mais importante agora é você. Vamos justificar a urgência do exílio alegando que o atentado nos fez decidir em conjunto, você e eu. Ferida, você está vulnerável e precisa partir imediatamente, para se recuperar longe daqui. Nesta situação, separados seremos mais fortes.
— Eu saberei me cuidar, Majestade. Mas o senhor ficará bem?
— Tenho um vazio preenchido pela dor. Mas não posso fraquejar, ainda sou o Soberano. Ayshalind sempre gostou do espaço, desde pequena. Mandei fazer uma nave especial para ela, digna de uma Princesa. A mais moderna e a mais veloz. É uma extensão deste Palácio, com todo o conforto possível. Eu planejava fazer uma surpresa, mas isso perdeu o sentido. Se você é a Princesa, a nave é sua. Está pronta para zarpar. Você levará uma Guarda Pessoal, incluindo os dois soldados que a defenderam, meu médico e uma escolta de outras dez naves menores. Não recuse, tudo precisa ser de acordo com os protocolos.
— Cuidarei dos soldados e das naves como a própria Princesa faria, Majestade. Farei com que esta nave se torne um símbolo, sendo reconhecida onde quer que vá. O senhor e seu povo terão muito orgulho da Princesa que se exilou para salvar o próprio povo. É o mínimo que posso fazer por Ayshalind.
— Que assim seja, Criatura de Luz.
No exato momento em que as onze naves partiram, a centenas de bilhões de anos-luz dali, num pequeno planeta azul em outro universo, três outras naves de madeira zarparam com destino ao desconhecido. O calendário local indicava ser o ano de 1492. As naves, conhecidas como caravelas, tinham os nomes Santa Maria, Pinta e Nina.
Os habitantes daquele pequeno planeta nem em sonhos podiam imaginar, que durante os nove séculos seguintes uma enorme criatura vinda do espaço, na espaçonave mais veloz dos três universos, cruzaria seus destinos diversas vezes, para salvá-los da extinção.

