Conto | A fuga de Tarso5 min de leitura

No início, quando apenas os deuses caminhavam por Tixasinece, Ptemo se cansou de perseguir o horizonte. Há muito ele havia prometido nunca parar de correr e o presente inalcançável, dado a ele pela deusa Dindoprefunda, havia lhe servido como um motivador. Agora, apenas o frustrava.

A cada montanha que escalava, caverna que desbravava, campo que percorria e depressão na qual se atirava, o seu espírito murchava. Todos eles eram presentes de deusas mães de seus filhos, todos eles um dia inflaram seu espírito de orgulho. No entanto, naquele momento, tudo o que sentia era frustração por ser incapaz de alcançar o horizonte.

O sofrimento de Ptemo não era ignorado pelos seus filhos. Cansado de ver o pai se lançar aos mais terríveis precipícios, Anoeco os preencheu com suas lágrimas, para que elas absorvessem o impacto da queda do deus imparável. Tarso, por sua vez, ao ver o pai sair tremendo do mar gelado, lhe atirou lanças de fogo para aquecer seus ossos e secar suas vestes.

Ratre, de todos a mais generosa, abriu as cavernas claustrofóbicas para que o pai nunca mais rastejasse ou fosse ferido pelas paredes de pedra. E, até mesmo, Uce raspou com poderosos vendavais os topos das montanhas e fez delas montes e morros suaves aos quais o deus pai não teria qualquer problema em escalar.

Todo o esforço dos quatro deuses, no entanto, pouco serviu para apaziguar o espírito de Ptemo. Pelo contrário, a piedade serviu apenas para alimentar ainda mais o seu rancor.

— Meus próprios filhos fazem pouco de mim e destroem as únicas lembranças de meus feitos agora que conhecem a minha falha — lamentou o deus. — Eu seguirei correndo e vencerei os novos desafios que colocam em meu caminho assim como venci os antigos.

Ptemo, então, se lançou ao mar. Anoeco e Uce, no entanto, ignoraram o descontentamento do pai e discutiram entre si qual deles havia dado o melhor presente. Uce, do alto de sua arrogância, fazia pouco do que o irmão dera ao pai.

— Lágrimas é tudo que o poderoso regente do mar tem a oferecer ao imparável Ptemo?

Anoeco, furioso, levantou ondas gigantescas em resposta. Por descuido e azar, elas quebraram sobre Ptemo.

O deus pai foi impulsionado para o fundo do oceano. Imparável, ele se pôs a nadar de volta à superfície. Percebendo o que fizera, Anoeco criou correntes para guiá-lo até a praia, onde ele poderia descansar e recuperar o fôlego. Entretanto, era Ptemo quem, agora, tinha o espírito tomado pela fúria.

— Você, Anoeco, nunca me concedeu nenhuma glória e, ainda assim, se julga no direito de roubar as que eu conquistei com meus próprios membros — gritou o deus sobre as lágrimas do filho. — Eu, por minha vez, te presenteei com a imortalidade e creio ter chegado a hora de tomá-la de volta.

Antes que qualquer resposta pudesse ser dada, o deus correu em direção de Anoeco. O filho, em sua defesa, lançou as mais poderosas ondas contra o pai. Nenhuma delas, porém, foi capaz de diminuir o ritmo de sua investida. Vendo-o em perigo, Uce lançou o irmão para o continente com a força de seus vendavais. Vendo que o pai ainda corria atrás do irmão, o deus gritou pela ajuda de Ratre.

A irmã logo viu o que acontecia e recebeu Anoeco em suas terras. Tão rápido quanto os pés de Ptemo tocaram o solo, a deusa fez tremer toda a Tixasinece. Até mesmo as deusas mães foram movidas pelo ataque da filha. O deus pai, no entanto, seguiu com sua caçada. Dessa vez, para matar a filha.

Desnorteada pelo próprio fracasso, Ratre não percebeu o quão rápido Ptemo se aproximava. Anoeco alertou a irmã com gritos desesperados enquanto corria para a segurança de suas águas, mas quando a deusa percebeu o perigo que a perseguia já era tarde para correr.

Com a mão esquerda, o deus a tomou pelo braço e suspendeu a filha no ar. Com a direita, explodiu um golpe que atingiu o interior do ventre da deusa. Ao soltá-la, Ratre caiu no chão. Aos pés do deus, ela viu que ele ainda tinha a suas entranhas na mão direita.

Ptemo fechou o punho e Ratre se preparou para mais um golpe, talvez o último. O ataque, porém, não se concretizou. O deus tinha todo seu espírito atento ao que tinha nas mãos. A carne da filha, sob a pressão de seus dedos, tornara-se aço.

Ptemo moldou o material em uma foice. Ratre, mais uma vez, se preparou para o pior. Antes que o deus pudesse ceifar a imortalidade da filha, porém, Tarso atirou sua lança de fogo. A investida foi certeira. A deusa fechou sua ferida com terra, se levantou como pôde e correu para o litoral junto a Anoeco.

Ptemo queimava. Depois do ataque de Tarso, tudo o que sobrou foram ossos em chamas. Ainda assim, nada podia pará-lo e o deus se pôs a correr atrás do filho. Uce, então, ordenou que todos os ventos lançassem o deus pai no mar a oeste de Ratre. Eles assim o fizeram e a deusa erigiu uma cordilheira para separá-la de seu agressor.

As montanhas eram altas e imponentes, mas os quatro irmãos sabiam que elas logo seriam ultrapassadas pelo deus. Não havia nada que eles pudessem fazer além de esperar pelo fim. Ao ver os filhos tão indefesos, porém as três mães interviram.

Uralta, Garlura e Dindoprefunda construíram, então, mais um presente: a grande estrada para o horizonte. Este, no entanto, não era para Ptemo, que nunca descobriu onde ela está localizada. Aquela obra era para os seus filhos.

As deusas guiaram os quatro pelo caminho onde o deus imparável nunca pisaria. Os deuses, então, fizeram do além-horizonte o seu refúgio. Estavam a salvo. Com a saída de Tarso, no entanto, o escuro tomou toda a Tixasinece. Sem ter a quem caçar, Ptemo já não corria. Apenas caminhava sem rumo na escuridão.

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