Crônica | O goleiro da Cidade de Deus6 min de leitura

Eram oito da manhã quando cheguei à escola. Embora fosse cedo, Zezé já estava ali há algumas horas. Ele me esperava na quadra de futebol com as mãos sujas de tinta e os olhos cansados, mas orgulhosos. A quadra, que até a noite anterior estivera desbotada, brilhava agora em cores novas e com os passos ansiosos das crianças que corriam de um lado a outro, testando cada pedacinho do piso novo. Grades haviam sido instaladas nas laterais, os vestiários haviam sido reformados, os gols tinham redes e a felicidade estava estampada no rosto de todos ali presentes, principalmente no de Zezé.

Com mais de 60 anos, Zezé hoje é treinador de futebol e se dedica completamente ao CEACC – Centro de Estudos e Ações Culturais e de Cidadania, projeto realizado na Cidade de Deus com crianças e jovens da comunidade. Através da parceria com a organização ActionAid e com o CONI – Comitê Olímpico Italiano, o CEACC conseguiu reformar a quadra da escola Alphonsus Guimarães e abrir um novo mundo de possibilidades para várias crianças e suas famílias.

A quadra já estava pronta, mas ainda precisávamos dar os retoques finais para receber um grupo de convidados que estava prestes a chegar. O tempo corria e eu me lembrava de que ainda havia muito a se fazer. Aproximei-me de Zezé para saber no que eu poderia ajudar, mas ele, tranquilamente, já havia cuidado de tudo. Após entregar uma bola às crianças, ele me mostrou onde havia pendurado as bandeiras do Brasil e da Itália e o que seria servido de lanche. Tudo parecia estar indo bem.

Era visível o quanto Zezé é apaixonado por essas crianças. Enquanto eu esperava ao lado de algumas mães na beira da quadra, os pequenos se juntaram ao redor dele para contar se estavam indo bem na escola ou sobre uma nova brincadeira que haviam descoberto. É uma alegria para eles quando são ouvidos e eu via de longe os olhinhos de cada um brilhando sempre que recebiam um sorriso de aprovação do treinador.

Mas logo os convidados chegaram e Zezé teve que se afastar um pouco para recebê-los. Eram voluntários italianos que estavam no Brasil para realizar algumas atividades esportivas com crianças em projetos sociais durante as Olimpíadas. Antes de começar, porém, eles tinham interesse em conhecer a comunidade, por isso deixamos as crianças aos cuidados das mães e saímos para um breve passeio no entorno.

Zezé não nasceu na Cidade de Deus, mas a Cidade de Deus nascera e crescera com ele. Sua família fora uma das muitas que foram desalojadas na Gávea e alocadas na nova comunidade na Zona Oeste do Rio de Janeiro. No entanto, ninguém nunca pediu alguma autorização a essas famílias. Para Zezé, ainda é traumático recordar o momento quando, ainda criança, chegara em casa e vira todos os pertences despejados em um caminhão em direção a algum lugar desconhecido.

Apesar de todas as dificuldades, hoje Zezé é querido e conhecido por toda a comunidade. Quando mais jovem, jogara como goleiro para diversos times cariocas, até mesmo alguns grandes, como o América e o Fluminense. Depois fora trabalhar em um mercado, onde se aproximara ainda mais das famílias do bairro. Muitas crianças que ele vira crescer seguiram o próprio caminho, formaram famílias e hoje têm filhos que fazem parte do projeto onde Zezé atua. Desde moço, aprendera a cuidar e a se importar com aqueles que fazem parte de sua comunidade. Pode-se dizer que seu mérito como goleiro se estendeu para além dos campos de futebol.

Enquanto caminhávamos pela Cidade de Deus, nos encontramos com um garoto cabisbaixo e de ombros curvados sentado em uma praça com alguns rapazes mais velhos. Ele percebeu que nós o observávamos e nos encarou de volta com o rosto franzido, mas se aproximou timidamente ao ver que Zezé o observava com atenção.

— A mãe é usuária e a avó ficou cega por causa da diabetes. Agora ele vem se envolvendo com um pessoal pesado, mas nós estamos sempre tentando puxá-lo de volta — Zezé nos confidenciou.

Com os olhos no chão, o garoto chegou perto.

— Estes são atletas italianos que vieram jogar bola com vocês — disse Zezé — Aparece lá na quadra da escola depois pra jogar com eles também — O garoto apenas assentiu com a cabeça, ainda sem levantar os olhos.

Ao voltarmos à quadra, os italianos logo se dividiram e se misturaram às crianças que estavam ali, enquanto Zezé ficou em um canto, observando tudo. Às vezes ele se aproximava de algum grupo que estivesse mais agitado e ajudava o voluntário a ser ouvido, depois se afastava e caminhava em volta, sempre atento a todas as crianças.

Algum tempo depois, o garoto cabisbaixo que encontramos mais cedo chegou. Seu semblante ainda estava fechado e ele olhou desconfiado para os italianos que agora haviam se reunido no centro da quadra para dançar com as crianças. Eu o observava com atenção e pude notar um esboço de sorriso surgindo em seu rosto. Ele se aproximou timidamente do grupo, os passos inseguros e o corpo ainda um pouco incerto de como se movimentar, mas não demorou muito para se soltar e encontrar o próprio ritmo. Agora eu via um garoto novo, risonho, que não precisava mais carregar o peso dos mundos sobre as costas.

O sonho de Zezé é construir uma escolinha de goleiros na Cidade de Deus. Para ele, o que importa não é transformar crianças em atletas campeões ou medalhistas olímpicos. Não. O que ele quer é transformar a vida desses pequenos através do esporte, e não apenas o futuro, mas também permitir que o presente possa ser vivido de forma digna.

Ao final do dia, após a partida dos visitantes, me sentei atrás do gol para arrumar a mochila e partir também. Ao meu lado, três garotos discutiam.

— Eu sou o mais importante pro Zezé! — disse um deles — Sou afilhado dele, puxa!

— E daí? — retrucou outro — Ser afilhado não é nada! Eu sou sobrinho dele, então sou bem mais importante!

— Eu também sou importante! ­— exclamou o terceiro — Também quero ser sobrinho do Zezé!

Rindo um pouco, me sentei ao lado deles.

— Vocês gostam das aulas de futebol? — perguntei.

— Sim! — me responderam, em uníssono.

— E vocês querem continuar jogando quando crescer?

— Sim! — me responderam, ainda mais alto do que antes.

— Eu quero ser atacante! — disse um dos meninos.

— Eu também! Vou marcar muitos gols! — disse outro.

— Eu não! — disse o terceiro garoto e todos nós olhamos para ele — Eu não quero ser atacante. Eu vou ser um goleiro, igual o Zezé.

Foto: Arquivo pessoal

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Adele Lazarin

Goiana do pé rachado e carioca de coração, Adele é jornalista, tem especialização em Assessoria de Comunicação e Marketing e já escreveu para alguns sites de cultura, como Cinema Com Rapadura e A Gambiarra. É fluente em inglês e italiano, pratica taekwondo e é apaixonada por literatura e cinema. Tem como hobby viajar, pensar em comida, abraçar cachorros e sonhar acordada. Aprendeu a desbravar novos mundos com Tolkien e ainda espera por uma carta de Hogwarts.
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