Conto | A Corrida de Ptemo4 min de leitura

No início, havia apenas quatro deuses em toda a Tixasinece. Ptemo, o imparável, corria ao redor das três irmãs Uralta, Garlura e Dindoprefuda por uma eternidade e nada parecia capaz de impedí-lo. Há muito ele prometeu nunca dar fim a sua corrida e, assim, ele fazia cumprir com a sua palavra. Apesar da grande determinação, o deus já estava cansado de sempre percorrer os mesmos caminhos. Assim, ele decidiu pedir ajuda às três deusas que lhe responderam em uníssono:

— A sua força de vontade muito nos impressiona, mas você não é o único atingido pelo vazio no ventre de Tixasinece. Nos conceda filhos para curar nossa solidão e nós moldaremos pistas dignas de sua corrida eterna.

Ptemo, no entanto, não confiava nas deusas, pois ele ainda lembrava que elas, certa vez, roubaram o calor de Tixasinece. Sendo assim, ele achou que seria mais vantajoso e seguro negociar o poder concedido a ele pela grande deusa.

— O desespero que nasce da solidão é maior que o aborrecimento filho do tédio. Se vocês realmente desejam dar início às suas linhagens divinas, que preparem o mundo para recebê-las.

Apesar de contrariadas, as deusas aceitaram a condição imposta pelo imparável. Uralta, então, criou as mais íngremes montanhas e perigosas depressões, pois era de sua vontade colocar à prova não apenas as poderosas pernas de Ptemo, mas também os seus braços em vertiginosas escaladas.

Tal como planejado pela deusa, Ptemo se lançou às depressões e subiu as mais assustadoras montanhas em seu caminho. A cada salto seu espírito se tornava mais ousado e a cada escalada, suas mãos mais poderosas. Quando ele, finalmente, atingiu o topo do pico mais alto, Uralta o aguardava para coletar aquilo que era seu por direito. Do encontro nasceu o grandioso Uce.

Garlura, por sua vez, criou cavernas tão apertadas que o deus teria de se contorcer para percorrer o seu interior e ainda assim teria os ombros maculados pelas paredes ásperas. Porém, temendo que seu presente fosse recebido como um castigo, ela também criou os grandes campos abertos onde Ptemo poderia aliviar a sua claustrofobia.

Tão logo quanto as cavernas foram formadas, o deus as desbravou. O espaço era tão mínimo que ele teve de se encolher, se virar e, até mesmo, se arrastar pelas paredes tal como um inseto para percorrer o novo caminho. Seu corpo foi coberto de lacerações, pois, mesmo naquela situação, Ptemo se recusava a diminuir o ritmo de sua corrida.

Seu esforço, no entanto, deu frutos e logo ele avistou os largos campos que lhe aguardavam ao fim da última caverna. Ao sair do buraco presenteado a ele, o deus encheu o peito e anunciou aos cinco extremos de Tixasinece que nenhum local, não importa quão alto, apertado ou profundo, estava fora do seu alcance. Com o queixo alto dos vitoriosos, o deus correu ao encontro de Garlura e da união nasceu Ratre, a generosa.

Tendo escutado os gritos de Ptemo, Dindoprefuda ofendeu-se com a soberba do deus e decidiu renegociar os termos do acordo. Assim, ela se dirigiu a ele e disse:

— Está mesmo tão certo de que nada em toda a Tixasinece está fora do seu alcance?

— Mas é claro! — respondeu ele, correndo ao redor deusa enquanto alongava as pernas. — Você não assistiu a como eu percorri e venci a todas as pistas que suas irmãs me presentearam?

— Sim, eu vi. — disse a deusa, sem se virar para o deus que corria em suas costas. — Foi muito impressionante.

— Obrigado!

— E é por isso que eu gostaria de te presentear com uma aposta.

— Que tipo de aposta?

— Se eu for capaz de criar algo inalcançável até mesmo para você, Ptemo, eu gostaria de ser premiada com não apenas um, mas dois filhos.

— Mas você não é capaz! — Ptemo respondeu, um pouco mais alto do que necessário.

— Então será fácil me provar isso.

Acreditando ser impossível criar algo que ele não pudesse alcançar, Ptemo aceitou os termos da aposta. Satisfeita, a deusa lhe apertou a mão, lhe beijou a testa e criou o horizonte.

Confiante, Ptemo correu em direção ao distante presente da deusa. Ele mergulhou em todas as depressões e escalou todas as montanhas em seu caminho e, ainda assim, o seu objetivo continuava tão distante quanto antes. Ainda determinado, ele atravessou os largos campos abertos e as apertadas cavernas cujo desafio antes engrandeceu seu espírito, mas nada parecia surtir efeito e a cada passo dado sua força de vontade diminuía.

Quando o deus finalmente aceitou a própria derrota, ele se dirigiu à Dindoprefuda e, frustrado, se deixou cair no chão. E da vitória da Deusa nasceram o furioso Anoeco e o orgulhoso Tarso.

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