Conto | Alunos de ouro não fazem perguntas

O chaveiro já estava empenado de tanto arranhar o muro do colégio. Prefiro descontar meu ódio em algo que não possa se defender do que em gente com poder de ferrar meu futuro. A diretora, por exemplo. Cem quilos de papada e arrogância, me pôs pra fora porque discuti com a professora de religião. Levítico capítulo não-sei-o-quê-lá versículo não-sei-das-quantas proíbe algumas coisas, mas também proíbe carne de porco, e todo mundo come, mas ninguém enche o saco. Continuar lendo “Conto | Alunos de ouro não fazem perguntas”

Conto | Você acredita em anjos?

Você consegue abrir os olhos. Seus nervos ópticos interpretam apenas um borrão incompreensível de luzes.

Seus ouvidos também não estão bem apurados, embora consiga ouvir os bipes e um falatório sussurrado tomando o quarto. As narinas sentem o aroma ocre do éter e das bandagens, um pouco de urina e sangue seco. E mais o gosto ferroso na boca, um ardor na bochecha esquerda e a testa. Logo, seu corpo é eletrificado por dores onde não havia nada, a não ser o tempo suspenso nos músculos.

“Oi. O senhor consegue nos ouvir?”

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