Havia uma bomba embaixo da mesa de jantar.
Mas aqueles que estavam sentados à mesa de jantar não sabiam disso.
A única que sabia que algo muito estranho estava acontecendo era Nina, a filha que não gostava de jantares em família e que, por acaso, estava amarrada em um quarto logo acima da sala onde seus desafortunados pais e irmãos comiam.
E, claro, a pessoa que implantou a bomba e pretendia matar todos ali.
— Como se sente sabendo que só tem mais um minuto de vida, pirralha? — sussurrou o vilão, enquanto abria a capa comprida e preta de… bem, vilão. Ele apoiou uma mão no quadril enquanto a outra segurava o chapéu, em uma pose que esperava causar calafrios na menina.
— Um pouco apertada, mas tudo bem, no geral — disse Nina, sem se dar conta do momento dramático que se desenrolava à sua frente.
— Como assim, garota? Você vai morrer.
— E não vamos todos nós?
— Acho que você não entendeu. Você vai morrer aqui, agora, estraçalhada em mil pedaços!
— Ah, tudo bem, se é assim que as coisas são.
— Você é burra? Eu vou explodir você e toda a sua família miserável, e você fala que tá “tudo bem”? — disse o vilão com uma voz tão estridente que fez os ouvidos da garota latejarem.
Ele levantou os braços e começou a balança-los no alto enquanto andava de um lado para outro. Em poucos passos, se aproximou de Nina e agarrou as cordas que a prendiam. Levou os lábios secos e pálidos ao ouvido dela e murmurou, deixando transparecer toda a raiva que sentia:
— Eu quero que vocês todos sofram.
— Acho isso um pouco difícil de acontecer, desculpa.
— O quê?
— Olha, se você quer fazer a gente sofrer, uma bomba não é a melhor alternativa. Não sei se você pensou nisso, mas a gente vai morrer de uma vez, não vai dar tempo nem de dar uma choradinha.
— Mas isso é um absurdo! Vocês precisam chorar! Vocês precisam se desesperar! Vocês precisam se corroer por dentro e saber que fui eu a causa de todo esse sofrimento! Eu! Eu, que trouxe a ruína e o caos para essa família desonrada!
— É, pois é, isso não vai acontecer.
— Não pode ser! Isso é uma catástrofe! Uma tragédia! Uma calamidade! Como pude cometer um erro tão simples assim? Meu plano deveria ser infalível. Não… Essa bomba não pode explodir! Senão nada disso fará mais sentido. Preciso impedir essa desgraça.
— Olha, se eu fosse você, correria, viu. Faltam só 30 segundos pra bomba explodir.
Com o rosto frio de suor e os olhos esbugalhados, o vilão, que já não tinha mais dúvidas, correu o mais rápido que podia pelas escadas, tomando cuidado para não tropeçar em sua longa capa preta.
Em poucos segundos, irrompeu pela sala de jantar e pulou embaixo da mesa. A família, pega no susto, ficou imobilizada e apenas assistiu enquanto o homem cortava o fio vermelho da bomba e impedia a grande explosão.
— Parabéns, agora você é o herói.
De tão concentrado que estava, o vilão não ouviu Nina chegando por trás. O susto foi tão grande, que bateu a cabeça no tampo na mesa. Ele gaguejou por um momento e os olhos perderam o foco, e a garota ficou em dúvida se era por causa da dor ou por ter salvado quem mais odiava no mundo.
Aos poucos, ele conseguiu recuperar a fala.
— É claro que não salvei ninguém! Eu sou o vilão! Eu vim para fazer vocês sofrerem.
— Mas não foi isso que você fez. — Nina deu um pequeno sorriso, que deixou o pobre vilão ainda mais confuso e sem reação. — Eu imaginei que não poderia ser um vilão. Nenhum bom vilão amarra seus reféns e esquece de dar um nó. Foi bem fácil escapar daquelas cordas, viu?
— Você nos salvou! — Após vários minutos calado, o pai se levantou da cadeira e, com lágrimas escorrendo pelo rosto, abraçou o homem ainda imóvel embaixo da mesa. — O mundo todo precisa saber disso!
— Não! Não, eu não sou um herói, eu não salvei ninguém! Eu sou o vilão!
Mas ninguém mais ouvia nada que o homem de capa preta dizia. Em poucos minutos, a casa estava apinhada de jornalistas, e nas manchetes do dia seguinte só se lia: “Notório vilão vira herói e salva família de morte certa”.
Após tantos anos de maldades, o vilão estava derrotado.
Crédito da imagem: Hanna-Barbera
Adele Lazarin
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