Conto | A fuga de Tarso

No início, quando apenas os deuses caminhavam por Tixasinece, Ptemo se cansou de perseguir o horizonte. Há muito ele havia prometido nunca parar de correr e o presente inalcançável, dado a ele pela deusa Dindoprefunda, havia lhe servido como um motivador. Agora, apenas o frustrava.

A cada montanha que escalava, caverna que desbravava, campo que percorria e depressão na qual se atirava, o seu espírito murchava. Todos eles eram presentes de deusas mães de seus filhos, todos eles um dia inflaram seu espírito de orgulho. No entanto, naquele momento, tudo o que sentia era frustração por ser incapaz de alcançar o horizonte.

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Conto | A Corrida de Ptemo

No início, havia apenas quatro deuses em toda a Tixasinece. Ptemo, o imparável, corria ao redor das três irmãs Uralta, Garlura e Dindoprefuda por uma eternidade e nada parecia capaz de impedí-lo. Há muito ele prometeu nunca dar fim a sua corrida e, assim, ele fazia cumprir com a sua palavra. Apesar da grande determinação, o deus já estava cansado de sempre percorrer os mesmos caminhos. Assim, ele decidiu pedir ajuda às três deusas que lhe responderam em uníssono:

— A sua força de vontade muito nos impressiona, mas você não é o único atingido pelo vazio no ventre de Tixasinece. Nos conceda filhos para curar nossa solidão e nós moldaremos pistas dignas de sua corrida eterna.

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Conto | A vingança de Tixasinece

É dito que, antes do início, a deusa Dana flutuava no vazio escuro e frio que era ela sofrendo as dores de sua inexistência. Sua boca, seca e roxa, gritava por ajuda, mas não havia ninguém além dela própria que pudesse ouvir seus pedidos por socorro. Seus dedos, frágeis e azulados, tentavam agarrar o nada ao redor e do qual era feita. Com ele talvez fosse capaz de criar algo quente e luminoso que a tirasse de sua condição infeliz, no entanto a matéria do vazio sempre escapava de seus punhos tal como a água escorre de mãos mortais.

O frio ainda ocupava todo o vácuo quando, certa vez, antes do próprio tempo, a deusa abraçou a si mesma tentando se proteger da baixíssima temperatura. Seu esforço, porém, era inútil. As suas mãos, assim como seus braços e todo o seu corpo, eram tão frios como o nada que era ela e a rodeava. Não havia como escapar dele.

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Resenha | La Belle Sauvage

O La Belle Sauvage é o primeiro volume da série O Livro das Sombras, de Philip Pullman, e foi publicado no Brasil em 2017, pela editora Suma. O livro é uma prequência para a trilogia Fronteiras do Universo, que é composta por A Bússola de Ouro (1995), A Faca Sutil (1997) e concluída por A Luneta Âmbar (2000). Continuar lendo “Resenha | La Belle Sauvage”

Conto | O confiteor dos amantes

— A gente devia fazer coisas diferentes com mais frequência — disse Paulo, equilibrando dois pratos e duas canecas nas mãos para um Rodrigo com o olhar perdido em uma série qualquer.

— Como assim? — perguntou o namorado, finalmente tirando os olhos do notebook.

— Você sempre vem pra cá passar a noite comigo e aí a gente dorme assistindo qualquer coisa e aí eu acordo e faço queijo quente e aí a gente come assistindo qualquer coisa e aí você vai embora na manhã seguinte.

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Conto | A Bicicleta

Com o queixo colado no exterior do muro de concreto, Jorginho esticou os braços para medir quão alto teria de ser o pulo. O garoto não tinha a chave de casa e, de qualquer forma, preferiria tentar a escalada para evitar o estardalhaço do portão velho. Tinha tempo que a escuridão havia tomado conta da rua e, com sorte, todos já estariam dormindo. Segundo as regras que ele próprio criara, não podia ser castigado por uma desobediência que ninguém viu. Assim, os dedos se contorceram tentando alcançar o topo do obstáculo a uns três palmos acima de sua mão direita, aquela que ele empurrava mais alto. Era possível.

Jorginho nunca havia tentado pular o muro sem a ajuda do irmão. Há um tempo, Léo lhe faria mãozinha para subir, mas o irmão não estava ali. Só andava com o filho da vizinha da frente, o Júlio. Esse, aliás, era outro que sumira da pracinha. O que era estranho, já que ele sempre se animava para brincar de pique-esconde, principalmente quando Léo também jogava. A bicicleta!, lembrou o garoto.

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Conto | Raiva - Capítulo 3

Perdeu o início da saga? Leia a  primeira e segunda partes da história. 


Quando o Uber chegou, Guilherme, obediente e apático, entrou no carro sob os olhos frenéticos e apreensivos de Herberto. O motorista se virou para os dois e os cumprimentou. De sua boca, a baba escorria pelo queixo, pescoço e peito do homem. O tecido fino da camisa, molhado e transparente, deixava entrever a tatuagem, preta e geométrica, no peito escuro do motorista que lhes oferecia bala.

— Não, obrigado. — respondeu Herberto impaciente. — Eu estou com um pouco de pressa…

— É pra já! — respondeu o motorista solícito.

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Conto | Raiva - Capítulo 2

Perdeu o início da história? Clique aqui e leia a primeira parte. 


A rua, escura e deserta, era um gatilho hipnótico que levava Herberto de volta à realidade. O carro cambaleava entre as faixas. Para ele, Ana reagira melhor a tudo o que houve no hospital e, por isso, ele tentava guardar para si mesmo o impacto daquela noite. Sinais vermelhos eram sugestões a serem ignoradas.

Ana, por sua vez, fingia ter a atenção ocupada com o tornozelo machucado enquanto buscava em Herberto por qualquer sinal da doença. Depois de assistir aos colegas saírem da frustração comum de tratar um paciente com uma condição desconhecida, para a raiva de um animal que rosna e espuma pela boca; era um alívio ver em Herberto nada além de uma leve palidez no rosto e suor frio na testa.

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Conto | Raiva - Capítulo 1

Já era noite quando o enfermeiro saiu de casa. Um homem chutava um gato sem dono do outro lado da rua e, a fim de evitar confrontações, Herberto pegou o caminho mais longo para o ponto do ônibus que o levaria até o hospital. Apenas um contratempo a mais em sua rotina já desgastante.

Apesar de todos os anos que passara trabalhando no hospital, Herberto nunca se acostumara completamente com a dureza do seu cotidiano. Dormir de dia e trabalhar à noite o destruía e ele tinha o rosto pálido e os olhos fundos dos insones para provar. Ainda assim, nunca fizera esforço para mudar de turno. Até porque seus horários lhe davam a chance de passar as manhãs com o namorado, que vendia sapatos no shopping.

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