Conto | O Sexto Sentido do Caramelo9 min de leitura

A missão de proteger o forte estava indo muito bem hoje. Um garoto tentou sujar o quintal com alguns panfletos, mas expulsei ele antes que pudesse deixar qualquer coisa no chão; o Fred apareceu, entregou algumas cartas e até acenou pra mim — nossa relação melhorou muito nos últimos anos — e uma pipa caiu perto da porta, mas nenhum dos meninos da rua veio pegar.

Havia anoitecido há pouco tempo quando a Marta e o Beto voltaram. Eles tinham ido no centro comprar comida para nós e outros mantimentos para casa. Lati assim que eles estacionaram e o Beto correu para acariciar meu pescoço. Sorri para ele e abanei o rabo.

— Ooi, Caramelo — Ele me fez cócegas com as duas mãos e me agarrei à perna dele — Larga, larga. Como estão as coisas?

Balancei a cabeça duas vezes em direção à caixa de correio e o Beto entendeu que o Fred tinha passado e foi lá recolher as cartas. Marta fechou a porta e pediu para ele ajudar com as sacolas. Ela entregou todas a ele e tirou um pacote enorme do banco do passageiro.

— Oi, meu lindo. Não mordeu ninguém, né? — Revirei os olhos, juro que não sei do que ela está falando. — Vamos pra dentro.

Acompanhei todos até a sala para ver o que tinha no pacote, mas a Marta subiu a escada direto. Olhei para o Beto que estava ocupado mexendo nas sacolas — provavelmente procurando doces; ele comia demais, mesmo para uma criança humana. A curiosidade me venceu e corri escada acima. Ela depositou o pacote pardo de lado no chão e respirou fundo para descansar. Em pé, o objeto deveria ser maior que eu.

Olhei para o embrulho encarei-a esperando uma resposta do que era aquilo, mas ela se limitou a sorrir. Só o filhote dela, o Beto, costumava entender meus olhares — até os latidos às vezes — então me acostumei a tentar me comunicar assim.

Marta puxou o cabelo para trás, tirou os barbantes das extremidades e começou a rasgar o papel pardo. O segundo andar da casa estava mais frio do que a sala, então comecei a andar de um lado para o outro para me esquentar e conter a ansiedade. Por que ela não morde e rasga logo tudo?

Ouvi o som de passos e o Beto pareceu com a boca cheia e ficou ao meu lado observando a mãe encaixar o espelho novo na parede. Ele era realmente grande, da altura da Marta. Ela adorava espelhos, mas não tínhamos nenhum no corredor ainda. Esse era verde escuro, parecido com o musgo do quintal e cheio das formas estranhas, para cada canto dele que eu olhava parecia um desenho diferente entalhado. Nas pontas, asas; no topo, uma fonte. Mas no meio esse parecia ainda mais estranho, eu estava hipnotizado com ele quando senti um puxão na barriga.

Ah, de novo não. Por que a humana tem essas de ficar me mostrando para o espelho? Olhei em desespero para o Beto, ao menos alguém me entendia naquela casa.

— Mãe, o caramelo não gosta de ficar olhando pro espelho.

— Claro que gosta, o bebê da mamãe gosta sim. Olha lá o bonitão.

Respirei fundo esperando a Marta cansar da palhaçada. Encarei o espelho, olhando fundo, não para mim, mas para o reflexo do corredor, que parecia não ter fim. Não sei se era um efeito do vidro, mas quanto mais eu olhava mais longe o corredor ia. Olhei de esguelha pelo ombro da Marta para me certificar de que ainda havia uma parede há poucos metros.

— Mãe…

Beto chamou-a devagar e meus pelos se arrepiaram enquanto eu olhava para ele. Como se uma sombra se projetasse do espelho, a imagem de uma senhora de preto olhava para nós. Usando uma blusona de gola e um véu preto cobrindo o rosto, a senhora esfregava as mãos como fizesse frio dentro do objeto. Não dava para ver seus olhos direito, mas minha calda se esticou assim que ela virou em minha direção.

— Que foi, Beto?

Ele arregalou os olhos e percebeu que a mãe não estava enxergando a senhora. Ah, pronto. Hora de descer e sair daqui. Me remexi no colo da Marta, mas não adiantou.

— Que foi, Caramelo? Para!

Senti o corredor esfriar devagar, provavelmente o Beto sentiu também já que começou a esfregar os braços. Dei duas latidas, mas a Marta só fechou a cara. Plano B. Fiz força… nada. Fiz mais um pouco de força e senti o alívio imediato.

— Ai, Caramelo! Esse cachorro cretino mijou em mim. Sai daqui vira-lata dos infernos. Safado!

Aproveitei a deixa e me afastei a uma distância segura enquanto as ofensas continuavam. Engraçado que até pouco tempo eu era o bebê da mamãe. Inclinei o focinho de lado e pisquei algumas vezes, mas a humana se fez de desentendida. Saí para dar uma volta antes que ela resolvesse vir atrás de mim.

Desci as escadas correndo, fui até a cozinha e achei a coleira vermelha jogada no canto da lavanderia. Abocanhei-a e levei até o pé da escada. Segundos depois o Beto desceu, os olhos vidrados.

— Boa ideia, Caramelo. Bora.

Assim que me virei pra seguir o menino meus pelos se arrepiaram e minha cauda se empinou. TOC. TOC. TOC. TOC. O som vinha devagar, como se o humano — ou não — estivesse contando os passos. O espelho apareceu primeiro, invadindo a sala com as suas formas estranhas e seu frio fora de hora. Logo após apareceu a Marta, que vinha carregando-o debaixo do braço.

— Ele não ficou legal lá em cima — Ela explicou — O que acha de deixarmos aqui na sala?

Que tal o lixo?

— Sei lá, mãe. Vou levar o Caramelo pra passear.

— Não vão longe.

Andamos devagar sentindo o frio nos abraçando, como se quisesse nos fazer ficar ali mais tempo, aprisionados. Olhei para trás rapidamente e a senhora dentro do espelho estava de volta. Marta pegou um pano e ficou passando na moldura angulosa, como se nada estivesse acontecendo. A senhora levou o indicador aos lábios como se pedindo silêncio e eu lati em resposta. Dei outro latido e fomos rápido em direção à porta. Se demorasse mais um segundo eu é que ia levar o humano para passear na coleira.

Assim que saímos senti a temperatura esquentar. A lua cheia estava bem vermelha sobre a vizinhança e eu estava aliviado por poder dar uma volta. Assim que chegamos ao portão o Beto parou e ficou olhando para a casa. Pelos olhos dele pude sentir que algo estava errado.

A janela estava fechada, mas as cortinas eram claras e bem finas. Através delas o reflexo da velha do quadro nos encarava a distância. Não era um quadro. Ela estava em pé próxima à janela, o olhar fixo em nós. Escancarei os dentes e rosnei e ela me devolveu um sorriso. Pude sentir o odor semelhante as latas de lixo mesmo de longe e a senhora olhou para o lado como se tivesse localizado sua presa.

Assim que ela deu o primeiro passo, Beto e eu avançamos para a casa.

O menino bateu a porta para anunciar nossa presença e eu lati alto para a velha que virou para nos encarar. O frio nos atingiu em seguida. Até os quadros na parede tinham uma camada de sereno.

— Já voltou, filho?

— Já. Fica aí na cozinha, mãe — Gritou ele assim que vi a sombra da Marta aparecer na entrada da cozinha. A fantasma se virou de imediato, mas só deu um passo e parou — Sérião mãe, fica aí.

Eu entortei a cabeça confuso. A Marta apareceu na porta e, ainda sem enxergar a senhora do quadro, nos encarou confusa. A velha ficou parada, suas mãos se abriram, os dedos envergados como galhos secos, prontos para o ataque. Mas ela permaneceu parada, esperando.

Olhei para o espelho e sua imagem ainda estava refletida lá. Só dava para ver parte das suas costas, quase saindo do campo de visão do objeto, que estava apoiado ao lado da escada. Apertei os olhos para cada detalhe da cena e tive uma ideia.

Lati sem parar até que a senhora olhou para nós. Ela colocou as mãos enormes na cintura e se aproximou devagar. Encarei o Beto por um momento, mas ele estava tão vidrado nela que nem reparou em mim. Continuei a latir no mesmo compasso que a velha andava em nossa direção e sua imagem aumentava no espelho.

— O que é que deu nesse cachorro doido?

A Marta entrou na sala com o pano de prato no ombro e balançando os braços. A senhora sorriu e um segundo depois a humana foi suspensa no ar. Ela tentou tocar o próprio pescoço para aliviar o aperto, mas suas mãos tocaram em algo até então invisível. Pela primeira vez a Marta pareceu enxergar o ser à sua frente. Tentou dizer qualquer coisa, mas só saiu um ganido estranho.

Por impulso corri na direção delas, mas passei direto, atravessando a outra como se fosse uma cortina. Lati a plenos pulmões para acordar o Beto do transe e tentar pensar no que fazer. Sem escolha, mordi a perna dele e o garoto urrou de dor e gritou.

— Caramelo! Mãae.

Balancei a cabeça em direção ao espelho e ele finalmente entendeu. Marta olhou para o filho e a senhora seguiu seu olhar, mas já era tarde: o menino empurrou o espelho com toda sua força em direção ao chão.

Assim que ouvimos os estilhaços do espelho ecoando pela sala eu lati em aprovação. A velha arreganhou os dentes, mas antes de dizer qualquer coisa virou pó diante de nossos olhos. Sem nenhuma sustentação, Marta caiu sentada no chão e esfregou o pescoço para recuperar o ar. Corri até ela e lambi seu rosto para acalmá-la.

— Caramelo. Gente, o que foi isso?

— Sei lá, mas chega de espelhos mãe — Lati em aprovação — O Caramelo concorda.

Ela me encarou por um segundo, pisquei para ela e vi a compreensão surgindo em seus olhos. Do nada, desatou a rir. O Beto riu também. E eu lati para acompanhá-los enquanto sentia a temperatura na sala esquentar novamente.

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