A chuva se intensificou ao seu redor. Gotas gordas batiam sobre o seu enorme guarda-chuva vermelho enquanto o vento teimava em querer fazê-lo voar para longe. Lisa segurava forte enquanto seu cabelo, embora preso em dois rabos de cavalo laterais, batia desgrenhado em seu rosto. A sua tentativa de manter-se seca parece ter-se tornado inútil, já que o vento possibilitava às gotas de a encontrarem mesmo com um gigantesco guarda-chuva sobre sua cabeça.Mas era uma questão de honra para a garota manter-se firme. Ela não seria vencida pela chuva.

Lisa tinha apenas 12 anos, mas já sabia o que queria na vida. Ou melhor, o que não queria. Ela não queria ser como seus pais, não queria ser como seus irmãos, não queria ser como seus professores e não queria ser como nenhuma outra pessoa daquela cidade onde nascera e vivia. Lisa queria ser livre. Queria conhecer o mundo e descobrir que ele poderia oferecer muito mais do que falavam a ela. A sua vã tentativa de domar seu guarda-chuva provinha da frustração de não poder controlar a sua própria vida.

Enquanto pensava sobre tudo isso, uma intensa e repentina rajada a pegou indefesa e ela não conseguiu resistir. Seu guarda-chuva foi finalmente arrancado de suas mãos, mas ela não seria tão facilmente derrotada. Completamente molhada, Lisa correu entre as gotas de chuva e a imensas poças de água no chão atrás do que era seu, até se deparar com a entrada de um túnel escuro. O guarda-chuva entrara ali, ela podia ouvi-lo batendo na parede, mas mesmo assim hesitou. A garota não conseguia ver o que tinha dentro do túnel ou o que estava além dele. Ela se sentia dividida entre a vergonha de desistir e o medo do que poderia encontrar ali.

A água da chuva agora escorria pela rua e também pelas pernas de Lisa. Seu corpo molhado e no momento parado tremia de frio. Ela precisava decidir logo o que iria fazer. E decidiu. Ela não perderia tão facilmente assim. Após se decidir, Lisa esperou mais um minuto para juntar fôlego e coragem. Só mais um minuto e eu entro, pensou. Mais um minuto. As mãos tremendo, mas não mais de frio. Mais um minuto. E foi. Sem mais pensar. Correu com toda a energia que tinha acumulado na porta do túnel em busca de seu enorme guarda-chuva vermelho perdido.

Enquanto corria, sentiu seu medo esvaindo, esvaindo, esvaindo… E em seu lugar uma alegria sem sentido, uma empolgação por estar ali correndo sem saber para onde. Seus lábios se abriram num sorriso, sua barriga começou a formigar de expectativa e uma gargalhada gostosa escapou de sua boca. E ela continuou correndo. Precisava correr para compensar aquele tempo perdido na entrada do túnel.

Logo viu um pontinho branco de luz bem no meio daquele escuro todo que a envolvia. E então não era só um pontinho branco, mas vários pontinhos coloridos de luz. Quanto mais corria, mais pontinhos coloridos apareciam. Eles começaram a se aproximar e Lisa pensou que poderia tocá-los se quisesse. Eles a envolveram e ela percebeu que continuava a correr, mas a correr no vazio. Seus pés não tocavam mais o chão. Ela tentou parar, mas não conseguiu. Em vez disso, deu um enorme salto no nada. Lisa fechou os olhos e esperou, o coração palpitando.

Não sentiu impacto ou dor ou coisa alguma. Por vários minutos (ela imaginou que tenham sido apenas minutos) Lisa ficou de olhos fechados, as mãos tensas sobre o peito, apenas esperando. E então ouviu música.

Lisa rapidamente abriu os olhos. As luzes coloridas continuavam ali, porém maiores, tão altas, tão longe, e ainda assim tão presentes. A música que ouvia parecia vir delas. Por causa das luzes, não sabia se era noite ou dia. A única coisa que sabia é que não mais chovia e que também não estava mais na cidade onde crescera.

Olhou em volta curiosa. Era estranho que não sentisse medo, apenas uma vontade crescente em descobrir e explorar esse lugar onde viera parar. A saída do túnel se encontrava com o começo de uma ponte velha de madeira. Apesar de velha, ela parecia ser bem forte, pois pesadas estátuas de mármore foram colocadas em vários pontos ao longo dela. As estátuas pareciam ser de animais desconhecidos para Lisa, todos com adornos coloridos enfeitando seus pescoços. O rio que corria embaixo era rosa. Pequenos barcos com apenas duas pessoas vestidas de preto em cada um navegavam por ele. O que existia depois da ponte, Lisa não conseguia ver.

– Hey, isso é seu?

Lisa virou o rosto assustada. Sentada sobre o corrimão da ponte estava uma garota magra e alta. Sua cabeça era comprida e fina, o rosto completamente branco e os olhos negros, vazios e sem vida. O cabelo longo e ruivo caia por sobre os ombros, contrastando fortemente com o seu tom de pele. Ela estendeu a mão longa e fina para Lisa, segurando o grande guarda-chuva vermelho, que não mais parecia ser tão grande nas mãos da garota ruiva. Lisa havia se esquecido completamente do guarda-chuva.

Sem conseguir falar, a garota apenas balançou a cabeça.

– Você não é daqui, é? Vem, posso te mostrar.

Os olhos de Lisa brilharam. Ela não tinha medo. Era por aquilo que esperara na verdade, não era? Conhecer o desconhecido. Ela pensou em olhar para trás, talvez com a intenção de que ver o túnel pudesse fazê-la mudar de ideia, mas decidiu que era melhor não. Ela queria estar ali. E sorriu para a menina ruiva, que retribuiu o gesto, seu sorriso sincero mais vivo que o resto de seu rosto.

E Lisa seguiu em frente, pronta para a sua primeira aventura.

Por: Adele Lazarin