Marina andava apressada pela rua enquanto arrumava os sapatos que cismavam em sair dos pés. A meia calça tinha furado bem acima do joelho esquerdo e por isso ela ficava o tempo todo abaixando a saia preta de risca de giz para cobrir o rasgo.
Trazia a bolsa em estilo saco pendurada no ombro com as alças quase sempre escapando, e isso a deixava irritada. Em um braço, carregava uma pasta com o seu currículo, pois não poderia deixá-lo amassar, e na mão, o celular, que não largava por nada.
Ela estava atrasada para a entrevista de emprego que seria o divisor de águas na sua vida. Marina se formou em jornalismo há cinco anos, mas nunca trabalhou na área. Já foi atendente de padaria, recepcionista de consultório dentário, assistente em uma empresa de construção civil e até auxiliar (faz tudo) em um escritório de contabilidade. Hoje, trabalha em uma agência de publicidade praticamente falida no centro da cidade.
No Réveillon, Marina conheceu Alice e Vicente, um casal fofo e interessante que vive na Barra da Tijuca e trabalha no Projac como roteiristas. Os dois pertencem a um mundo totalmente diferente de Marina, que é cria da Zona Norte e nunca foi de frequentar eventos culturais, ir a museus ou peças de teatro. O casal lhe foi apresentado por Laís, sua melhor amiga, e quem a arrastou para passar a virada de ano na Praia de Copacabana, onde Alice e Vicente tinham alugado uma cobertura para assistir à queima de fogos.
Marina sempre foi boa de conversa e tem um conhecimento de história e literatura que torna o seu papo mais do que interessante, envolvente. Estupefatos ao descobrir que ela nunca teve oportunidade de iniciar sua sonhada carreira jornalística, o casal promete falar dela para um amigo, Daniel Castro, redator do Jornal Nacional. Romperam o ano regados a muito champanhe e gargalhadas e, despontado o novo ano, Marina achou que aquele encontro alegre e promissor tinha ficado lá no ano anterior. Porém, no terceiro dia de janeiro recebeu uma ligação de Alice, dizendo que tinha conseguido uma entrevista para ela com o tal redator.
O assistente dele vai lhe enviar uma mensagem com o endereço e horário da reunião. Boa sorte, querida. Vicente e eu estamos torcendo por você!
E lá estava Marina, suando pelas axilas com aquele terninho quente sob o sol escaldante de verão, quase correndo e tropeçando nas pedras soltas do asfalto do seu bairro abandonado na Zona Norte e tentando ignorar o engulho em sua garganta. Aquela era a chance da sua vida. Não podia se atrasar, mas estava.
Subiu as escadas intermináveis da estação de trem, já que o elevador estava quebrado, como sempre. Algo que lhe deixava fula, pois ficava pensando em como uma pessoa deficiente, por exemplo, chegaria até a plataforma. Pode parecer algo banal, mas se incomodava com o fato de aquele equipamento quebrado interferir no direito de ir e vir de outra pessoa.
Seu celular apita e ela o olha sem prestar muita atenção, mais preocupada em descobrir qual era o destino da composição que se aproximava. Clicou um OK a uma questão que nem mesmo leu e finalmente viu que aquele não era o trem em que deveria embarcar. Teria que esperar o próximo. Quando olhou novamente o celular, o Whatsapp havia feito algum tipo de atualização que apagou todo o histórico de mensagens.
Marina arregalou os olhos para a tela e soltou um grunhido estranho, o que fez todos ao seu redor olharem e se afastarem um pouco dela. Não era possível. Apenas conseguia visualizar as mensagens recém-recebidas, cerca de dois minutos atrás. Tudo antes de apertar aquele maldito OK havia sumido. Tudo, inclusive a mensagem do assistente do redator, cujo contato não teve o discernimento de salvar. “Como eu sou BURRA”, pensou.
Sem o histórico de mensagens com as informações enviadas pelo assistente, nunca conseguiria encontrar a sala onde seria a entrevista. Além de dar as coordenadas, ele teve o enorme cuidado de tirar foto de um mapa do estúdio do Projac (B ou C, ela já não lembrava) onde deveria encontrar o redator para que não se perdesse lá dentro. Assim como também enviou a foto da autorização de entrada especial assinada, a qual ela deveria apresentar na portaria para lhe deixarem entrar.
Clicou no ícone da galeria do celular com os dedos trêmulos, ainda nutrindo a esperança das duas imagens terem ficado salvas lá, mas não. Talvez tivesse chegado a fazer o download das imagens, agora não se recordava com clareza. E sem o número do assistente em seus contatos, não poderia nem pedir que ele enviasse novamente.
Pensou até em ligar para Alice e pedir o número do rapaz, mas ela provavelmente não teria, só o do próprio Daniel. É claro que não ligaria direto para ele informando que perdeu o mapa do local, a autorização e que também não chegaria na hora. Que completa irresponsável, nem precisaria mesmo chegar a entrevista para saber que não seria contratada. Isso se ele a recebesse, já que em suas pesquisas descobriu que o homem era um nível além de exigente. A oportunidade estava perdida.
Tudo por culpa do Luiz. Seu ex-namorado a interceptou logo que cruzou o portão de casa, segurando seu braço com força e dizendo que não aceitava aquela indiferença. Ela não atendia suas ligações, não respondia suas mensagens. Marina queria que sua história com Luiz sumisse, assim como o seu histórico de mensagens. Ele a atrasara. O homem sempre se orgulhou de dizer que Marina era dependente dele, do seu dinheiro e das suas migalhas de amor. Em um acesso de lucidez, ela terminou o relacionamento e mandou que Luiz nunca mais a procurasse. Mas é claro que Luiz não aceitaria o término tão fácil assim.
A promessa de um emprego na Globo fez Marina sentir-se viva pela primeira vez desde o dia da separação, pouco antes do Natal. Luiz bem disse que infernizaria sua vida e cumpriu sua palavra. No Réveillon, ela deu a sua primeira risada desde então. Com a ligação de Alice teve um frenesi, uma visão de futuro possível, um futuro que nunca tinha se permitido imaginar enquanto estava com Luiz. Ele a rotulava de incapaz, fraca. Dizia que nunca teria sucesso na profissão que escolhera, pois não tinha desenvoltura.
Voltar para casa sem nem ter tentado chegar na entrevista seria dar a Luiz o gostinho de vitória. Mesmo que ele nem soubesse da existência daquela oportunidade, perdida. Marina ouve uma nova composição se aproximando e olha para a faixa amarela de segurança na frente dos seus pés. Em um ímpeto, ela ultrapassa a faixa e se lança na linha eletrizada. O currículo voa da pasta que Marina carregava e jaz intacto no chão da plataforma.
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