Conto | Alunos de ouro não fazem perguntas9 min de leitura

O chaveiro já estava empenado de tanto arranhar o muro do colégio. Prefiro descontar meu ódio em algo que não possa se defender do que em gente com poder de ferrar meu futuro. A diretora, por exemplo. Cem quilos de papada e arrogância, me pôs pra fora porque discuti com a professora de religião. Levítico capítulo não-sei-o-quê-lá versículo não-sei-das-quantas proíbe algumas coisas, mas também proíbe carne de porco, e todo mundo come, mas ninguém enche o saco.

Perguntar não deveria ofender, mas aqui na Unidade de Ensino Woerdenbag Filho é pior do que bater na mãe. Aliás, minha mãe me deve uma carona – e uma surra pela “mais nova do Júnior” – já faz meia-hora, e até agora nada. Não tem ninguém lá dentro, somente o guardinha de braços cruzados, sentado em um banquinho de madeira próximo à porta, esperando o último aluno remelento ir embora. É o que eu imagino, quando escuto o portão interno ser destrancado.

Eu me viro e encontro dois caras enormes com roupas brancas de tecido bem grosso, mangas longas que vão até a barra das mãos e a gola subindo na altura do nariz. Nos olhos, tinham algo como se fossem óculos de mergulhador, cobrindo um brilho escuro – como era mesmo a palavra das aulas de Arte? – ah, fosco. Um brilho fosco dentro daquelas lentes fundas. Eles acenam para o guardinha, que recolhe seu banco e entra pelo portão, sumindo na escuridão dos corredores.

Guardei o chaveiro no bolso, olhando os gigantes no alto dos meus um metro e sessenta. Pensei que fossem uma equipe da limpeza ou responsável pela segurança do colégio. Essas ideias correram rápido demais na minha cabeça, só para me dar conta de que eu não sei o que acontece no colégio depois de tocar o sinal. Todos vão pra casa, mas e aí? Quem fica por lá? O que acontece depois que os portões são fechados de tarde? O que aconteceria se eles ficassem abertos à noite?

Tempo demais para pensar, muito pouco para agir. Os homens abriram as mãos desproporcionais aos corpos já gigantes e agarraram o meu braço. Com muita facilidade, suas mãos cobriram a extensão do cotovelo ao pulso. Eu me debatia de ódio por ser levado contra a vontade para o último lugar da Terra no qual queria estar. De dor, porque os brutamontes torciam meu braço com força, me impedindo de correr ou pedir ajuda. E de medo, muito medo, por confirmar que atrás desse portão não esteja o mesmo colégio que estudo há oito anos.

Paro de me debater e deixo meus pés arrastarem pelo chão, como se eu fosse um cadáver. As luzes estão apagadas e a noite cai lá fora, o que dá a impressão de que as paredes e janelas têm o mesmo brilho fosco dos olhos dos gigantes. E os corredores também. Os degraus das escadas também, cada um está cheio da mesma cor e textura. Subimos até o segundo andar. Os gigantes soltam meu braço já marcado por aqueles dedões com o sangue quase arroxeado nos pulsos. Nós paramos em frente à sala onde estudo. A porta também está escura e brilhante.

Um deles abre a porta com força, posso ver os pisos foscos iluminando os rostos de dezenas de alunos sentados nas carteiras, todos usando a farda do Woerdenbag Filho, de cabeça baixa e as mãos juntas no meio das coxas. Reconheço alguns rostos pelo dia a dia, outros, não imagino de onde saíram. Os alunos da última fileira usam capuzes que não me deixa ver seus rostos. Tudo ali na sala parece o mesmo da tarde anterior, a não ser por uma poltrona no canto direito, parecida com a de um consultório de dentista.

Em poucos minutos, uma senhora magra e de cabelos loiros amarrados passa por mim e pelos gigantes na entrada carregando uma maleta. Ao entrar na sala, ela coloca a bagagem na mesa atrás da lousa. Ela usa a mesma roupa branca de mangas longas e os óculos fundos dos gigantes. Ela se vira para mim com os olhos da mesma cor e iluminação escura e acena para que eu entre e sente. Eu obedeço, massageando os pulsos. Assim que me sento, ela se vira e fala:

“Vocês sabem por que estão aqui?”, sua voz se eleva e toma conta da sala inteira. “Nós tivemos uma mudança de direção esse ano. Desde que o estimado Mito assumiu a instituição, nós tomamos certas… medidas drásticas para a melhor implementação de nossa metodologia.”

A mulher acena para os brutamontes. Eles e agarram uma menina negra sentada a meu lado. O restante da turma ameaça gritar, mas a mulher põe o dedo indicador na frente da boca. Silêncio. Eu não digo nada, apenas reajo me balançando na cadeira, temendo a forma como a agarraram.

A menina morde os lábios para não gritar, caindo num choro terrível, que perturba os alunos, menos aqueles de capuz no fundo da sala. Ela é forçada a se sentar na poltrona, os gigantes amarram seus braços e pernas, colocam também uma tira de couro em seu pescoço. Quase enforcada, ela mistura seu choro com engasgos e falta de ar. A baba escorre com as lágrimas. A professora dá um tapa no rosto da menina, pedindo que ela pare. Pedindo, não. Ordenando. Esses maníacos não sabem pedir nada, apenas dar um monte de ordem sem sentido. E parecem não gostar de perguntas também.

A professora, então, abre a maleta e retira um enorme grampeador enferrujado, como aqueles usados nas reforma de móveis. Segurando o instrumento macabro pela base, a professora encosta o metal nos lábios da menina.

“A educação é libertadora”, sussurra. Em seguida, a mulher aperta o grampeador nos lábios da vítima. Uma, duas, três, quatro vezes. A boca da menina se cobre de grampos enferrujados em formato de arame farpado, sangue fosco brilhante escorre dos ferimentos. Cada aluno do fundo da sala retira o seu capuz e mostra o mesmo resultado: bocas grampeadas com sangue seco pelos buracos. Eu quero correr. Quero vomitar também, mas só consigo pensar em correr. Eu percebo também os olhos. Aqueles garotos não têm apenas a boca, mas também as pálpebras grampeadas na carne, vazando líquido escuro e fosco!

Os outros alunos choram e gemem baixinho, cobrindo o rosto ou mordendo os lábios, segurando uma mão na outra ou balançando as pernas de forma agitada. A professora abaixa os olhos da menina e ameaça o grampeador em uma das suas pálpebras.

Pare!”, eu grito.

“Ora, ora…”, sussurra a professora. “Se não é o pequeno herege. Você tem predileção em questionar a autoridade, não é?”

É difícil pensar em algo inteligente ou uma tirada engraçada para desrespeitar essa mulher. Só consigo sentir dor. Minhas mãos correm pela calça para enxugar as palmas tão suadas e chego nos bolsos, tocando no meu chaveiro torto. Não paro de ver a porta aberta e imaginar uma coisa que sempre desejei nos meus dias de cão.

“Depois que acabarmos com ela, você será o próximo… Tá?”

“Ok!”, respondo.

Eu salto da cadeira para a porta aberta. Os gorilas seguem o meu rastro ouvindo o coro dos alunos gritando, se debatendo nas carteiras, o pessoal de capuz grunhindo com as bocas presas e a professora balançando as mãos como um militar.

Antes de alcançar o final do corredor, um dos homens grandes de branco volta a segurar meu braço. Algo dentro de mim tem o impulso de segurar o chaveiro e acertar com toda minha força na sua mão até o fundo. Ele urra de dor, um barulho que nunca ouvi na vida, capaz de estremecer o forro da construção. Seu sangue escorre pelas minhas mãos – mesma cor e mesmo brilho de tudo que existe no colégio à noite.

Eu vou pulando os degraus, como faço quando termina o último tempo. Os dois gigantes tem força, mas não tem preparo, batem entre si, com o ferido ainda gritando de agonia. Meu peito está queimando pela correria e o ar parece pouco quando alcanço o portão de entrada. Assim que vejo a rua, tropeço com os meus pés esgotados e chego rolando até o meio da rua. Vejo as luzes de um farol se aproximando e parecem que vão me engolir. Fecho os olhos e me cubro no chão, ouvindo uma freada bem na minha frente.

“Júnior? Tá maluco, pirralho!”, berra a motorista com uma voz familiar que aquece meu coração.

“Mãe!”.

Vou me levantando com os joelhos lascados e uma torção nos pulsos. Minha mãe me apoia com cuidado no banco do carona para não forçar a perna, toda melecada de sangue. Ela me avisa que deu a volta no corredor, pois o colégio estava deserto, imaginava ser mais uma peça minha. Eu agarro em seus braços e choro como se tivesse uns anos a menos. Não sei como contar a experiência de hoje pra ela. Nem sei como vou voltar ao colégio amanhã. Tudo parece anormal e fora de lugar, como um versículo.

“Vamos conversar direitinho quando a gente chegar em casa”, minha mãe dá o aviso. “Ah, sua diretora acabou de me ligar, quer que eu dê um pulinho por lá antes do primeiro tempo.”

Meu coração bate tão forte que, se pudesse, sentiria ele pulando com as pontas dos dedos. Mas o que decido tocar é no machucado dos joelhos, e meu coração martela mais ainda. O sangue está fosco. E posso jurar que brilha.

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