Resenha | Dartana3 min de leitura

O novo livro de André Vianco, Dartana (Fábrica 231, 2016), é uma surpresa para seus leitores. Sem dúvida este livro é completamente diferente de tudo que ele já publicou, mas sem deixar de lado sua voz narrativa, que conquistou uma legião de fãs.

Dartana é um planeta mergulhado na sombria ignorância. Seus viventes não conseguem adquirir nenhum conhecimento ou ter pensamentos mais complexos; portas são apenas pedaços de madeira que fecham de maneira rudimentar a entrada de suas casas, animais ficam soltos nos campos sem que haja qualquer tipo de cerca para prendê-los. Ali, ninguém parece capaz de sequer inventar a roda e não há qualquer tecnologia, parece uma vida de homem das cavernas. Como se não bastasse, doenças e a falta de uma agropecuária satisfatória pioram ainda mais as coisas no desolado planeta.

Os únicos seres que parecem possuir algum grau de instrução e transmiti-la são as feiticeiras; mulheres capazes de conversar com os deuses e que não estão totalmente inaptas em fixar conhecimento em suas mentes. A única esperança dos dartanas é que um novo deus está prestes a nascer no Hangar – uma espécie de berço celestial – e que irá marchar para o Combatheon, uma terra de guerra, junto dos seus escolhidos. Quem vence no Combatheon tem a chance de tirar o seu planeta de origem da maldição do conhecimento.

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Logo de cara, as 780 páginas podem assustar até mesmo os mais incautos, mas cada uma delas é uma surpresa à parte, revelando personagens maravilhosos. É impossível não sofrer com as mazelas do povo dartana e vibrar com suas descobertas. Quando Belenus, o novo deus, surge para a marcha, ficamos angustiados esperando pela vitória. E, quando personagens paulistas são apresentados, ficamos ainda mais intrigados querendo saber qual a relação dos planetas Terra e Dartana.

Dessa vez os vampiros, tão presentes na narrativa do André, são deixados de lado. O livro é fantasia pura. Sua habilidade em prender o leitor, colocando-o na pele de cada personagem cria empatia logo nos primeiros capítulos e as descrições e lugares que somos convidados a conhecer nos tiram o fôlego. A todo momento você sente a atmosfera sombria da trama ao seu redor e se pega pensando como seria viver num mundo assim. Em alguns pontos é impossível respirar, e os parágrafos correm na velocidade do nosso desespero, esperando por uma reviravolta milagrosa. O final da história é coerente, embora melancólico.

A história é muito madura, evidenciando mais uma vez a evolução na escrita do Vianco. Mesmo estando prevista uma trilogia, o livro se encerra num ciclo completo e, ainda que fique a curiosidade para os próximos volumes, aguardamos uma continuação com novos desafios e outros personagens, não uma conclusão.

Dartana é um livro que vale a pena ser lido por amantes de fantasia, amantes do sombrio, amantes de universos paralelos, enfim, amantes de livros no geral.

Camila Servello Aguirre

Camila Servello Aguirre

Nasceu no interior de São Paulo e atualmente mora na capital, onde vive dividida entre suas duas maiores vocações: a veterinária e a literária. Embora fique maluca de pedra tentando se desdobrar entre ambas, não trocaria a caneta, muito menos a maloqueira Picanha, sua goldenlícia. Teve seu primeiro livro, “Os Cinco Demônios”, publicado em 2015 e já tem novos projetos em andamento. Atormentada por ideias, se diverte torturando o leitor com histórias cheias de reviravoltas.
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