Acordei no meio da noite com alguém em minha casa.
Eram apenas 2h da manhã quando ouvi um ruído estranho vindo da sala. Parecia um chiado, vozes murmurando algo incompreensível, bem ao lado da porta do quarto.
Congelei na hora.
As vozes cochichavam apressadas, como se estivessem tramando algo. Olhei para meu namorado, que dormia sem muitas preocupações ao lado, e tentei acordá-lo.
— Amor — sussurrei.
Ele roncou em resposta. Cheguei bem perto de seu ouvido e tentei de novo.
— Amor.
Ele virou de costas e roncou mais alto ainda. Não adiantava. Estava sozinha. E o que era pior: precisava ir ao banheiro.
As vozes continuavam falando bem baixinho por trás da porta, mas ainda não mostravam nenhuma intenção de entrar no quarto.
Eu me encolhi embaixo da coberta e me apoiei nas costas do meu namorado, fazendo algum esforço imaginário para tentar me camuflar com os lençóis. Se os invasores entrassem, talvez nem me percebessem ali. Era só ficar bem quietinha. Eu seria apenas parte da cama.
É claro que já estava delirando.
Virei o rosto bem devagar para meu celular em cima da cabeceira e vi que já eram 2h40. Merda. Precisava muito ir ao banheiro. Olhei com rancor para o copo vazio ao lado do aparelho. Bem que me falaram que não era bom beber tanta água antes de dormir.
É claro também que nem pensei em usar o celular para mandar uma mensagem pedindo socorro. Por que chamar ajuda se eu mesma poderia invadir a sala com um bastão e tentar acertar alguns ladrões que, imagino, estariam bem armados?
Pois bem. Afastei a coberta, pisei com muito cuidado no chão, tomando cuidado para não escorregar no tapete, e peguei o bastão que meu namorado usava nos treinos de aikido (também conhecido como Jo). Bastão que eu nunca havia nem tocado antes e não fazia ideia de como usar. Não importava, pois precisava me livrar dos intrusos o quanto antes e salvar minha bexiga.
Com os dedos trêmulos, agarrei a porta, tentando reunir um pouco de coragem antes de abri-la. Eu suava e o bastão não estava tão firme em minha mão; eu o sentia escorregar, mas não havia muito tempo para pensar. Precisava agir antes que eles o fizessem.
Odiaria que se lembrassem de mim como a “Garota que morreu com a calça molhada”.
Respirei fundo, contei até dez e abri a porta de uma vez, pronta para pegá-los de surpresa.
Só que não havia ninguém para ser pego de surpresa.
Liguei as luzes e não havia ninguém. Olhei em volta, caminhei pela sala (que também é cozinha e entrada do apartamento), mas não havia ninguém. Em dez segundos percorri a casa toda, e não havia ninguém ali comigo.
O mais estranho é que continuava a ouvir os sussurros.
As vozes estavam por toda a parte. Elas preenchiam a sala e chegavam até mim como se eu estivesse no centro de um picadeiro e elas fossem o meu público. Elas me circulavam, me vigiavam e falavam de mim. E eu estava ali, no meio da casa segurando um bastão de aikido e completamente sozinha.
Eu poderia dar conta de alguns ladrões (até parece), mas um fantasma? Já era demais. Larguei o bastão no chão, corri até o banheiro e tranquei a porta. Não que uma porta conseguisse impedir um fantasma, mas fiquei bem feliz por ele não vir atrás de mim. Ainda ouvia um murmúrio vindo da sala, mas bem longe, afastado de mim.
Bem, eu havia finalmente chegado ao banheiro, e era ali que iria ficar. Sem fantasmas, sem sussurros, sem nenhum sinal de coisa estranha acontecendo.
Até que a maçaneta começou a mexer.
E ela mexeu com força, fazendo com que toda a porta vibrasse. Sem conseguir me controlar por muito mais tempo, gritei.
— Meu bem? — Veio a voz do meu namorado por debaixo da porta.
— Amor? — chorei em resposta.
— Meu bem, abre a porta. Minha bexiga vai explodir.
Com lágrimas nos olhos e os joelhos bambos, me apoiei na pia para conseguir levantar.
— Amor? É você mesmo?
— Quem mais poderia ser? Abre, senão vai acontecer um desastre!
Não restava mais nada para mim além de acreditar nele. Abri a porta e esperei pelo pior, mas meu namorado realmente estava ali, dançando em torno de si mesmo com os olhos miúdos de sono. Ele não estava mentindo: precisava muito usar o banheiro.
Enquanto esperava do lado de fora, com medo de atravessar a sala sozinha, percebi que as vozes haviam sumido. Não ouvia mais nada.
Poucos minutos depois, meu namorado saiu do banheiro, com as pálpebras ainda bem pesadas, mas com um sorriso satisfeito no rosto.
— Deixei meu fone ligado a noite toda, sabia? Nem sei como a gente não ouviu nada. Eu teria pirado se acordasse com essa música tocando no meio da casa.
Eu que o diga.
— Você desligou o fone? — perguntei, tentando disfarçar o tremor na voz.
— Nem precisei, a bateria acabou.
Ufa.
Bem mais tranquila, fui com ele até a cama e nos ajeitamos para dormir de novo. Já estava me preparando para mergulhar em um sonho maravilhoso sobre pizzas, quando fui acordada por um ruído estranho vindo da sala.
Ah não.
Adele Lazarin
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