Artigo | Jornada Literária - Personagens5 min de leitura

Nesta série exclusiva do Conte Histórias, percorremos todos os caminhos que compõem a criação literária, da ideia à edição, passando pela criação de universos e personagens. Um espaço ideal para quem deseja conhecer as técnicas de contar histórias ou descobrir a matéria-prima que compõe a ficção.

Personagens

No artigo anterior, falamos sobre a construção do personagem principal e da jornada que ele precisa cumprir dentro de uma história. Até o melhor protagonista necessita de boa companhia para fazer esse universo de ficção se movimentar. É nesse momento que surgem os outros personagens.

Diferentemente dos seres humanos, personagens literários não têm vida alguma fora das páginas. Assim, suas vidas consistem quase que exclusivamente na ação. Ainda que essa ação seja uma simples conversa, é o intercâmbio dramático que torna os personagens visíveis, até para o próprio autor.

Para que esses personagens funcionem, é importante que o autor não descreva, ou pelo menos evite ao máximo, atividades vazias. Neste ponto é preciso estabelecer a distinção entre atividade e ação verdadeira. A atividade é um ato rotineiro como escovar os dentes ou lavar a louça, e desse ato não se recomenda o excesso. Por outro lado, a ação serve para mostrar o que os personagens estão fazendo, definindo caráter ou objetivos e propiciando o desenvolvimento da trama.

Para que essa ação ocorra, o escritor não deve temer o uso de estereótipos. Na ficção, o público reconhece os personagens pelo prisma dos tipos. Não há individualidade sem ele. O tipo de um personagem é a porta pela qual ele entra na imaginação do leitor. Se o autor tem medo de mostrar o quanto um personagem é típico, tampouco será capaz de mostrar algo especial a respeito dele. Se os próprios seres humanos são típicos em muitas coisas, por que os personagens não seriam?

Dumbledore em frente a um cálice dourado

A criação de personagens na ficção é um processo que pressupõe o exagero de alguns traços. Para realçar essas características é comum que outras fiquem negligenciadas, pelo menos, em parte. Desse raciocínio, surgem as definições de personagens planos ou redondos.

O personagem plano é aquele construído em cima de uma única ideia ou qualidade. Normalmente, o personagem plano pode ser condensado numa única característica que pode ser amor, ódio, lealdade ou outro sentimento. Trata-se de um personagem muito presente em comédias.

Por sua vez, o personagem redondo é construído em cima de mais de um fator e da presença de um propósito na história. Algo que ele quer ou precisa e que o torna capaz de mudar. O personagem redondo é capaz de deixar o passado para trás, vai da derrota à vitória ou mesmo o contrário. O personagem redondo costuma ser uma marca de dramas e tragédias.

Nesse contexto, logo após o protagonista, um personagem se destaca acima dos demais: o antagonista. Trata-se do conflito encarnado, a força contrária ao protagonista. Um personagem cujo objetivo é contrário ou, por vezes, é o mesmo do protagonista. Daí a necessidade de possuir mais de uma característica, tornando-se um personagem redondo, com mais de uma camada. De preferência, o antagonista deve ser mais poderoso que o protagonista, embora não precise ser, necessariamente, um vilão.

rosto impressionado do Lord Voldemort, da saga Harry Potter

Quanto ao desenvolvimento dos demais personagens, antes de tudo é preciso ter em mente que todos precisam desempenhar uma ou mais funções na história. Nesse aspecto, cabe lembrar que o caminho de um protagonista, sobretudo o do herói, é marcado por arautos que convocam à aventura, velhos sábios que lhe entregam presentes mágicos, guardiões do limiar que bloqueiam os caminhos, camaleões que confundem e ofuscam e pícaros que perturbam a ordem ou trazem o alívio cômico.

Décadas após a publicação dos estudos de Carl Jung sobre os aspectos que definem a função dos personagens, estes permaneceram incrivelmente constantes na arte de contar histórias e a compreensão dessas forças continua sendo um dos elementos mais importantes na maleta de truques do narrador. O conceito de arquétipo é uma ferramenta indispensável para entender o objetivo e a função dos personagens numa história. A compreensão do arquétipo ajuda a determinar se o personagem está desempenhando bem sua parte.

Harry Potter, Ron Weasley e Hermione Granger andando numa plataforma de metro

É importante olhar para os arquétipos não como papéis rígidos, mas como funções desempenhadas temporariamente para que se alcance certos efeitos na história. Olhar para os arquétipos dessa forma flexível pode liberar a arte narrativa do autor, com os personagens manifestando mais de um arquétipo. Os arquétipos podem ser pensados como máscaras, usadas pelos personagens temporariamente quando a história precisa avançar ou como símbolos personificados de várias qualidades humanas.

Contudo, o mais importante é identificar a função psicológica que os personagens representam, quais suas funções dramáticas e de que maneira interagem com o protagonista do início ao final da história.

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Crédito das imagens: Warner Bros.

Para ler os episódios anteriores da Jornada Literária:

Referências bibliográficas:

FIELD, Syd. Roteiro: Os Fundamentos do Roteirismo. Trad. Alice Leal. Curitiba: Arte & Letra Editora, 2009.

KING, Stephen. Sobre a Escrita: a arte em memórias. Trad. Michel Teixeira. Rio de Janeiro: Editora Objetiva LTDA, 2015

KOCH, Stephen. Oficina de Escritores: um manual para a arte da ficção. Trad. Marcelo Dias Almada. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2016.

VOGLER, Cristopher. A Jornada do Escritor: estrutura mítica para escritores. Trad. Petê Rissatti. São Paulo: Editora Aleph, 2015.

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M.C. Magnus

Mineiro de São João Del Rei, tomou gosto pela arte de contar histórias no mesmo período da infância em que foi apresentado às HQs da Marvel e da DC Comics. Fanático por futebol, é coautor de “É Tetra! A conquista que ajudou a mudar o Brasil”, livro lançado em 2014. Atualmente, mergulha no mundo da literatura fantástica para trazer à tona histórias em que a alma humana pode ser mais perigosa que monstros e bruxas.
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