Conto | A melancia e os ovos

Por: Clóvis Nicacio

— Será que o elevador vai demorar? Estou ansiosa para saber se serei guardada num local refrigerado.

— Esperamos que não. Que não demore e que não nos refrigerem. Preferimos ficar em temperatura ambiente.

Ei, o que é isto? Eu sou o narrador e estou aqui. Dona Melancia, podia ter esperado que eu fizesse as apresentações. Não podemos começar pelos diálogos.

— Qual o problema, senhor Narrador? Não estamos no mesmo texto?

O problema é que estamos numa crônica. O fato de ter uma melancia falante não transforma tudo numa fantasia.

— Narrador, não se esqueça de nós. Quatro dúzias de ovos não podem ser desprezadas.

Mais essa. Além da fruta tem ovos falantes. Será que podem ficar calados, só um pouquinho, enquanto faço a introdução?

— Faça, seu chato.

— Concordamos. Chato.

Era uma manhã quente como todas as outras naquele final de verão. O entregador seguiu com o carrinho por todo o corredor que vinha desde o caminhão, até parar defronte à porta dupla. Ergueu os olhos para o visor apenas para ver que o número mostrado indicava um dos últimos andares. Considerando a lentidão do elevador de carga, decidiu deixar o carrinho sozinho, mesmo contendo as duas caixas. Numa delas estava uma enorme melancia e a outra era uma caixa de ovos. Voltou pelo corredor, procurando por água gelada em algum bebedouro.

— Narrador?

O que foi, senhor Ovo? Por que a interrupção?

— Acha que estamos em perigo aqui? Sozinhos, abandonados assim num corredor?

Senhor Ovo, isto não é uma crônica policial e nem uma história de terror. O que pode acontecer?

— Concordo com a preocupação dos ovos. Eu posso ser sequestrada. O senhor mesmo narrou, sou uma enorme melancia e estou madura.

Pronto, agora virou drama psicológico. Posso continuar a narrar meu texto?

— Fazer o quê, né? Mas já aviso, se eu for sequestrada faço o maior escândalo!

O entregador não tinha pressa nenhuma. Havia chegado cedo, com bastante tempo para entregar a carga antes do almoço.

— Narrador?

O que foi agora, senhor Ovo?

— O que é almoço?

Deixa ver se tem alguma coisa aqui no texto. Parece que não. O autor deve ter esquecido esta descrição. Garanto que não é um gênero literário. Eu imagino que seja algum tipo de festa. Justifica uma crônica social.

— Oba, adoramos festas. Outro dia alguns primos nossos foram levados para uma festa, mas não era almoço, acho que se chamava comício.

— E o que aconteceu?

— Não sabemos, dona Melancia. Nunca mais voltaram.

Isto era para ser engraçado? Virou comédia agora?

— Narrador, o senhor está muito obcecado com gêneros literários. Abra a mente. Imagine que estamos numa ficção cientifica. Minhas sementes vão germinar, as ramas vão se espalhar por todo o corredor, vamos dominar o prédio e este almoço vai entrar para a história. Olha que cena linda.

Agora entendi. Vocês são personagens contra o sistema. E eu represento o sistema. Não gosto de distopias. Estou perdendo meu tempo aqui. Podem ficar com a história toda. Vou procurar outro texto para narrar. Adeus.

— Ei, não nos deixe completamente sozinhos. Dona Melancia pode ser sequestrada!

— Pode deixar, senhor Ovo. O nervosinho desapareceu.

— E agora, o que faremos?

— Veja, o elevador está chegando. E já posso ver o entregador de volta. Logo saberemos o que é almoço.

— Dona Melancia?

— O que foi?

— Nosso texto acabou.

— O meu também.


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