Nesta série exclusiva do Conte Histórias, percorremos todos os caminhos que compõem a criação literária, da ideia à edição, passando pela criação de universos e personagens. Um espaço ideal para quem deseja conhecer as técnicas de contar histórias ou mesmo descobrir a matéria-prima que compõe a ficção.
Personagem Principal
O primeiro parágrafo de Armada, romance escrito por Ernest Cline, é um dos melhores exemplos recentes de como apresentar o personagem principal logo no início da história:
Eu estava olhando pela janela da sala de aula, sonhando com aventuras, quando avistei o disco voador.
Por esse único trecho, o leitor tem diversas pistas do que terá pela frente: trata-se de um protagonista que é estudante, provavelmente do ensino médio, entediado com as aulas e imaginando viver situações diferentes da rotina. Como se respondesse à sua expectativa, um OVNI surge do lado de fora da sala, convertendo-se no pontapé inicial da trama. Ponto para o autor de Jogador Nº 1.
O início de uma história é fundamental porque é o personagem principal, ou protagonista, quem determina se o leitor vai continuar imerso na história ou não. Por isso é importante apresentar logo tanto o personagem quanto o incidente que abre a trama. Como disse Henry James, o personagem é um incidente e um incidente é a iluminação do personagem. No caso de Armada, a vida de um jovem estudante se transforma a partir do momento em que ele vê o disco voador do lado de fora da sala de aula.
Esse protagonista pode ser um indivíduo, como é mais comum, ou pode ser um conjunto de pessoas como n’As Crônicas de Gelo e Fogo. O protagonista não é necessariamente o herói, mas sobre quem é a história. Um bom exemplo, este vindo das séries, é Walter White, um pacato professor de Química que se torna um dos traficantes mais procurados dos EUA na aclamada Breaking Bad.
Outra forma de identificar protagonismo é reconhecer o personagem ligado ao incidente da história ou quem passa pela maior transformação interior. Em O Senhor dos Anéis, mesmo com as presenças de Gandalf e Aragorn, é Frodo quem precisa levar o anel de volta à Montanha da Perdição e destruí-lo. Já no conto Rita Hayworth and Shawshank Redemption – mais conhecido no Brasil pela adaptação Um Sonho de Liberdade – apesar de ser narrado pelo personagem Red, é Andy Dufresne quem passa pela experiência de redenção.
Embora grande parte do público enxergue muito mais os movimentos externos do personagem, sua ação no mundo exterior, a grande marca de um personagem está na mudança de comportamento que acontece internamente. Admirador confesso da saga escrita por J.K. Rowling, Stephen King descreve Harry Potter como uma história sobre confrontar medos, encontrar força interior e fazer a coisa certa diante da adversidade. Discorda? Então tente relembrar os principais momentos da jornada do jovem bruxo.
No caso de Andy Dufresne, personagem criado pelo próprio King, o movimento interno é a culpa pela morte da esposa. No decorrer da história, descobrimos que Andy não puxou o gatilho da arma que matou a Senhora Dufresne e seu amante, mas ele se achava culpado por ter sido um mau marido. Sua fuga da prisão para um paraíso no México significa sua libertação externa, mas, sobretudo, interna.

Muitas vezes, é esse comportamento que catalisa as consequências no mundo exterior. N’As Crônicas de Gelo e Fogo, o sentido de honra de Ned Stark o impede de expor publicamente o maior segredo da rainha Cersei sem avisá-la antes e as consequências dessa retidão de caráter são as piores possíveis. O comportamento dominante e a maior fraqueza, ambos movimentos internos, são os principais itens de caracterização de um personagem.
A partir desses itens, cabe definir a motivação. Qual é a necessidade dramática do protagonista? Antes de apresentá-lo ao mundo, é preciso conhecer sua motivação. Mesmo que inicialmente não esteja ciente do próprio objetivo, o personagem precisa almejar algo. Se ele vai alcançar ou não esse objetivo é o desfecho da história.
Um debate recorrente na construção do personagem é o percentual do próprio autor que ele contém. Para Stephen Koch, os personagens são encontrados na imaginação. Todavia, para ele, a imaginação é um reflexo das experiências individuais. Deste modo, personagens são sempre uma mistura do autor com outras pessoas ou mesmo personagens de outra mente criativa.
Para J.K. Rowling, o personagem, em geral, é inspirado por uma pessoa de verdade, mas, assim que tem esse personagem na cabeça, ele começa a se tornar algo bem diferente. Os professores Severo Snape e Gilderoy Lockhart surgiram a partir de versões exageradas de pessoas que autora conhecia, mas se tornaram diferentes quando colocados na página. Por sua vez, Hermione é uma versão da própria J.K., mas, em suas palavras, muito mais inteligente.
Contudo, qualquer que seja a origem do personagem, ele deve aparecer na tela mental do autor com a nitidez de outro ser. O autor precisa vê-lo, senti-lo, considerá-lo uma pessoa separada, diferente de si mesmo. Um dos personagens mais conhecidos da ficção americana moderna, Don Corleone, foi construído sem referências próximas: “Tenho vergonha de admitir que escrevi O Poderoso Chefão inteiramente a partir de pesquisas. Nunca conheci um verdadeiro gângster” admitiu o escritor Mario Puzo.

Na construção do personagem, é preciso levar em conta os diversos aspectos de alguém que realmente exista: características físicas, personalidade, profissão e aspirações. Precisa saber quais decisões esse personagem tomaria sob forte emoção ou como reagiria num ambiente de aparente calmaria.
Porém, do ponto de vista do leitor, o que sobressai muitas vezes é apenas um elemento físico principal ou um detalhe da personalidade. Por isso é importante criar elementos que o distinga facilmente no cenário que habita. No caso de Harry Potter, nada melhor que citar a cicatriz em forma de raio, marca que o destaca num mundo fantástico, aliada à vontade de conhecer mais de si mesmo. Harry Potter é uma jornada de crescimento e aprendizado.
Embora não existam cláusulas pétreas quando o assunto é construção de personagem, uma recomendação comum é que se evite o máximo possível fazer uso de verbos de pensamento. Mais interessante é fazer o personagem mostrar ao leitor quem ele é através de falas e ações. Chuck Palahniuk, em artigo que se tornou referência no meio literário, aqui traduzido por Anna Schermak, ensina como deixar esse vício de lado e optar pelo show, don’t tell. A técnica de mostrar, sem deixar explícito o que o personagem está sentindo.
Tais características, embora fundamentais na construção do personagem, devem ser inseridas, preferencialmente, no decorrer da história e não de uma única tacada, o chamado infodump. Os aspectos que definem um personagem podem ser inseridos na narração, nos diálogos e, sobretudo, nas ações. Essa forma orgânica de construção não só tem se mostrado a mais eficiente como também a mais discreta para se descrever esse ser imaginário que muitas vezes parece estar vivo.
No entanto, não se deve esperar que o personagem responda a seu criador a partir da primeira página. As coisas não funcionam dessa maneira. Mesmo que se tenha feito uma boa pesquisa até chegar ao personagem, essa “conversa” leva algum tempo. O personagem pode precisar de algumas páginas até dizer ao autor o que dizer ou fazer. Uma vez descoberta essa conexão, será como se o personagem assumisse o controle da situação. Neste momento, cabe deixá-lo tomar as rédeas da história que ele pretende nos contar.
Crédito das imagens: Warner Bros.
Para ler os episódios anteriores da Jornada Literária:
Referências bibliográficas
CLINE, Ernest. Armada. Trad. Fábio Fernandes. 1ª edição. São Paulo: Leya Editora LTDA, 2015.
FIELD, Syd. Roteiro: Os Fundamentos do Roteirismo. Trad. Alice Leal. Curitiba: Arte & Letra Editora, 2009.
KING, Stephen. Sobre a Escrita: a arte em memórias. Trad. Michel Teixeira. Rio de Janeiro: Editora Objetiva LTDA, 2015
KOCH, Stephen. Oficina de Escritores: um manual para a arte da ficção. Trad. Marcelo Dias Almada. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2016.
RODRIGUES, Sonia. Como Escrever Séries: roteiro a partir dos maiores sucessos da TV. São Paulo: Editora Aleph, 2014.
THOMPSON, Derek. Hit Makers: Como Nascem as Tendências. Trad. Ana Duarte. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2018.
VOGLER, Cristopher. A Jornada do Escritor: estrutura mítica para escritores. Trad. Petê Rissatti. São Paulo: Editora Aleph, 2015.
M.C. Magnus
Últimos posts por M.C. Magnus (exibir todos)
- Artigo | Jornada Literária – Personagens - 13 de julho de 2018
- Artigo | Jornada Literária – Personagem Principal - 15 de maio de 2018
- Resenha | Jogador Nº1 - 27 de março de 2018
