— Posso ir andando com a senhora?
— Eu estou com Deus, obrigada moço.
— Ai que ótimo! 3 é melhor ainda! Essa cidade anda tão perigosa a noite.
— É melhor eu apertar o passo…
— Eu estava mesmo rezando pra encontrar alguém pra não precisar ir sozinha. Esse caminho entre o metrô e o meu trabalho é super perigoso.
— O senhor trabalha na rua?
— Não. Trabalho no call center no fim da rua. A senhora está voltando da igreja?
— Sim.
— Eu costumava ir à igreja também mas parei. Não estava gostando das coisas que o pastor falava sobre o “meu modo de vida”.
— E ele lá estava errado? — a senhora ergueu as sobrancelhas.
— Pecados todos cometemos, não é?
—…
— Não vou dizer que sou inocente nem nada. E por mais que as pessoas não me aceitem eu tô tomando jeito na vida. Trabalho, vou voltar a estudar.
—…
— Quem sabe ainda não dou um testemunho lá na sua igreja?
— Tá amarrado! – A religiosa arregalou os olhos indignada.
— Acha que eu não posso?
— Testemunhos são para declarar vitórias e livramentos meu caro…
— E você quer mais vitórias? Eu sei que sou muito digno.
— Desse jeito?
— Desse jeito como, hein?
— Quer dizer que nunca entregou atestado falso só pra não ter que ir trabalhar?
—…
— E aquele cara pedindo comida do lado da estação?
— Aquele que já riu várias vezes por mim quando eu passo?
— Exato. Ou vai me dizer que por não te entender ele virou menos necessitado?
—…
— Acho que você já tem algumas coisas das quais se livrar…
— Mesmo se eu parar com essas coisas você acha que a sociedade vai aceitar que eu seja quem eu realmente sou? Sem violência, sem julgamento, como iguais?
— É isso mesmo que você quer, só isso?
—?
— A situação está caminhando, a passos lentos, mas e depois o que vai sobrar? Alguém igual? Com a sociedade do jeito que está que tal ser melhor?
— A senhora fala como se um dia tudo fosse se resolver. Várias amigas minhas sofrem violência todos os dias. Somos tão errados assim?
— Que tal parar de se focar no errado, no pecado que os outros apontam e tentar ser alguém melhor? Por Deus, por você ou o que quer que seja. As vezes a única escolha enquanto as coisas se ajeitam é focar no que você pode fazer de bom.
—…
—Miga, sua louca!!! – Uma voz estridente soou no ar do nada — Que demora foi essa?
— E aí. Eu tava com medo de vir sozinha da estação e vim com essa senhora. Deixa eu te apresentar minha amiga…
— Apresentar quem sua travesti doida?! Não tem ninguém com você!
—…
— Fica andando por aí sozinha essa hora da noite pra ver, ainda mais toda montada desse jeito. Se quer ser estuprada avisa. Vamos logo, a gente tá atrasada.
— Mas eu não tava soz…
— Ai, vamos logo, só consegui comer um salgado enquanto te esperava — A recém-chegada jogou o papel do lanche no chão enquanto andava.
— E… amiga pega esse papel que você jogou do chão ai vai.
— Eita! O que foi?
— Já tem gente demais sujando a cidade.
— O que deu em você, meu Deus…
Ela olhou para trás enquanto a amiga pegava o papel do chão a contra gosto. Acho que eu não tava mesmo tão sozinha. Amém.



Muito boa essa crônica
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