Meu sexto sentido sabia que algo estava errado. Olhei em volta rapidamente e, mesmo não notando nada fora do normal, enfiei o relógio e a caneta no bolso e entrei no closet atrás de mim.
A porta do escritório foi aberta com agressividade e prendi a respiração: um homem alto, com uma camisa xadrez vermelha e uma máscara de espantalho entrou rápido. Dei um passo para trás assim que ele avançou, mas o recém-chegado se limitou a deixar o taco de baseball que carregava em cima da mesa e começou a procurar por algo no meio da bagunça.
Olhei em volta e senti como se o cubículo se fechasse em torno de mim. Balancei a camiseta, ficando cada vez mais sem ar. Depois de movimentar vários itens da mesa, o homem balançou a cabeça frustrado e se virou lentamente na direção do closet.
— Você achou o contrato? — Uma voz feminina veio da porta.
— Não. O velho deve ter escondido em algum dos quartos.
A mulher mal entrou, alisou a testa oleosa e esfregou as mãos, tremendo.
— Se a gente não vender essa casa logo, seus irmãos podem ferrar tudo.
O espantalho a encarou por alguns instantes
— Não tinha um relógio aqui? — Ela observou.
— Sei lá! você lembra como meu avô era desconfiado. Deve estar no quarto ou escondido por aí. Aquele relógio dele vale uma nota. Vamos logo ver se o contrato tá lá em cima.
Assim que ele bateu a porta, respirei fundo e baixei a cabeça. Soltei o ar várias vezes e repeti todos os palavrões que lembrei enquanto saia do closet. Minha camiseta já estava grudada no corpo quando caminhei até a saída. Estiquei minha mão para abrir a porta e, antes de tocá-la, ela foi escancarada novamente.
— Quem é você? — Perguntou o espantalho, andando em minha direção, a cabeça curvada — Quem é você, caralho?
Recuei devagar conforme ele avançava até encostar na mesa. Sem saber o que fazer, apoiei as mãos e saí tateando o tampo à esmo. Meus dedos se fecharam em volta do taco de baseball e o apertei. A boca do espantalho se abriu, mas o acertei na cabeça antes que saísse qualquer som.
O corpo dele caiu no chão e fiquei encarando-o sem saber o que fazer quando a campainha tocou. Por impulso, passei por ele, tranquei a porta do escritório e descansei contra a parede. Passei a mão várias vezes no cabelo tentando pensar no que fazer.
Como se fosse para impedir minha mente de funcionar, um barulho de música alta e vozes começou lá fora. Ouvi passos de todos os lados e as paredes começaram a vibrar. Novamente a sensação de que a sala diminuía me atacou o peito e minhas pernas fraquejaram. Ainda haviam alguns corredores me separando da saída daquela casa, mas precisava sair dali o mais rápido possível.
— Amor, tá tudo bem? — A mesma voz feminina de antes. Ela forçou a maçaneta algumas vezes e me afastei da parede — Por quê tá trancado aí? As pessoas já começaram a chegar…
Esquadrinhei o cômodo por um segundo pensando em alguma alternativa, mas não havia; o jeito era sair. Resmunguei qualquer coisa só para disfarçar, vesti a camisa xadrez sobre a minha, cobri minha cabeça com o capuz de espantalho, peguei o taco e sai do escritório sem olhar para trás.
— A gente tem que correr. Essa casa tá cada vez mais cheia.
A mulher pegou minha mão e me puxou escada acima. Alguns corredores depois, paramos em frente à porta de um dos quartos e apertei com mais força a arma, por mais que não quisesse usá-la.
— É agora ou nunca.
Levantei o dedo como se tivesse uma ideia e fiz sinal com a mão para que esperasse e voltei pelo corredor que viemos. Ela estava certa, era agora ou nunca.
Segui andando, o barulho ficando cada vez maior. Um vulto branco passou a minha frente e congelei. Uma enfermeira? Foi muito rápido, mas tive quase certeza do que vi; por mais que achasse o uniforme muito curto.
Apertei o passo e abri a boca ao ver, no andar inferior, a enfermeira pegar uma faca e apontar para a pessoa à sua frente. Vestido, chapéu e cabelos compridos, ambos negros, definitivamente uma bruxa. Elas começaram a rir e voltaram a dançar a música alta, juntamente com todas as outras pessoas ali. Um lobisomem se juntou a elas, a cabeça enorme balançando enquanto se aproximava. A sala estava lotada de todo tipo de criaturas que bebiam, dançavam e sorriam alegremente, totalmente alheias ao que acontecia no andar de cima.
Desci as escadas e passei por eles devagar. Várias criaturas sorriram e acenavam para mim conforme me aproximava da porta. Só mais alguns metros e estaria livre. Parei na soleira, vi duas carteiras que pareciam cheias em uma mesinha, peguei-as e sai para o ar noturno.
Assim que a porta se fechou às minhas costas, o barulho da música diminuiu e minhas costas relaxaram. Larguei o capuz no chão e saí andando pelo bairro silencioso. Noite de Halloween; que noite estranha para trabalhar. Balancei a cabeça e passei as mãos pelos bolsos para conferir as aquisições de hoje: duas carteiras, um relógio e uma caneta chique.
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