Resenha | Ghost Talkers6 min de leitura

É uma pena que Mary Robinette Kowal nunca tenha sido publicada no Brasil. A autora de Ghost Talkers – objeto desta resenha – percorreu uma trajetória um tanto peculiar. Mary começou sua jornada profissional como marionetista, profissão que mantém até hoje através da própria produtora, atuando em produções como Os Muppets. Mais tarde, começou a escrever ficção e desde então esta é sua principal ocupação. Além disso, ela também é narradora de jogos e audiolivros, incluindo obras de autores como John Scalzi e Neal Stephenson, além, é claro, das próprias obras.

Mary Robinette Kowal
Mary Robinette Kowal. Fevereiro de 2012. Fonte: Goodreads.

Ela colecionou alguns prêmios nos últimos anos. Em 2008, venceu o Prêmio Campbell na categoria Best New Writer, por conta do seu trabalho com contos de fantasia e ficção científica. O seu romance de estreia, Shades of Milk and Honey, foi nomeado em 2010 ao Prêmio Nebula na categoria melhor romance. Este livro acabou sendo o primeiro de uma série intitulada Glamourist Histories. No ano de 2011, Mary venceu o Prêmio Hugo na categoria Conto com a ficção científica For Want of a Nail, feito que repetiu em 2014 com a noveleta Lady Astronaut of Mars.

Ghost Talkers foi uma surpresa para mim. Eu conhecia a autora do podcast Writing Excuses, no qual ela é anfitriã em conjunto com Brandon Sanderson, Dan Wells e Howard Tayler, mas até então eu nunca havia dado uma chance ao seu material. Até alguns meses atrás, eu era assinante do Audible, serviço de distribuição de audiolivros da Amazon. O plano básico disponibiliza um crédito todo mês, que pode ser trocado por qualquer audiolivro do acervo. Acredito que este foi um dos meus créditos mais bem utilizados até hoje. Como você já deve ter percebido, esta resenha foi baseada no audiolivro, narrado pela própria Mary.

Capa do livro Ghost Talkers, de Mary Robinette Kowal
Capa do livro.

A premissa do livro já revela um frescor incomum: durante a Primeira Guerra Mundial, a inteligência do exército britânico mantém uma força Espiritualista chamada Spirit Corps, responsável por coletar relatórios de soldados mortos no fronte de batalha, adquirindo informações cruciais dos movimentos inimigos em tempo real. Dentre os médiuns que ajudam a inteligência nos esforços de guerra, está Ginger Stuyvesant, uma médium estadunidense que está noiva do Capitão Benjamin Hartshorne, um oficial da inteligência. Enquanto ele está longe no fronte, Ginger descobre através de um espírito a existência de um traidor. Sem a presença do noivo para validar suas descobertas, ela precisa provar que não está imaginando coisas. E para piorar a situação, ela ainda tem que descobrir como os alemães estão sabotando as operações do Spirit Corps.

A escolha da autora por narrar toda a história em terceira pessoa do ponto de vista de Ginger, foi com certeza a escolha mais interessante possível, e o resultado traz um algo novo que vai ficar com a gente para sempre. Temos a oportunidade de navegar com Ginger para além do plano dos mundanos, e compartilhar da sua sensibilidade com os vivos e com os mortos.

Combinando elementos de várias religiões, a representação dos rituais espíritas e das descrições das viagens astrais bebem principalmente da fonte do Espiritismo Kardecista, mas vai além, trazendo também alguns elementos do Vodu africano. Do Espiritismo, temos as séances, conhecidas por aqui como sessões espíritas, além das viagens astrais, fantasmas, poltergeits e possessões. Já inspirado no Vodu, temos um dos elementos mais importantes da história: a técnica secreta para ligar a alma dos soldados britânicos a um lugar específico, de forma que no momento da morte, possam retornar e reportar as circunstâncias da sua morte, e de quebra, deixar uma mensagem de despedida para seus entes queridos.

A mediunidade de Ginger é representada de forma sensível e inspiradora. Sempre com a alma um pouquinho fora corpo, Ginger consegue perceber os sentimentos dos outros, vivos ou não, de uma forma bem visual. Cada sentimento tem uma cor associada, recurso que é muito bem aproveitado pela autora ao longo de toda a narrativa. Enquanto um personagem pode explodir em raiva vermelha e afundar num medo negro, a satisfação reluz a âmbar e o entusiasmo faz a aura brilhar mais forte. No texto em inglês, esses trechos são muitas vezes bem poéticos e concedem ao livro charme próprio. Até mesmo o nome da personagem é uma brincadeira com esse aspecto do livro. Em inglês, um dos significados de ginger, quando usado como adjetivo, significa ruivo(a).

Mas nem tudo são rosas para Ginger. Enquanto a mediunidade pode ser útil no dia-a-dia, ajudando-lhe a saber quando alguém está mentindo, por exemplo, ser uma médium pode ser difícil em termos de guerra. Sua tarefa no Spirit Corps é colher relatórios dos espíritos de soldados recém-mortos no fronte. Muitas vezes, em casos difíceis envolvendo mortes traumáticas, o espírito não está em condições de reportar, e ela precisa reviver suas últimas memórias. Apesar de doloroso, Ginger se mostra muito resiliente, aceitando o fardo com orgulho, sempre buscando ajudá-los a seguir adiante.

Mas esse dom também implica situações difíceis e desagradáveis, com as quais Ginger deve lidar. Sua tarefa no Spirit Corps é colher relatórios dos espíritos de soldados recém-mortos no fronte. Muitas vezes, ela precisa reviver as memórias dos últimos momentos de um soldado para cumprir sua dever. Apesar do processo doloroso, Ginger se mostra muito resiliente, aceitando o fardo com orgulho, sempre buscando ajudá-los a seguir adiante.

O elenco de médiuns que atuam com Ginger está repleto de personagens memoráveis. Lady Penfold, sua tia e fundadora do programa Spirit Corps, se mostra engenhosa e desempenha um importante papel de suporte ao longo da história. Helen, a médium responsável por criar o método responsável por ligar as almas dos soldados, carrega nas costas o peso do racismo de uma Londres do começo do século XX.

A autora não hesita em tratar de temas difíceis, e este período histórico se mostra um ambiente propício para tratar questões como racismo e machismo. Ginger não é uma personagem ingênua, mas no decorrer da história se vê confrontada por diferentes obstáculos advindos desse tipo de comportamento.

Por fim, devo elogiar a performance da narração de Mary, que confere a cada personalidade uma voz única e profunda que somente a própria autora poderia entregar de forma tão verdadeira, dos diferentes sotaques aos trejeitos de cada um. Em especial, a voz de Ginger reflete seu caráter de maneira notável. Com uma voz sempre cansada pelo trabalho duro e incessante, ela nunca deixa de soar carinhosa, e mesmo nos momentos mais difíceis, cada palavra vem carregada de verdade.

Infelizmente, no momento desta postagem, o livro está disponível apenas em inglês. Se o idioma não é um obstáculo para você, e você está ávido por uma leitura emocionante e que reserva um final surpreendente, Ghost Talkers pode ser o livro que você procura.


Você pode encontrar o livro em:

Skoob
GoodReads
Amazon
Audible

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Dyego Maas

Tendo mergulhado no mundo da escrita no final de 2015, Dyego Maas produz contos em diferentes gêneros literários, que vão desde ficção histórica até fantasia, ficção científica e terror. Muitos deles estão publicados aqui no Conte Histórias. Ele também está trabalhando em seu primeiro romance: uma fantasia infanto-juvenil com temática steampunk. Dyego também atua como analista de sistemas na cidade de Blumenau, Santa Catarina, e está buscando meios de unir esses dois interesses tão distintos: escrita criativa e desenvolvimento de software.
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