Conto | Levon, a criança do Natal5 min de leitura

Levon olhava para o relógio ansiosamente toda vez que a imagem da cabine de transmissão desaparecia da tela. Eram 22 horas da véspera de Natal e ele só conseguia pensar sobre o quanto queria estar em casa ao lado de sua esposa e filho. Detestava a ironia de que para dar uma vida mais confortável e melhor para eles, tinha que ficar longe pelo maior tempo possível. O mês de dezembro havia sido muito desgastante, mas isso era só uma impressão causada pelo ano inteiramente cansativo.

Ao fim da transmissão, Levon removeu seu equipamento, pegou as chaves do carro, desejou um feliz Natal para todos que, assim como ele, estavam longe de suas famílias trabalhando. Entre abraços e desejos de feliz Natal e aniversário, Levon se sentia mal por estar com tanta pressa e não ter mais tempo para dar atenção àqueles que considerava sua segunda família. 

Levon sempre amou a véspera de Natal. Desde pequeno se acostumou a ter sua enorme família em casa jantando e, quando chegava meia-noite, todos se juntavam para cantar parabéns para ele. Levon era uma criança do Natal, cuja mãe era uma grande fã de Elton John, algo que ficava bem evidente em seu nome.

Após uma longa caminhada até o carro, em uma das noites mais quentes do ano, Levon colocou suas chaves na ignição e as girou. Nenhuma resposta do carro. Tentou mais uma vez e o resultado se manteve. As próximas cinco tentativas foram tão inúteis quanto às outras, porém com doses crescentes de frustação e raiva. Aquilo não poderia estar acontecendo!

Ele pegou o celular e se preparou para pedir um táxi. Enquanto abria o aplicativo, foi surpreendido por uma mensagem de falta de bateria e viu seu celular apagando. Junto com ele, suas esperanças de chegar em casa antes da meia-noite foram se dissolvendo. Exaurido, começou a descontar toda a frustação no carro. Primeiro, com murros no volante, depois batendo a porta e chutando as rodas do veículo. Restava andar até o seu trabalho novamente e tentar pegar um táxi nas proximidades.

Já eram 23 horas quando um táxi parou, mas como o taxista recusou ir até um destino tão longe, o jeito seria pegar um ônibus.

Enquanto esperava um ônibus, Levon amaldiçoou seu azar, seu trabalho e o Natal. Afinal, se ele tinha que trabalhar normalmente, por que as outras pessoas podiam estar em suas casas desde bem mais cedo, comendo com seus familiares?

Era 23:45 quando o coletivo chegou. Levon subiu no ônibus sentindo um profundo ódio por um motorista que nem conhecia, mas foi desarmado quando o homem lhe desejou um feliz Natal. A fúria de Levon se transformou em cansaço. O exausto comentarista apenas sinalizou positivamente com a cabeça e retribuiu o desejo ao homem. Do outro lado da roleta havia apenas um homem que aparentava ter uns 50 anos e um garoto de rua deitado na última fileira, provavelmente aproveitando o ar condicionado para dormir.

Levon largou seu corpo em um dos primeiros bancos. Ao observar as casas decoradas por pisca-piscas ao longo do caminho, seu cansaço foi sendo progressivamente substituído por melancolia. Pensava em seu ano, em como sua vida profissional tinha melhorado muito, mas quase não vira sua família. Ele lembrou sobre como o dia do aniversário do seu filho caiu junto a uma rodada importante do campeonato e quando chegou em casa, foi recepcionado por copos sujos sobre a mesa, garrafas de refrigerante com gás perdido, salgadinhos frios e bolo cortado. Essa foi uma das muitas datas que Levon viria a perder naquele ano.

Seus pensamentos foram interrompidos quando seu ônibus furou um pneu na altura da UERJ. Ele, o motorista, o senhor e o garoto tiveram que descer do ônibus e esperar por um próximo que pudesse dar continuidade a viagem. Levon olhou para seus companheiros de Natal e refletiu se deveria se sentir daquela maneira. Talvez, aquelas três pessoas tiveram um ano tão ruim quanto o dele. O garoto, principalmente. Ouviu seu relógio apitar e percebeu que era meia-noite

O senhor, provavelmente, cansado de esperar, começou a caminhar para longe do ônibus. Levon só conseguiu berrar um “Feliz Natal para o senhor”. O senhor virou e deu um breve aceno para ele. Outro que parecia cansado de aguardar era o garoto. Levon notou que o menino não podia ser muito mais velho que seu filho. Levon deu um pique e uma nota de 50 que tinha em sua carteira.

— Compra alguma coisa para você comer hoje.

O menino, que pareceu dividido entre desconfiança e felicidade, pegou a nota, agradeceu em um murmuro baixo e seguiu caminho.

Assim que o próximo ônibus chegou, Levon subiu e acenou para o outro motorista, que precisou ficar esperando o reboque. Levon desejou mais um feliz Natal e seguiu sua viagem. Dessa vez, o comentarista era a única alma no ônibus além do outro motorista. O resto da viagem transcorreu tranquilo.

Eram duas da manhã quando chegou em casa. Seus familiares já haviam partido, mas sua esposa e filho o aguardavam acordados com um bolo de aniversário cheio de velas. As duas pessoas mais importantes da sua vida estavam ali, esperando por ele e isso era tudo que importava. Enquanto Levon jantava, ele ouvia sua esposa contar como havia sido o jantar e via seu filho abrindo o presente que fizera questão de esperar o pai chegar para abrir com ele. Depois, os três comeram bolo enquanto assistiam “Duro de Matar”, o melhor filme natalino já feito. Seu filho dormiu em seu colo antes de Hans invadir o Nakatomi e sua esposa cochilou em sua perna antes do protagonista conseguir a metralhadora. Vendo os dois ao seu lado naquele momento, Levon percebeu que era o homem mais sortudo do mundo.

Yuri Szirovicza

Nascido no Rio de Janeiro em 1993, sonha ser escritor desde 2002 quando escreveu sua primeira história que possuía 30 protagonistas. Felizmente, aprendeu a trabalhar com menos personagens de destaque. Ama quadrinhos, filmes e longas caminhadas na praia e odeia escrever sobre si mesmo na terceira pessoa.

Últimos posts por Yuri Szirovicza (exibir todos)

Comentários

comentários

Um comentário em “Conto | Levon, a criança do Natal

Deixe uma resposta