Para onde ir quando não se tem ninguém?
Lisa girou a maçaneta e correu para fora de casa com um único pensamento em mente: fugir. Não sabia aonde devia ir, apenas que precisava fugir. Deixou a porta aberta e pulou o último degrau da escadinha que conduzia ao jardim, caindo em uma poça de lama criada pela chuva e sujando as galochas vermelhas.
Olhou por apenas um segundo para as botas feitas de borracha e decidiu que estar impecavelmente limpa não era tão importante assim. Um pouco de lama lhe caía bem. Outro segundo e já estava com a sombrinha nos ombros, quase tão grande quanto seu corpo miúdo, a cor berrante combinando com as galochas.
Estava pronta. Ou, pelo menos, se sentia pronta.
Partiu sem malas ou despedidas, os dois olhos focados no caminho a seguir e as lembranças esquecidas em fotografias imóveis na sala. Não teve nenhuma formalidade, nenhum aceno de mãos, balanço de cabeça ou troca de olhares. Deixou a casa para trás e não se lembrou nem mesmo de trancar a porta. Tudo era passado.
Deu um pulo para frente, outro para o lado, e logo se viu correndo pelas ruas escuras e frias da cidade. A névoa caia junto com a chuva, ocultando os muros altos, cimentados e cobertos de arame farpado ao longo do caminho. Não era preciso que o céu se fechasse para esconder as pessoas daquele lugar.
A rua seguiu à esquerda, depois à direita, e então continuou reto por vários minutos, quase uma hora, e então várias horas, até que Lisa cansou. Nunca havia caminhado tanto. Os pés estavam inchados dentro dos sapatos, pedindo uma folga. Os braços doíam com o peso da sombrinha, que já pendia inútil ao lado, deixando que gotas pesadas molhassem o rosto desprotegido da garota, encharcando o cabelo, as roupas e a vontade de continuar em frente.
Lisa estava exausta. Mesmo agasalhada, sentia muito frio. A blusa molhada apertava os ombros e a calça parecia feita de chumbo. Cada novo passo era um esforço terrível.
— Que péssimo dia para fugir de casa! Tô com frio, fome e cansada… Será que tem chocolate quente no fim do caminho? — pensou, enquanto sentava na calçada e cutucava uma solitária flor com o bico da galocha. — Eu tomaria um chocolate quente agora… Com bastante marshmallow nas bordas! Mas aposto que nenhum é melhor que o da mamãe.
Com a lembrança de sua mãe em mente, Lisa não conseguiu conter o choro, que segurava havia algum tempo. Escondeu o rosto entre as mãos e deixou que as lágrimas aquecessem o rosto fustigado pelo frio.
— Mas a mamãe não volta mais… Não posso voltar para casa, não sem a mamãe. Lá não é mais meu lugar, com tanta gente estranha e aquela mulher horrorosa. Não volto mais. Vou embora de qualquer jeito!
Mesmo pensando assim, Lisa não se mexeu. Ficou parada, como se estivesse esperando por algo. Poderia ser alguém para guiá-la, um sinal indicando aonde ir, ou um pouco de coragem para ajudá-la a seguir em frente. Ainda chorando, ergueu o rosto para estrada, sem avistar ninguém, enquanto cutucava a pequena flor ao lado.
Imaginou se também conseguiria ser tão corajosa como aquela flor, resistindo sozinha ali, no meio do nada, ou se logo se dissolveria com o peso da água e da tristeza.
O vento começou a soprar em seus ouvidos, chamando, empurrando, implorando para que Lisa se levantasse. Era preciso continuar, mas ela permaneceu sentada, abraçando as pernas para se proteger do frio, ignorando o fato de que deveria partir se não quisesse ser encontrada.
Tinha medo – mas não era o momento de ter medo.
Sentiu o vento batendo nas costas, até que ele se encontrou com a sombrinha vermelha aberta no chão. Sem ninguém para segurá-la, ela logo alçou voo e foi levada para longe
— Minha sombrinha! Volta aqui!
E Lisa correu atrás dela. Correu o mais rápido que suas pernas curtas e magras aguentavam, pensando apenas em recuperar sua sombrinha querida. A sombrinha que fora de sua mãe.
O borrão vermelho seguia veloz à frente, mas Lisa não desistiu. Espalhando lama para todos os lados, ela corria por entre as poças no meio da calçada, empurrando qualquer um que cruzasse seu caminho. Eram poucas pessoas na rua, mas ainda assim pequenos obstáculos para a garota, que ia lentamente ficando para trás.
A sombrinha voou um pouco mais alto e cruzou a rua. Lisa foi atrás, sem olhar para os lados, e não viu que um carro estava vindo. O motorista também não a viu, até o último segundo. Ele freou, mas não foi rápido o suficiente.
O carro patinou sobre o asfalto molhado, rodando até se chocar um poste de luz na esquina. As pessoas gritaram, apontando para a rua, assustadas com o que poderiam ver, mas não havia nada, somente um par de galochas vermelhas.
Onde estava a garota?
Não muito longe dali.
Como se algo pesado comprimisse seu peito, Lisa abriu os olhos em um único fôlego. Estava protegida sob a entrada de um túnel, não muito longe do acidente do qual escapara – por pouco. Os pés estavam descalços e as meias ensopadas, mas ela não sentia mais frio. Tentou se lembrar do que havia acontecido, mas era como se parte de sua memória tivesse sido apagada.
Enquanto pensava, Lisa olhou ao redor. O túnel onde estava era diferente de qualquer outro que já tinha visto, principalmente porque ninguém parecia enxergá-lo. O acidente havia acontecido há poucos metros e ninguém conseguia ver a garota sentada ali no chão, mesmo que estivessem procurando por ela. As paredes do túnel refletiam a chuva que caía do lado de fora, criando pequenos arco-íris em seu interior.
Ela se colocou de pé sem dificuldade. Olhou para os braços e pernas em busca de machucados, arranhões ou roxos, mas estava tudo bem. Não se sentia cansada, mas cheia de energia, mesmo depois da queda. Os pés também não sentiam falta das galochas, e podia caminhar por ali sem se preocupar em feri-los, mesmo descalços.
— Ainda bem que minhas meias são da mesma cor que minhas botas, assim ninguém vai perceber que estou sem sapatos. Agora só quero minha sombrinha.
As luzes nas paredes vibraram com a chuva e refletiram um ponto vermelho dentro do túnel, bem longe de onde a garota estava. O ponto brilhou e apagou, e então começou a piscar, como se quisesse falar algo. E continuou piscando por vários minutos enquanto Lisa permanecia parada na entrada sem saber o que fazer.
Bem, na verdade ela sabia que não queria entrar ainda mais no túnel, mas também sabia que queria recuperar a sombrinha. O que precisava agora era decidir o que era mais importante.
No final, ela sabia o que precisava fazer.
— Quero a sombrinha da mamãe de volta.
E um enorme peso saiu de seus ombros. Ao decidir o que queria – e devia – fazer, Lisa se sentiu preparada e cheia de certezas. Era só criar coragem agora. Ela respirou fundo, como se estivesse reunindo toda a força que precisava para recuperar a sombrinha.
— Só um minuto, e entro.
Um minuto se passou.
— Ainda não.
Esticou os dedos, alongou os braços e aqueceu as pernas, assim como havia aprendido na aula de educação física. Olhou para frente e o ponto vermelho continuava ali, esperando por ela – chamando por ela.
Ela inspirou mais uma vez e, antes que pudesse soltar o ar, começou a correr até o outro lado do túnel.
Quanto mais corria, menos medo sentia. O vento que passava por ela levava embora todas as lembranças infelizes e o que restava era uma imensa vontade de rir, apenas rir, e continuar correndo. Seus pés sem botas tocavam o chão áspero, úmido e cheio de fendas, mas não se machucavam, nem se molhavam. Era como se flutuassem enquanto corriam.
O ponto vermelho à sua frente logo virou uma luz branca e gigantesca que ofuscou Lisa. Ao desviar os olhos, percebeu que o túnel escuro se transformou num rodamoinho de pontos coloridos, não tão brilhantes como a luz branca, mas capazes de emitir outras luzes menos intensas e que começaram a envolver todo o corpo da garota.
À medida que as luzes percorriam seus braços, suas pernas e cada fio de cabelo, Lisa percebeu que corria sobre o ar. O chão havia desaparecido, e o que restara era apenas um abismo sem fim, repleto de cores.
Mesmo assim, ela não parou de correr. Sentia que estava se aproximando de algo e, quando reuniu coragem para olhar novamente para a luz branca, viu que estava muito mais perto. Aos poucos, a luz começou a se expandir para todos os lados, crescendo até cobrir todo o campo de visão dela, até abraçar tudo que existia no túnel.
Agora tudo era luz branca.
E Lisa ainda corria.
Queria parar, mas não conseguia. Em vez disso, deu um salto no nada e fechou os olhos.
Esperou pelo impacto, mas ele não veio. Ficou parada por vários minutos – ela imaginou que foram apenas alguns minutos –, de olhos ainda bem fechados e as mãos entrelaçadas sobre o peito, apenas esperando. E esperando. Até que ouviu música.
Sem poder se conter mais, piscou para o dia claro que se abria à sua frente. As luzes coloridas a rodeavam, muito maiores do que pareciam de dentro do túnel. Elas dançavam entre si, se misturavam e depois de separavam novamente, criando novos tons e novas melodias.
A música, afinal, vinha delas.
Lisa estava encantada com tudo que via. E o melhor, ali não chovia, ela não estava mais molhada e não sentia frio. Sabia, com toda a certeza do mundo, que não estava mais na cidade onde nascera. E estava feliz com isso.
Depois que se acostumou com as luzes e a música, começou a prestar atenção no que mais existia ali nesse novo mundo. O túnel tinha uma saída, afinal, situada logo atrás de onde estava. Pedras polidas haviam sido colocadas no entorno da abertura, formando um mosaico em preto e branco.
Ao se aproximar, Lisa percebeu que havia um símbolo encravado em cada pedra, uma imagem que se parecia com uma flor de lótus. Ela ficou imaginando quem se daria ao trabalho de fazer desenhos exatamente iguais em cada uma daquelas peças. Quis tocá-las, mas sentiu algo em seu âmago avisando que poderia não ser uma boa ideia.
Em vez disso, olhou dentro da abertura do túnel, para o caminho de onde viera. Algumas gotas pingavam do teto e o chão refletia pequenos arco-íris sobre as rochas úmidas e cheias de limo da parede. Lisa não conseguia ver a abertura por onde entrara, mas tinha a impressão de ouvir a chuva, embora o som parecesse vir de um lugar muito, muito distante.
Preferia a música ao seu redor do que o barulho da chuva. Pela última vez, deu as costas para a abertura do túnel e não voltou mais a procurá-la. Em vez disso, seus olhos acompanharam a estrada sob seus pés e logo encontraram uma ponte de madeira.
Algumas tábuas da ponte estavam soltas, outras haviam se perdido em algum momento de sua existência. Aquelas que permaneciam firmes tinham pequenos buracos provocados pelo tempo, além de algumas farpas soltas. As cordas que ligavam um lado a outro pareciam ainda menos resistentes, como se um simples puxão pudesse derrubá-las no rio – e derrubar também quem estivesse atravessando no momento.
O mais estranho é que, apesar de toda essa aparente fragilidade, várias estátuas de mármore se encontravam sobre a ponte, que parecia querer sucumbir àquele peso todo, mas, mesmo assim, resistia. As estátuas tinham diferentes formas, todas desconhecidas para Lisa, mas que pareciam ser de animais. Adornos feitos de flores coloridas enfeitavam seus pescoços.
Um rio volumoso corria logo abaixo da ponte, mas ele não era azul, nem mesmo verde, mas rosa. Sobre sua superfície navegavam pequenas canoas, cada uma levando duas pessoas vestidas de preto e com capuzes largos cobrindo seus rostos. O que existia depois da ponte, Lisa não conseguia ver.
— Ei, isso aqui é seu?
Lisa virou o rosto na hora. Sentada sobre um tronco ao lado de um dos animais de mármore estava uma garota magra e alta. Sua cabeça era comprida e fina, o rosto completamente branco e os olhos negros, vazios e sem vida. O cabelo longo e ruivo caía por sobre os ombros, contrastando fortemente com o tom da pele.
Ela estendeu uma mão longa e pálida, que segurava o cabo de uma sombrinha vermelha. Perto da garota, Lisa já não achava mais que o objeto era tão grande assim.
Sem emitir som algum, ela balançou a cabeça, indicando que a sombrinha lhe pertencia.
A garota pálida pareceu intrigada e devolveu um olhar curioso. Um sorriso morno se formou em seus lábios e ela estendeu a mão vazia para Lisa.
— Você não é daqui, é? Vem, posso te mostrar.
Os olhos de Lisa brilharam como não brilhavam havia tanto tempo. Ela sabia que deveria sentir medo, mas a única coisa que sentia em seu coração era um calor novo, acolhedor, como se pertencesse àquele mundo estranho.
Alguém queria tê-la por perto. Alguém queria ajudá-la.
Ela se perguntou mais uma vez se era a escolha certa a fazer, mas foi realmente a última vez. Era a escolha dela. Ali era onde queria estar. Segurou a mão da garota ruiva e mostrou um largo sorriso em seu rosto. A garota retribuiu com uma risada sincera, parecendo muito mais viva do que aparentara antes.
E Lisa seguiu em frente, pronta para sua próxima aventura.
Adele Lazarin
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