Conto | O Mar de Prudence

Uma das maiores verdades da vida adulta é o constante desejo da volta à infância. Sinto saudade de quando era criança. De quando era inocente. Conheci tudo aos nove anos de idade. Eu e meus pais íamos com frequência a uma praia a alguns quilômetros de Liverpool. Foi lá que eu conheci Prudence.

Era a menina mais linda que eu já tinha conhecido — e olha que com nove anos de idade nenhum garoto da época sequer pensava em meninas. Continuar lendo “Conto | O Mar de Prudence”

Conto | O Menino no Retrato

O menino ajeitou a câmera atrás de si um pouco mais para a direita, olhou de esguelha, testando a expressão: ainda não. Queria a posição perfeita. O que ele queria demonstrar ainda era um mistério. Pelo menos, era assim que ele preferia pensar.

Tentou por um tempo escrever em um diário como se sentia, mas percebeu que algo ainda estava preso em seu peito. Nem a tinta, nem sua mente ou mesmo sua psicóloga entendiam, de verdade, o que se passava em seu coração. Continuar lendo “Conto | O Menino no Retrato”

Conto | A Morte das Estrelas

Uma estrela se apagou no momento em que o Pai subia no telhado de casa. Com uma coberta de lã no ombro, ele escolhia onde pisar com cuidado, para não quebrar nenhuma telha. Enquanto isso, o Filho subia a escada de mão carregando num dos braços um grosso edredom com tema de flores que pegou no quarto dos pais.

O Pai estendeu a coberta sobre as telhas geladas no outro lado da casa, aquele que dava para os fundos, onde as luzes dos postes na rua não teriam nenhuma chance de atrapalhar a noite deles. Deitou-se e aguardou o filho em silêncio, encarando o zênite celeste com a curiosidade de uma criança. Continuar lendo “Conto | A Morte das Estrelas”

Conto | Asa Branca

Ele não podia ver nada além da secura. O sol do meio-dia fazia com que o suor ensopasse sua roupa, que já grudava em seu corpo como uma segunda pele. No horizonte, ele podia ver a fumaça da queimada. Sentiu uma melancolia dentro de si e seguiu seu caminho. Na estrada, conseguiu ver o corpo do Alazão já cercado de moscas. O gado dava seu último suspiro nesse mundo com olhar pesado.

Andou por mais alguns minutos até o centro da cidadela. O sorriso das pessoas desaparecera há meses, mas ele ainda era capaz de manter a gentileza que dava algum alívio pra vida daquela gente. Entrou na capelinha tirando o chapéu. Com os joelhos fracos e franzinos, colocou-se aos pés do Criador. Continuar lendo “Conto | Asa Branca”

Conto | Happy You

Instalar o Plugin da Felicidade foi a decisão mais difícil que já tomei, e também a mais burra e inconsequente. Mas as consequências dos maiores erros não vêm na forma de uma morte rápida e misericordiosa, não… elas espreitam em silêncio por muito tempo e quando aparecem se mostram opressoras e cruéis. Enquanto assisto impotente a lenta evolução da barra de progresso, alimento a esperança de que não é tarde demais para voltar atrás e salvar o pouco que me resta.

Há dois anos eu tinha tudo e me considerava a pessoa mais sortuda do mundo. Se bem que toda pessoa realmente apaixonada deve se sentir assim… eu tinha o melhor marido e uma vida crescendo dentro de mim. Minha barriga crescera bastante nos últimos sete meses e meu passatempo preferido era passar as tardes ensolaradas no bosque nos fundos de casa, sentada numa cadeira de descanso lendo um romance. Eu lia em voz alta, para mim e para o meu pequeno Guilherme. Quando não estava viajando, meu marido lia para nós três. Era uma coisa especial, uma coisa só nossa. Mas o que é bom demais dura pouco e numa noite chuvosa no auge do inverno eu perdi tudo isso. Continuar lendo “Conto | Happy You”

Conto | Claustrofobia

Ela abriu os olhos, e os fechou imediatamente. Apertou-os bem forte tentando impedir a claridade que entrava pela janela com persiana aberta. Rolou na cama desejando que aquele dia não começasse. Um segundo depois o alarme do celular gritou na mesinha ao lado. Ela escutou por alguns minutos e só então esticou-se para desligar o maldito aparelho. Não adiantava acionar o “soneca”. Continuar lendo “Conto | Claustrofobia”

Conto | A Escolha

O irritante barulho do despertador ecoou pelo quarto até João conseguir acertar o botão de soneca. Aproveitou que sua esposa já tinha saído para o trabalho e se espalhou na cama. A briga com o despertador se repetiu por mais quatro vezes, até João se dar por vencido e decidir levantar. Apesar da preguiça instalada em seu corpo, ele descansou de uma maneira que não conseguira nos últimos meses. A sensação de deixar toda a confusão dos últimos meses para trás era de ter tido um peso removido de seus ombros. Caminhou até o banheiro e deixou a água quente do chuveiro cobrir o seu corpo. Continuar lendo “Conto | A Escolha”

Conto | As Crianças Que Sabiam Voar

Nos fins de tarde, Hans sentava num banco desconfortável que ficava à sombra de uma castanheira na frente de casa, e esperava o ônibus que traria o filho da escola. Como sempre fazia, sentou-se ali meia hora antes e acendeu um cigarro.

Enquanto tragava, o vento gelado castigava seu rosto. Ele apreciava esses momentos em que podia ouvir os pássaros e o balançar dos galhos das árvores. Essa meia hora diária era a parte mais verdadeira do seu dia. Em breve o ônibus chegaria e ele teria de voltar ao seu papel. Continuar lendo “Conto | As Crianças Que Sabiam Voar”