Crônica | Quando você voltar2 min de leitura

— Puta merda, eu não aguento mais brigar com você! – Ela disse enquanto saia em disparada para a porta.

— Calma, vamos conversar! — Ele tentou reparar o dano.

A briga tinha começado por algo completamente besta. A escolha de canais na TV no horário nobre. Como toda boa briga de casal que se preze, o que começou completamente banal havia se tornado um cenário digno de batalha travada em uma das Guerras Mundiais. As brigas tinham se tornado cada vez mais comuns, quase uma rotina na vida do casal. Era uma fórmula pronta: tinham bons momentos, algo bobo engatilhava uma briga, brigavam feio; tudo voltava ao normal.

Ele tentou ligar para ela. Não atendeu.

Não havia muito que fazer naquela situação. Quando ela ficava brava, o lance era esperar a poeira baixar e tentar conversar sobre o que tinha acontecido. Quando a briga era mais feia, ela saía para dirigir por entre as ruas da cidade.

Ele estava sozinho. Pensou na relação. Conheceu-a quinze anos antes, na faculdade. Paixão à primeira vista. Passavam horas discutindo as teorias anarquistas de Bakunim, as poesias de Neruda, Gabriel García Marquez e seus cem anos de solidão. Viveram ali nos primeiros anos uma paixão intensa, à flor da pele, que pulsava como um organismo vivo. Mas a vida acontece e o vapor intenso dos primeiros anos de relacionamento começa a se esvair e os problemas da vida a dois começam a ter uma presença quase física na vida cotidiana. Mas, apesar disso, todas as memórias de viagens, transas, idas ao cinema e ao teatro, jantares fora, almoços em família, pizzadas com os amigos eram boas demais.

Ele estava sorrindo. Sorrindo muito. Botou os Beatles para tocar na antiga vitrola da avó. Decidiu mandar um WhatsApp para ela. Dizia: “Cuidado nas ruas! Quando você voltar, tranque o portão, feche as janelas, apague a luz e acima de tudo, saiba que eu te amo”.

Foi dormir ao fim do disco, com nada além de um sorriso no rosto e amor no coração.

Conto livremente inspirado na canção “Quando você voltar” da Legião Urbana.

Cesar Gaglioni

Cinéfilo e nerd, Cesar escreve sobre séries de TV, games e música no Jovem Nerd e escreve sobre todos os outros mundos possíveis em seu tempo livre. Amante do terror e do drama, tem Kerouac como seu ídolo pessoal. Editor do site Oligarquia Pop e um fanático por literatura, está escrevendo “O Fim de Quem eu Fui”, seu primeiro romance.

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