Conto | O Menino no Retrato3 min de leitura

O menino ajeitou a câmera atrás de si um pouco mais para a direita, olhou de esguelha, testando a expressão: ainda não. Queria a posição perfeita. O que ele queria demonstrar ainda era um mistério. Pelo menos, era assim que ele preferia pensar.

Tentou por um tempo escrever em um diário como se sentia, mas percebeu que algo ainda estava preso em seu peito. Nem a tinta, nem sua mente ou mesmo sua psicóloga entendiam, de verdade, o que se passava em seu coração.

Também já havia escrito vários textos e recebido elogios dos leitores pela forma como descrevia o sentimento dos personagens em suas histórias.

Como sempre amou ler e tinha muitos escritores favoritos, essa parecia a forma ideal de demonstrar o que sentia. Mas, após várias histórias, muitas lágrimas e inúmeras bolas de papel amassado jogadas no chão do quarto, percebeu que a escuridão ainda estava lá. Tão bem aconchegada a sua alma, tão disposta a ficar, que o gosto da comida, a brisa da tarde e até o sorriso bobo pareciam não ter mais vez em seu dia a dia.

Até nas fotografias, a ausência do sorriso era notada. Era triste, pensava. Parecia uma explicação muito simples, resumida demais. Não tinha nome o que sentia, aquilo que vinha sendo seu companheiro fiel há tanto tempo. Viu sua expressão em uma foto tirada de surpresa por um amigo e se reconheceu. Pela primeira vez, em muito tempo, se enxergou de verdade. Em seu olhar, percebeu que tinha muito mais; muito mais do que a velha tristeza que os outros viam nele. Era um ângulo que nem mesmo ele conhecia de si.

Foto de Kayque Yan Fiore. Ele está sério e olha para baixo.

Naquela foto, um entardecer multicolorido emoldurava a imagem do seu novo eu: os braços abertos, prontos para abraçar a liberdade; os olhos esperançosos, acompanhados de um sorriso discreto. Lembrou-se porquê sempre amara fotografias. Desde pequeno era fascinado por álbuns antigos, editoriais em revistas e até as poucas exposições que vira na vida. O que antes era só uma fascinação começou a tomar forma em sua mente quando viu muito mais que tristeza na fotografia.

A honestidade chamou sua atenção. Como na vida, havia como se colocar efeitos desde sombras ou cores, mas o olhar, não; esse não mentia. E o dele transbordava uma verdade que até aquele momento ele não soubera como expressar.

Olhou em volta atrás de objetos: a representação perfeita ia pedir ingredientes à altura. Lembrou de pinturas antigas representando anjos e retratos de reis e rainhas poderosos, dispostos a tudo por seu povo ou seus sonhos. E entendeu do que precisava. Pegou tudo em um baú antigo e ajeitou a câmera novamente.

Dessa vez, ele tinha uma capa e uma coroa, mas sua alma estava nua, totalmente exposta de forma sincera diante da tela.


Foto: Kayque Yãn Fiore

O conto O Menino no Retrato possui uma trilha sonora própria que embalou a composição da história e que você pode conferir lá no spotify clicando aqui.

Quer conhecer o trabalho do verdadeiro menino no retrato que inspirou essa história? Ele deu uma entrevista para um blog em 2015 falando sobre si e essa forma que ele encontrou de se expressar. Clicando aqui você encontra a entrevista + um ensaio que ele enviou para o blog na época.

Diego Vieira

Paulistano, formado em Marketing e viciado em séries. Ler é outro vicio que possui. Começou com Agatha Christie, passou por Sidney Sheldon e conheceu a obra de James Patterson, que influencia muitos de seus trabalhos em desenvolvimento. Comprou um kindle, mas não abre mão do livro físico e sempre tem um a mão. Ama contar histórias desde que aprendeu a falar e sonha viver disso. Acredita que qualquer situação pode gerar uma boa história, principalmente com uma dose de mistério e fantasia.

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