Conto | Aversão Profunda4 min de leitura

Rafa não suportaria mais tempo sem comer. A greve de fome precisava acabar e Cris sabia como fazê-la.

“Tudo não passa de um mal-entendido”, pensava Cris, provando o molho picante favorito de Rafa que fizeram questão de servir no casamento. “A comida perfeita para o dia perfeito”, dizia provando com o dedo, sempre que Cris preparava o cozido.

A longa mesa de jantar estava arrumada. Não acendeu velas, pois sabia que Rafa não gostava do cheiro. A luz baixa seria o suficiente para um clima íntimo.

“Senti sua falta enquanto eu cozinhava”, disse Cris servindo-se do cozido.

E Rafa, nada dizia.“Olha, é bom você raspar o prato! Saco vazio não para em pé, e aliás, adivinha o que tem pra sobremesa?”.

E Rafa, nada comia.

Cris tentava interpretar a expressão apática de Rafa, mas não notava qualquer sinal.

“Amor, isso é injusto. Não faz isso comigo.”

E Rafa, nada fazia.

“Já emagreceu tanto. Tudo bem se zangar comigo, mas não pode se prejudicar assim.”

E Rafa, nada.

Pânico e razão trocam olhares.

“Quer saber? Não vou tirar essa mesa até você se alimentar”, disse Cris bebendo da taça de vinho cheia em um só gole.

O silêncio de Rafa era o espelho no teto do motel que nunca foram juntos.

Pânico e razão fornicam.

“Quem mandou não me procurar mais?”, disse Cris jogando a taça de cristal na parede.

Pânico e razão dividem um cigarro.

O ataque destruiu um porta retrato com a primeira foto do casal. “Desculpe, amor. Vou limpar isso.”

Os cacos da ira foram limpos e Cris foi ao banheiro. Cremes e loções foram espalhadas por todo corpo que, após o banho, é coberto apenas por um robe de seda.

“Não precisa comer agora, mas sei de uma coisa que você não resiste”, disse Cris despindo-se, enquanto se dirigia ao quarto à espera de Rafa, que nada fez.


Suor e culpa lhe gelavam a espinha. Cris tremia com o abandono e seus olhos ardiam como se a transpiração formasse uma banheira de cloro. O verão era ignorado.

Adormeceu.

***

Cris abriu um tímido sorriso ao acordar com a voz de Rafa, mas a alegria se esvaiu quando identificou a gravação personalizada da secretária eletrônica no início da chamada.

Era Lu, alertando sobre seu atraso na academia. Cris partiu de casa levando uma pequena mala. Não foi para a academia, mas para a casa de Lu.

***

Uma semana se passa até Cris decidir voltar para casa. “Te entendo, mas você precisa resolver isso.” Foi o conselho de Lu.

Confiante e sem esquecer-se da má alimentação de Rafa, comprou frutas, pães e leite fresco para um reforçado café da manhã de reconciliação.

Cris preparava o café evitando ruídos, não queria estragar a surpresa. Assim que levou a comida para a mesa, viu Rafa no mesmo lugar do jantar anterior. Não estava só. Vermes, larvas e moscas purulentas lhe faziam companhia num banquete de mofo e repulsa.

“Chega!”, gritou Cris, arremessando uma grossa garrafa de leite em Rafa. A nata empelotava o sangue que fugia pela abertura na testa da vítima. Formigas e baratas se afogavam formando um estrogonofe de insetos. Cris sentia o mesmo prazer do dia da traição.

***

Jamais tinha assassinado alguém. Não sabia como esconder um cadáver, mas sabia que o armário do quarto das crianças era grande o suficiente para o corpo desnutrido de Rafa.

“Que nossos filhos sejam saudáveis”, pedia a Deus todas as noites, mas agradeceu ao diabo por não tê-los.

Um armário vazio e a cova de uma piscina inacabada no quintal seriam os ingredientes do funeral.

Após semanas de calor, a noite seria de muita chuva e a natureza faria o sepultamento. Mesmo na cólera, um apreço ainda existia e Cris não podia lhe dar adeus assim. Fechou-se no armário junto a Rafa e com pesar dizia: “Me perdoa”.

A lama preenchia a cova, soterrando o leito de um último abraço; e antes que Cris perdesse a consciência, ouviu uma voz. Em meio a chuva, Rafa dizia: “Não”.

 

Imagem: Mariola Weiss

Leonardo Santhos

Nascido em 1985 no R’lyeh de Janeiro, teve sua mente alimentada por todo tipo de material fantástico, de quadrinhos e filmes de terror, até jogos de videogame e longos finais de semana jogando RPG com os amigos. Trabalha com dublagem, tradução, localização de games e escreve contos de horror. Aprendeu a ser invisível no teatro e no Ninjutsu, mas não consegue se esconder dos seus próprios pesadelos.

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