Continuando nossa jornada literária, chegou a hora de falarmos sobre a ideia. Já sabemos que contar histórias é fundamental para a formação humana, ponto muito bem abordado no artigo anterior do M. C. Magnus. Entender como ela é concebida, alimentada e desenvolvida é o nosso objetivo.
Perceberam que no final do parágrafo anterior a ideia foi caracterizada como ser vivo? Cabe ressaltar dois aspectos: o primeiro, que o texto literário depois de finalizado ganha autonomia do seu criador. Ele cresce e se transforma como um ser orgânico. Alguns envelhecem e perdem a força com o passar do tempo, enquanto outros se renovam e fortalecem; o segundo, a noção de multiplicidade implícita nesse conceito de criação é deliciosa. Independente de onde parta a sua ideia (enredo, personagem ou conflito), a abordagem subjetiva e suas implicações revigoram a escrita.
Para isso, precisamos desmitificar a originalidade e a criatividade. Os maiores entraves para qualquer escritor, seja iniciante ou não. Em Sandman, de Neil Gaiman, o personagem de Morpheus mora no Sonhar, o mundo dos sonhos, cuja biblioteca é repleta de obras que nunca foram escritas. Se procurarmos em suas prateleiras, independente do gênero, é provável que encontremos uma obra original e criativa que nunca chegou a ser publicada. O escritor Eduardo Spohr sempre diz que a pior obra publicada é melhor do que a mais genial nunca escrita. Para alcançar a “libertação” é preciso coragem e desprendimento, ao invés de genialidade e dom.
Antes da era digital, cartas e diários eram ferramentas fundamentais como registro histórico de grandes pensadores. Nos diários de Leon Tolstói, lê-se uma passagem em que o escritor vai até o banheiro escovar os dentes e começa a planejar como será o dia. Ainda absorto em tais pensamentos mundanos, ele encontra a esposa no corredor que o indaga sobre a higienização matinal. Após confessar que não se lembra, uma vez que esse é um ato automatizado, ele reflete sobre o automatismo do dia-a-dia e pondera: “uma vida inconsciente é uma vida não vivida”. Em 1996, uma cineasta francesa chamada Coline Serreau, produziu um dos filmes mais originais de sua época, “La Belle Verte”, no qual os habitantes de um planeta utópico e extremamente desenvolvido, de tempos em tempos, tiram férias visitando outros mundos, seja para diversão ou como missão de auxílio para evolução. Na história, nos deparamos com uma mulher que deseja vir à Terra, fato que não ocorre há 200 anos, e estudar de perto nossos costumes. A premissa de um ser alienígena visitar o nosso mundo não é nova, mas o trunfo do filme é abstrair o olhar automatizado que temos sobre a vida e fornecer novas primeiras impressões ao que nos cerca. Comer, vestir, trabalhar e amar são temas revisitados inúmeras vezes na literatura e cinema. Como ser criativo sem recorrer a clichês? A grande lição do longa é trazer um deslocamento do gênero e do tema. Misturar filosofia, ecologia, feminismo e pacifismo por outra ótica.

“Do que falamos quando falamos em saltear?” era o titulo original desse artigo quando a primeira ideia surgiu. Além de uma homenagem ao “Do que eu falo quando eu falo de corrida”, de Haruki Murakami, também é uma constatação elementar da nossa natureza: temos fome. A pergunta feita pelo grupo de rock Titãs sempre nos acompanha “Você tem fome de quê?”. Mas o que saltear tem a ver com escrita e criatividade? Tudo. O processo de fritar alimentos com pouco óleo em temperaturas altas é importante para manter o sabor e a suculência. É a transformação de algo em seu estado bruto, natural, em um produto mais refinado. A diferença é que, ao escrever, a sautese — espécie de frigideira com fundo achatado e lados retos que permitem o fogo escapar — é você. Uma ideia bruta é domínio público, está na natureza para ser apreendida por todos. Só com a sensibilidade de um chef/escritor é que ela passa a ganhar formas e significados únicos. Acenda o fogo, deixe a panela esquentar e acrescente a gordura:
- Visão: abra os olhos. O seu trabalho é observar o mundo ao redor e as possibilidades de eventos, personagens, conflitos e temas. Não se iluda com o estereótipo de um escritor recluso na sua torre de marfim, você precisa sentir a vida, ler mais do que escrever. Esteja preparado para perceber que a gordura se concentrou no centro da panela.
- Audição: relacionamentos são indispensáveis. Uma música, uma conversa no trem, uma buzina nervosa no trânsito. Ouvir mais, falar menos. Quantas histórias estão dentro de uma risada, um grito ou um tiro? Quando a ideia começa a fritar é possível ouvir a sua transformação.
- Olfato: uma das memórias afetivas mais fortes. Café passado na hora, terra molhada, perfume que ainda teima em morar na roupa, balas de menta misturadas com tabaco. Quantos cenários, personagens e conflitos invocamos com essas imagens? Já começou a sentir o cheiro da sua ideia selar?
- Tato: movimento. Deslocamento. O cabo longo da sautese lhe permite manusear a ideia sem medo de se queimar. Assim como cada alimento tem o tempo certo de cocção, a sua ideia tem o tempo certo de lapidação. Desligue o fogo e deixe a história descansar até realçar o sabor.
- Paladar: não há limitações, não há certo ou errado. São tantas as combinações possíveis que literalmente buscamos uma explosão de sabores. Arrisque-se e faça um terror levemente azedo, um romance salgado. Saiba combinar evitando os excessos, deixe que cada um tenha o seu momento. Aprecie sua ideia acabada.
Não se enganem pensando que vocês se lambuzarão de ideias suculentas e apetitosas. Isso cabe aos leitores. Depois de tanta preparação é hora de escolher. Alguns mais exaltados diriam que chegou a parte do sacrifício. Emprestando um conceito muito usado na economia é tempo de avaliar o custo de oportunidade. Esse termo se refere ao custo de escolhermos algo em detrimento a outro. Em nosso caso, todas as ideias que não aproveitamos ou preterimos e as boas histórias que elas dariam. Entenderam por que a expressão sacrificar do parágrafo anterior? Para todos os “E se…” que usou como estopim de uma ideia, apenas um seguirá em frente.
O tamanho de uma história não deve ser confundido com a força de uma ideia. Qual formato devemos aplicar? Conto, novela, romance ou série? Uma vez que os sentidos estão despertos, devemos nos imbuir de respeito e bom senso. Machado de Assis usou o embate entre uma linha e uma agulha como ideia para o estupendo conto “Um Apólogo”. Raduan Nassar, em sua novela “Um copo de cólera”, desnuda o amor, o desejo e a intimidade de um casal. Dois personagens, um cenário e um corte de poucas horas de um dia. Gabriel Garcia Marques narra a história de uma família, de um povoado e suas guerras durante um século. Tragédia e mágica permeiam “Cem anos de solidão”, o grande romance do Realismo Mágico latino-americano. Isso sem mencionar a história de um garoto órfão que vivia com os tios e descobre que é um dos maiores bruxos do mundo. A série de J.K. Rowling acompanha Harry Potter durante os sete anos em que estuda em Hogwarts — a escola de magia inglesa.
A grande vantagem da literatura é que o orçamento para criar a sua ideia é ilimitado. Dê vida a objetos, viaje galáxias e guerreie por séculos a fio. Seja irrestrito com sua imaginação. Gosto de acreditar que no Sonhar, naquela biblioteca magnífica, a ala das nossas ideias excluídas está intacta. Que em uma noite chuvosa, em sono profundo, sejamos convidados a folheá-las. Afinal, elas são parte de nós.
Rodrigo Chama
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