Após um hiato de seis anos do lançamento de “A Culpa É Das Estrelas”, John Green está de volta. Em “Tartarugas Até Lá Embaixo” (Editora Intrínseca, 256 páginas, com tradução de Ana Rodrigues), o autor estadunidense conta a história de Aza Holmes, uma jovem de 16 anos que luta contra uma doença mental enquanto investiga o misterioso desaparecimento de um bilionário, cujo paradeiro pode render uma vultosa recompensa.
Não por acaso, Aza Holmes sofre do mesmo transtorno que acompanha Green desde a infância. Em uma conversa com fãs no ano passado, o escritor revelou sofrer de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e ansiedade: “Trabalho há anos em ‘Turtles All the Way Down’(título original) e estou animado em compartilhar essa história com os leitores. Essa é minha primeira tentativa de escrever diretamente sobre o tipo de doença mental que afeta minha vida desde a infância, então enquanto a história é ficcional, também é algo muito pessoal”, afirmou.

Assim como as obras anteriores do autor, “Tartarugas Até Lá Embaixo” é narrada em primeira pessoa. Sem dúvida, trata-se da voz narrativa ideal para o leitor acompanhar todo conflito interno de Holmes que sofre com espirais de pensamentos que a consomem a ponto de colocar até mesmo sua vida em risco.
Contudo, talvez influenciado por esse aspecto interno da personagem, Green não desenvolveu um mundo exterior forte o bastante para ser classificado como cativante. O objetivo de encontrar o bilionário Russell Pickett, que por acaso é pai de Davis, amigo de infância e futuro interesse amoroso de Holmes, é deixado de lado durante a maior parte da trama e só é solucionado por força do acaso.
Os coadjuvantes também deixam um pouco a desejar. A exceção da impagável Daisy Ramirez, sua melhor amiga e principal alívio cômico, não há grande destaque para os demais. A mãe de Aza, embora dedicada como normalmente são as mães descritas pelo autor, é do tipo superprotetora, o que parece um contrassenso diante de uma filha de 16 anos que precisa ter mais contato com o mundo exterior.
Por sua vez, Aza é a típica versão feminina dos protagonistas de Green. Tímida, insegura e introspectiva, a personagem foi construída para se conectar ao público e este é um aspecto positivo do romance. Todavia, após diversas obras, chama a atenção que seus protagonistas sejam, em essência, a mesma pessoa, mudando apenas de nome, gênero e endereço. De positivo, fica o alerta sobre a gravidade do Transtorno Obsessivo Compulsivo, um tema que, assim como a depressão, ainda não recebe a devida atenção da sociedade.
Capa: Editora Intrínseca
M.C. Magnus
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