Conto | Transformação

Carlos não tinha medo do escuro. Era na luz que os perigos se mostravam.

A escola com suas regras, explícitas ou não, sempre o apavorava. As pessoas nas ruas que o julgavam e olhavam com desdém, eram monstros atormentando seus sonhos. A família cheia de preconceitos era o seu principal algoz. Carlos temia sair às ruas, temia se mostrar como realmente era. Aquela sociedade, dita normal, não era o seu lugar. Somente na escuridão ele estaria seguro. Continuar lendo “Conto | Transformação”

Conto | Contrato

Moscas zunem, em seus voos acrobáticos, próximo do rosto de Oliver, atrapalhando seu breve momento de êxtase. A faca, que antes achava tão pesada, estava firme em sua mão e ansiosa para sentir mais carne cedendo ao seu fio. Ele ainda não havia entendido como obtivera aquela arma, que instantes atrás não passava de um smartfone; por instinto ele compreendia que tudo à sua frente agora poderia ser moldado ao seu bel prazer. Um carro passa pela rua principal e preenche o beco com a luz amarelada do farol e o som metálico de seu motor. O rapaz está pálido, mas junto à palidez sangue escorre pelo rosto. Continuar lendo “Conto | Contrato”

Conto | Aversão Profunda

Rafa não suportaria mais tempo sem comer. A greve de fome precisava acabar e Cris sabia como fazê-la.

“Tudo não passa de um mal-entendido”, pensava Cris, provando o molho picante favorito de Rafa que fizeram questão de servir no casamento. “A comida perfeita para o dia perfeito”, dizia provando com o dedo, sempre que Cris preparava o cozido.

A longa mesa de jantar estava arrumada. Não acendeu velas, pois sabia que Rafa não gostava do cheiro. A luz baixa seria o suficiente para um clima íntimo.

“Senti sua falta enquanto eu cozinhava”, disse Cris servindo-se do cozido.

E Rafa, nada dizia. Continuar lendo “Conto | Aversão Profunda”

Conto | Descendo

Carlos correu em direção ao elevador, mas não conseguiria chegar antes dele terminar de se fechar. De repente, uma mão vinda de dentro do elevador segurou a porta. Carlos respirou aliviado e entrou.

“Obrigado ”,  disse Carlos com as mãos sobre o peito, tentando recuperar o fôlego.

“De nada ”, disse o senhor que trajava um impecável terno branco e aparentava estar na casa dos sessenta.

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