Conto | Subliminal8 min de leitura

Canções me davam medo. Eu explicava o motivo de faltar às aulas de música, mas enquanto as professoras achavam engraçado, alguns colegas aproveitavam disso para zombar de mim. “Cagão! Lesado! Mentiroso.” Isso me afastava das pessoas, e eu era só uma criança. Hoje a música já não me dá medo. Aliás, ela é a minha arma. As coisas que eu via na infância quando fugia das músicas que hoje me são favoritas, se escondem de mim, mas meus instrumentos os revelam e os transformam em presas prontas para serem dominadas, aprisionadas; mantidas da mesma forma em que gravo minhas bandas prediletas na rádio ou meus solos de guitarra: Com microfones, gravadores e fitas cassete.

#####

Meus pais tinham uma banda chamada EVP. Eram famosos na região, coordenavam os principais eventos musicais da cidade e tinham até um ônibus de show. Esse ônibus perdeu o controle durante uma viagem para a região serrana. E foi assim que eles se foram.

Ainda assim, pude ver meus pais uma última vez.

Eu não sabia muito bem o que acontecia num velório, mas parentes distantes e outros membros da banda que tiveram sorte de não estarem no ônibus no dia do acidente, me diziam que meus pais estavam naqueles caixões.

Não conseguia vê-los, mas um tio que só conhecia pelo apelido teve a gentileza de me explicar que: “o caixão é fechado quando o morto tá desfigurado.”

Já era o suficiente para um dia melancólico, mas quando começaram a tocar uma das canções deles durante o enterro, lembrei do que faziam quando passavam por um dia duro ou recebiam uma notícia ruim. Usavam a música. Eles não eram religiosos, mas tratavam a música como um deus e bastava que eu reclamasse de alguma coisa para me deixarem “no vácuo,” ouvindo solos de guitarra sem-fim, enquanto eles me ignoravam dançando como dois patetas até que meu humor voltasse ao normal.

E lá estavam os dois sorrindo e dançando em cima dos caixões.

Eu corri na direção deles, gritando por eles, mas não me ouviam. Os adultos tentaram me segurar, com medo de que eu caísse em alguma cova, mas não conseguiram evitar a minha queda.

Meus pais não me ouviram, mas tenho certeza de que no momento em que eu caí, eles olharam para mim e tentaram me segurar.

Essa foi minha última lembrança deles.

#####

Ainda tenho uma cicatriz daquela queda, e além de ter uma infância difícil pela perda dos meus pais, ser rodeado de instrumentos que herdei e não saber tocá-los, não poder me divertir com músicas e nem ao menos ouvir as canções dos meus pais era deprimente. Todo e qualquer momento em que notas eram tocadas perto de mim, eu via não os meus pais, mas outras coisas. Seres que até hoje me dão arrepios. Não sei o que são, mas alguma coisa me diz que sabem muito bem o que sou.

#####

Quanto aos instrumentos que herdei, não era como se meus pais fossem colecionadores. Além de músicos, tinham uma loja de instrumentos. Era humilde, mas bem equipada.

Nosso gerente, quando não saía com a banda para ajudar com os equipamentos, passava os finais de semana nos fundos da loja treinando e editando alguns trabalhos autorais. Mas quando meus pais se foram, pedi a ele que me deixasse o espaço para morar.

– Você não vai morar sozinho aqui, vai lá pra casa – insistiu.

Ele era filho do baixista da EVP. Eu o considerava como um irmão mais velho, mas preferi ficar.

– Não vou ter que te chamar de patrão, né?

– Num ferra – respondi.

Ele sorriu dando as costas e saiu pela porta da frente abrindo seu guarda-chuva. –  Vê se come alguma coisa. Tem pizza na geladeira.

– Valeu, babá – respondi, enquanto ele me mostrava o dedo do meio antes de fechar a porta.

Sabia que sempre o teria por perto, somos do mesmo bairro. Mas essa foi a minha primeira noite sozinho.

#####

O silêncio pesava e pressionava meus olhos que ardiam conforme eu tentava conter as lágrimas. Minha infância acabara ali e eu precisava crescer logo. Me permiti uma última ação impulsiva antes de experimentar a maturidade que a vida me forçou. Liguei todos os aparelhos que podia da loja. Microfones, caixas de som, gravadores, guitarras e baixos. Tudo que encontrei ao meu redor.

– Merda de banda! Merda de músicas! Merda!

Eu não sabia tocar nada direito. Tudo que eu fazia era barulho, batendo os pratos da bateria e os teclados. Coloquei a alça de uma guitarra vermelha que não estava a venda e a conectei enquanto aumentava o volume de todos os toca-discos e fitas. Rock, Heavy Metal, Blues, tudo ao mesmo tempo enquanto eu balançava as cordas da guitarra gritando, xingando e amaldiçoando a banda dos meus pais.

Não sei se o descontrole veio da raiva ou do subconsciente que apostava que meus pais apareceriam de novo, mas antes que eu pudesse ver alguma coisa, tudo ficou escuro. A força que a loja estava puxando não foi suficiente com toda a chuva que caia lá fora.

A bagunça deixou apenas um zunido e minha audição me deixava tonto. Encostei a guitarra num canto e andei até os fundos da loja, iluminada apenas pelo clarão repentino dos raios e de alguns adesivos fosforescentes dispostos no chão.

Mais calmo, fui até a cozinha saciar a fome de um dia frio com uma pizza gelada.

#####

Ele sabia que eu pediria pra ficar sozinho. Então colocou meu gravador de brinquedo sobre a caixa de pizza com um bilhete colado dizendo “juvenil”, iluminado pelo brilho forte e desregulado do aparelho.

Mesmo sendo mais velho que eu, sempre me tratou como igual, mas vez ou outra ele fazia questão de mostrar que eu ainda era uma criança.

Arranquei o bilhete e aproveitei a luz do gravador para iluminar o jantar. Devorei a pizza. Embora o único sabor que tenha sentido fosse o da coriza que vinha em cada fungada de choro. Um refrigerante sem gás me ajudava a engolir.

#####

Minhas lágrimas secavam enquanto a energia tentava voltar. Os aparelhos reagiam como se reclamassem da minha bagunça. Joguei os restos de comida na lixeira e apertei o REC do gravador para ativar a luz vermelha do microfone e usá-la como lanterna. Corri para desligar os aparelhos com medo de que funcionassem a todo vapor com o retorno total da energia, causando outra pane elétrica.

A luz da loja era baixa e apenas uma das vitrolas funcionava. “Time” do “Pink Floyd”. A música já era estranha o suficiente, mas a pouca energia fazia o disco tocar num ritmo que oscilava de normal para lento. Um calafrio me petrificou as pernas quando vi a silhueta de cinco homens. Junto a eles, um ruído passeava pelas paredes e lembrava lamento, mas não sabia se isso vinha deles ou dos instrumentos que tentavam funcionar.

Eu estava imóvel, mas logo o pavor me fez ensaiar um grito que foi traduzido em um gemido de dor; como alguém que acabou de acordar e não trouxe o corpo junto do mundo dos sonhos.

Eles usavam terno e chapéu. Não tinham rosto, mas encontrei seus olhos quando o meu susto chamou a atenção deles.

“Me viram”.

Os cinco caminhavam em minha direção. Eles davam passos mancos, sincronizados, mas seus sapatos não tocavam o chão.

A estática aumentava e os aparelhos voltavam a funcionar.

A cada batida da música, a estrutura dos corpos deles oscilava como as ondas do mar num dia de vento forte. E por vezes trocavam de posição um com o outro, chegando até a se misturarem, tornando a cena ainda mais grotesca. A imagem deles estava queimada na minha retina e não havia para onde olhar.

Recuando, derrubei um dos microfones mais caros da loja, que ao cair no chão, provocou uma reação tão grande nos aparelhos que fez os cinco tremularem por um momento até se tornarem um e colocarem os pés no chão. O homem vinha mancando para cima de mim quando a energia da loja voltou trazendo todas as músicas e aparelhos de volta à cena. O retorno provocado pelos microfones junto das canções era enorme e levei as mãos aos ouvidos, largando o gravador de brinquedo no chão. A fita cassete trabalhava como uma turbina de avião e todo o peso do homem se esvaía enquanto ele flutuava sendo sugado pela luz vermelha do microfone.

#####

A partir desse dia, passei a ser tratado com o que chamam de “melofobia”, ou medo de música. Mas não é tão simples assim, principalmente quando se descobre o que acontece ao ouvir uma daquelas fitas como as do meu gravador.

1x1.trans - Conto | Subliminal

Leonardo Santhos

Nascido em 1985 no R’lyeh de Janeiro, teve sua mente alimentada por todo tipo de material fantástico, de quadrinhos e filmes de terror, até jogos de videogame e longos finais de semana jogando RPG com os amigos. Trabalha com dublagem, tradução, localização de games e escreve contos de horror. Aprendeu a ser invisível no teatro e no Ninjutsu, mas não consegue se esconder dos seus próprios pesadelos.
1x1.trans - Conto | Subliminal

Últimos posts por Leonardo Santhos (exibir todos)

Comentários

comentários

Deixe seu comentário. É importante para nós! ;)