Conto | Alê e o boa noite, Cinderela9 min de leitura

Patrícia

Patrícia acordou com a pior ressaca que sentiu na vida. A visão se firmou aos poucos e piscou várias vezes para o quarto parar de girar.  Assim que os poucos móveis pararam de se mover, ela teve certeza: não fazia ideia de onde estava.

Tentou levar a mão ao rosto, mas sentiu um tranco e olhou para os pulsos algemados. Fez força, mas as algemas resistiram e permaneceram presas no encanamento. O barulho do metal ecoou pelo quarto e sumiu aos poucos. Olhou para cima para conter as lágrimas e respirou fundo. O que está acontecendo?

O quarto diminuiu de tamanho e as paredes sacudiram como gelatina. Se encolheu por impulso enquanto sentia o aperto no peito. O peso se espalhou pelo corpo e a respiração falhou. Assoprou com força e inspirou tentando controlar a respiração. Estava prestes a se entregar e desmaiar conforme forçava o ar para fora dos pulmões. Arregalou os olhos encarando o chão. A cada aperto no peito tinha certeza de que estava bem acordada.

Patrícia sentou-se devagar no chão frio. Olhou para o quarto pichado e estranho tentando identificar o lugar. Os únicos móveis eram uma mesa quadrada no canto, uma privada, e um armário enorme de metal atrás dela. Se concentrou em cada canto, desde o batente descascado e sem porta, até as figuras coloridas desenhadas na parede para tentar reconhecer algo, mas tudo era muito genérico. Os tons de verde e roxo lembravam as paredes de várias estações de trem de São Paulo.

Tentou se lembrar da última coisa que fez no dia anterior, mas a memória teimava em escapar assim que chegava. Foi o mais longe possível: dia estressante no trabalho, a Carla e a Amanda não quiseram sair para beber, mas não se importou, precisava encher a cara; Passou a mão no cabelo assim que entrou no bar no centro, sorriu, olhou em volta e foi até o balcão pedir uma tequila.

A respiração foi voltando ao normal, o som ecoando sozinho pelos corredores do local quando ouviu um clique de longe e depois o som de passos. Olhou em volta várias vezes sem saber se era melhor fingir que estava dormindo ou esperar para encarar seu captor. O som dos passos aumentou e Patrícia olhou para o chão. A respiração voltou a acelerar enquanto a coragem foi se esvaindo. Não estava pronta; tinha muitos sonhos e planos pela frente, só queria uma noite de diversão e agora não sabia se voltaria para casa.

Ergueu o rosto com calma e arregalou os olhos: Alta, vestido preto curto, cabelo cacheado escuro caindo nos ombros, a sobrancelha arqueada recém feita, a pessoa em pé a sua frente era ela mesma.

— Está tudo bem. Eu vim te ajudar.

Mesmo algemada ela se encolheu no fundo do aposento.

— Eu tô ficando louca. Eu tô ficando louca.

— Não tá, não. — A recém chegada mostrou um alicate grande que carregava e se adiantou para as algemas. Assim que Patrícia afastou as mãos, ela fez força e as algemas se romperam com um clique — Eu queria poder te explicar tudo com calma, mas eu demorei muito, muito mesmo, pra achar um jeito de destrancar a porta dessa casa. Os caras devem estar voltando a qualquer momento.

Assim que terminou de falar o barulho de uma porta batendo chegou ao quarto.

— Quem deixou a merda da porta aberta?!

— Nosso tempo acabou. — A impostora olhou para o quarto vazio várias vezes pensando no que fazer e esticou a mão para ajudar Patrícia a se levantar — Se esconde nesse armário. Rápido. É sério.

O barulho de passos aumentou, Patrícia piscou várias vezes e voltou a si. Se encaixou em pé no espaço apertado e, antes que pudesse ter certeza se conseguiria respirar ali dentro, a sósia fechou o armário na sua cara. Encostou o nariz nos furos da porta e aspirou a mistura de metal, pó e mofo. Olhar uma outra versão de si mesma era como assistir a um filme. Só que ela não era atriz. Era do comercial de uma empresa pequena e aquilo não fazia o menor sentido.

A sósia se adiantou, sentou-se no chão, escondeu as algemas atrás de si e recolheu os pulsos para fingir que ainda estava algemada. Patrícia a encarou, esperando que ela olhasse para o armário, mas foi ignorada. A outra endireitou os ombros e levantou o queixo. Definitivamente não sou eu.

Um estranho entrou no quarto e a encarou. Ele lambeu os lábios e a mediu dos pés à cabeça. O olhar fixo nas coxas e na barra do vestido foram até os olhos dela.

— A gente não teve tempo de se divertir lá no bar. Acho que a sua dor de cabeça passou agora, né? — Ele mostrou os dentes amarelados e ajeitou a calça — Você parece bem mais afim agora.

Os olhos dele brilharam e deu um passo à frente. Assim que avançou Patrícia reconheceu o jeito de andar. A ginga com que ele se aproximou dela no bar, roçando em seu ombro e se dando intimidade além da conta. A expressão da outra permaneceu impassível; parecia já conhecer o tipo. Ela ergueu a sobrancelha e abriu um sorriso discreto.

Patrícia segurou o ar. Mesmo sabendo que não era ela à frente do homem, sentia-se exposta da mesma forma. Por pouco o destino a seguir não tinha sido o seu. O homem deu dois passos à frente devagar e a outra afastou um pouco as pernas. Patrícia não queria olhar; apertou os dentes, olhou para o canto escuro do armário e fechou os olhos. Respirou fundo e encarou a cena que na sua cabeça durou apenas alguns segundos.

— Você deixou cair isso aqui. — Com o indicador a outra Patrícia esticou as algemas na direção dele.

Aproveitando a expressão de confusão no rosto dele, ela avançou. Se aproximou como se fosse abraçá-lo, mas seu joelho foi direto no saco. A intensidade fez com que se encolhesse sem ar, mas antes de conseguir dizer qualquer coisa, a outra bateu a cabeça dele contra a parede mais próxima e ele caiu desmaiado.

A sósia olhava calma para o chão e balançava a cabeça negativamente. Ela pegou o alicate grande do chão e passos se aproximaram do quarto. Rapidamente recuou e se apertou no vão próximo a porta.

— Que merda é essa? — Patrícia reconheceu a mesma voz que reclamou da porta minutos antes — Marcos?

Ele chamou o outro e fez menção de se abaixar, mas antes de concluir o movimento a sósia se aproximou e bateu com o alicate na cabeça dele. O som do metal se chocando com o crânio ecoou para dentro do armário e fez Patrícia tremer. Tentou dar um passo para trás, mas mal conseguiu se mover dentro do espaço apertado.

A outra abriu o armário devagar e esticou a mão para ajudar Patrícia a sair.

— Não tem mais ninguém em casa, mas é melhor a gente vazar logo antes que eles acordem. Não estamos longe do bar que você estava.

Patrícia abriu a boca e fechou várias vezes ensaiando falar. Eram tantas perguntas que brotavam em sua mente ao mesmo tempo que não sabia qual delas fazer. Olhava para ela fixamente tentando enxergar alguma diferença entre as duas, mas não via nenhuma. A mente resolveu ignorar o lugar desconhecido e os corredores escuros pelos quais passavam para se concentrar nos detalhes da outra. Olhou para a postura ereta, as curvas, o vestido impecável e a forma atenta com que ela olhava em volta. Era ela, mas não era.

Assim que saíram para a rua tomou coragem de perguntar:

— Quem é você?

— Essa resposta é bem longa. Digamos que eu estava lá no bar também — Assim que viu a expressão confusa, se adiantou — Eu não estava assim. Eu consigo tomar a forma de qualquer pessoa que eu tenha visto.

Patrícia abriu a boca novamente, mas nada saiu. Ficou encarando a outra o que pareceram anos. Elas andavam bem devagar pela rua vazia.

— Isso é doidera demais. Eu… posso ver sua verdadeira forma?

A pergunta clássica, pensou a sósia. Ela devolveu um sorriso discreto, recolheu os lábios e ergueu os ombros. Patrícia entendeu a dica.

As duas chegaram na esquina do bar e pararam longe da porta.

— Prontinho, tá entregue.

— Muito obrigado — Sem esperar qualquer resposta se adiantou e abraçou a sósia — Eu nem te conheço, mas você salvou minha vida. Nem sei como te agradecer…

— Humm, Alê — A sósia abriu os braços vencida — Pode me chamar de Alê. Chama alguém pra te acompanhar até em casa e cuidado com a sua bebida quando estiver sozinha por aí. Se cuida.

Alê piscou, se virou e foi andando devagar na direção oposta. Patrícia seguiu sua salvadora com o olhar, mas ela não mudou de forma enquanto se afastava; ela foi diminuindo de tamanho, virou uma esquina distante e sumiu de vista.

Epílogo: Alê

Alê andou mais duas quadras até se lembrar que ainda estava usando o corpo de Patrícia. Flexionou os pulsos devidos aos exercícios daquela noite e esticou os braços. Cretinos. Olhou em volta: ninguém pareceu reconhecer seu rosto então continuou andando como estava.

Ainda faltavam pelo menos mais uns quinze minutos até o apartamento onde vivia, mas preferiu continuar andando. A noite estava boa, nem fria nem quente demais. Se perdeu em pensamentos avulsos enquanto caminhava numa das ruazinhas de tijolos. As fachadas das lojas fechadas exibindo os letreiros apagados. “Juliana Modas”, “Carlos Tecidos”… Qual o seu nome?  A pergunta lhe veio à mente. Sempre essa pergunta. Riu para si.

Estava prendendo o cabelo no topo da cabeça sem prestar muita atenção a sua volta quando viu a cena: um garoto franzino de no máximo dezesseis anos recuava lentamente enquanto outros dois homens mais altos avançavam na direção dele. O jeito como um deles mexeu na calça só poderia significar uma coisa: arma. Lá se foi minha noite tranquila.

Ale passou as mãos nos cabelos enquanto eles encurtaram até formar cachos curtos. A pele escureceu alguns tons ao mesmo tempo que sua estatura diminuía. Desviou o olhar enquanto o seu corpo terminava de se modificar. Checou os novos sapatos amarelos e azuis, jaqueta combinando e espiou no espelho da Juliana Modas para conferir o trabalho completo. Estava igual ao adolescente que acabara de ser arrastado para o beco. Estralou os dedos mais uma vez enquanto apressava o passo. Ao trabalho.

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