Conto | O homem, a caverna e o grande truque

Por: Cesar Gaglioni

O viajante já estava caminhando há três dias e três noites. Seus pés doíam, sua cabeça latejava. Sentia fome e acreditava que seria capaz de comer os próprios dedos se não encontrasse alimento nas próximas horas.

A chuva respingava em seu rosto e trazia pelo menos algum alívio no calvário. Precisava de um abrigo para deixar suas coisas e partir para a caça. Encontrou uma caverna. Deparou-se com uma entrada colossal, com metros de altura e largura. Com cautela, adentrou a abertura. Sua tocha iluminava pouco, mas o suficiente para ele ter a certeza de que alguém já havia passado por lá antes.  Poucos metros depois começou a vislumbrar os cadáveres. Os mortos ali jaziam com uma expressão de completo horror em seus rostos. Agonia congelada em uma expressão facial que perduraria pela eternidade.

O homem sentiu medo, muito medo. Sentia seu espírito apodrecer a cada passo que dava. Quando deu meia volta, não conseguia mais enxergar a entrada. O espaço se espremia cada vez mais e era quase como se a Terra estivesse constringindo o seu corpo. Seus pensamentos eram desordenados, sua respiração era pesada, seu coração era cinza e nada além do enxofre sem fim entrava em seus pulmões.

Começou a ver uma luz no fim do túnel, alaranjada. Conseguia escutar lamúrias e gritos de horror que não expressavam nada além da mais pura dor. Do chão, ouvia um grave estrondo, o grito gutural do planeta. O som chamava por ele.

— Quem está ai? — ele perguntou

— V… OCÊ S… ABE ONDE ESTÁ — a voz respondeu — BEM… VINDO… AO…. INFERNO — a entidade saboreava cada palavra

— Eu morri?

E o silêncio desconfortável reinou. Com raiva, ele bradou.

— DEUS ESTÁ COMIGO!

Ouviu um riso ecoar pelas paredes. Uma criatura putrefata se materializou na frente dele, chegou ao pé do ouvido e lhe disse:

— Por muito tempo… disseram que o meu maior truque era fazer todos acreditarem que eu não existia — o monstro deu uma lambida na bochecha do viajante e ele se sentiu horrível — mas… o meu maior truque é ter feito vocês todos acreditarem que existia esperança — e riu.

O viajante sentiu o maior horror de sua vida e caindo de joelhos se juntou à pilha de corpos da caverna.


Card alaranjado com a foto e a mini bio do escritor Cesar Gaglioni. A foto dele está do lado esquerdo, com o nome logo embaixo. Ao lado da foto, do lado direito do card, está escrito a mini bio do escritor.

 

Anúncios

Um comentário em “Conto | O homem, a caverna e o grande truque

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s