Conto | A Longa Caminhada

Os pés doíam e rachavam, mas elas não parariam. Estavam na estrada há horas. Quantas? Oito, dez, talvez mais. O tempo já não era importante ali. Assim como não importava a dor e o frio que sentiam. Tampouco o medo que outrora as paralisava. Nada mais importava, apenas a caminhada.

Míriam arrastou-se como podia atrás da longa fila de mulheres desesperadas e famintas, apertou o casaco contra o corpo e tentou enxergar o horizonte. Seus olhos só viram escuridão. E ao longe, onde poderia ser finalmente a fronteira, pequenas rajadas de luz aqui e ali. Talvez fossem tiros, se estivem perto o suficiente para vê-los.

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Conto | Martha, My Dear

Arthur procurava por Martha. Enquanto os ônibus chegavam e partiam, só os álbuns dos Beatles o acompanhavam. Ela havia ligado pedindo que ele a encontrasse no ponto. Esses pequenos encontros no meio da semana ajudavam a driblar a solidão de um namoro que já andava cambaleante. Ele já havia terminado relacionamentos antes, afinal amores vem e vão, mas nunca havia sentido todo o resto acabar e só o amor sobrar.

Foi na primeira música de “Please, Please me” que a avistou. Arthur caminhou rumo a porta do ônibus, se inclinou buscando um selinho e encontrou uma bochecha. Era só o cansaço, ele pensava.

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Artigo | Por que os brasileiros leem poucos livros?

Apesar de recorrente em qualquer debate sobre literatura, a máxima de que o brasileiro lê pouco não é inteiramente verdadeira. Com a internet e as redes sociais, o que mais vemos são pessoas consumindo informação escrita. Seja através de mensagens curtas, passando pelos “textões” de Facebook até chegarmos ao conteúdo jornalístico impresso e digital, vemos muitos leitores em ação.

Todavia, no que diz respeito a livros, o Brasil realmente sofre com um número de leitores abaixo do desejável para um país que busca se desenvolver. Segundo ranking elaborado pela agência Nop World, ocupamos a 27ª posição entre trinta países quando o assunto são horas semanais dedicadas à leitura. Paralelamente, figuramos no Top 10 no que diz respeito à televisão, rádio e internet.

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Conto | Gritos

Estou de cama há mais de um mês. Um acidente no trabalho. Passo o tempo todo aqui. Minha esposa vai trabalhar e só me resta ficar em casa sem muito o que fazer.

Coisas ruins acontecem todos os dias. Mas hoje é diferente. Logo começo a ouvir os gritos em um prédio não tão próximo. O desespero. Sinto cheiro de fumaça e o pânico se espalha rapidamente. Aquelas pessoas estão correndo. Consigo ver que o fogo está se espalhando logo e não demora para que algumas pessoas comecem a pular lá de cima. Sons ocos caindo no chão e berros daqueles que assistem o espetáculo mórbido.

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Resenha | Como Melhorar um Texto Literário

Os livros da série “Guias do Escritor” (editora Gutenberg) têm se mostrado uma surpresa à parte. Já apresentamos aqui três volumes da série: “Os Segredos da Criatividade”, “Como Narrar uma História” e “Como Escrever Diálogos”. Agora é hora de trazer a resenha do livro “Como Melhorar um Texto Literário”, dos autores Lola Sabarich e Felipe Dintel.

A linguagem leve, capítulos bem escritos e explicativos, e a leitura fluida tão presente nos volumes anteriores se repete, mostrando que são tópicos obrigatórios nos livros da série. Tudo isso contribui para que o livro fique com aquela cara de manual para ser consultado sempre que houver necessidade.

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Conto | Noiva Insana

As pálpebras foram as primeiras partes que ela arrancou. Não houve dor, eu estava sedado. Tudo voltou num borrão e as engrenagens dentro da minha cabeça ora rodavam demais, ora de menos. Eu me esforçava para piscar e poder limpar a visão, mas não havia membrana alguma que cobrisse meus olhos.Uma gota gelada em cada olho e tudo pareceu melhorar. Pude me ver enfim, estirado na cama, como da última vez, nu, refletido no imenso espelho instalado no teto, com uma estrutura presa à cabeceira da mesa. Não sabia o que era, mas não estava ali quando apaguei.

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Resenha | Como Encontrar Seu Estilo de Escrever

Da série Livros para Escritores

Todo escritor quer ser lido. No entanto, mais do que levar a nossa obra até os leitores, também queremos ser reconhecidos pelo que colocamos no papel. Encontrar a nossa voz é quase a procura pelo Graal e o motivo para buscar nossa evolução. Ao rascunhar as primeiras palavras e ideias, ainda naqueles rabiscos iniciais, quando começamos a brincar de escrever, é natural que imitemos nossos autores preferidos. Com o tempo, vamos percebendo a necessidade de deixar o texto com um toque pessoal, como uma assinatura. Foi com o intuito de melhorar minha escrita e encontrar a minha voz que me engajei na leitura do livro do Francisco CastroComo encontrar seu Estilo de escrever.

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Conto | Maldita Noite de Oktoberfest

DESABAFO – 10 de Julho de 2015

Recusaram outro conto meu. Já faz dois anos que escrevo e ainda não tenho um conto sequer selecionado para uma antologia. Talvez seja a minha insistência em escrever contos de terror. Já me disseram que tenho uma mania de inventar moda e tentar inovar demais. Quer saber? Que se fodam as antologias, e que se foda o que os outros pensam.

FIM – 11 de Julho de 2015

Este é provavelmente meu último post. Escrever talvez não seja para mim, e o meu ego já não suporta mais os golpes cruéis e desproporcionados da crítica, sempre dura e às vezes injusta. Assim sendo, não espere por novidades tão cedo.

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Entrevista | Dame Blanche

Ser escritor no Brasil não é fácil. Ser editor, menos ainda. Mesmo assim, trabalhar em uma editora é um dos trabalhos mais almejados por milhares de leitores espalhados pelo país. Afinal, nada melhor do que unir paixão e emprego dos sonhos, não é mesmo? Considerando a crise em que o mercado editorial está inserido hoje, muitos empreendedores enxergam o momento como uma oportunidade de começar algo novo e abrir a própria editora independente.

Foi o caso da Dame Blanche, editora fundada por Anna Fagundes Martino* e Clara Madrigano, com o apoio do fofíssimo mascote River (conhecido também como o cachorro estagiário responsável por comer manuscritos e aquecer os pés das pessoas em dias frios). A Dame Blanche nasceu do mesmo amor que une todos nós do Conte Histórias: a literatura. Antes de editoras dedicadas, Anna e Clara são leitoras, e sabem muito bem o que desejam encontrar nas estantes das livrarias (virtuais e físicas).

Com dois livros já lançados, as duas empreendedoras agora se preparam para trazer novidades ao mercado literário, não se esquecendo nunca do quão importante é o papel do leitor nesse processo. Leia abaixo nossa entrevista com Anna e Clara, onde elas falam sobre a Dame Blanche, o mercado nacional, os desafios de uma editora independente e o que elas esperam do futuro.

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Resenha | Daytripper

Dificilmente você encontrará algo que trate de uma maneira tão sutil e bela temas como vida/morte quanto Daytripper (publicado pela Panini), dos brasileiros e irmãos gêmeos: Fábio Moon e Gabriel Bá.

Brás de Oliveira Domingos é o narrador-personagem que nos leva através de várias linhas temporais diferentes, construindo capítulos com trajetórias e finais recheados de questionamentos. Além disso, como o próprio nome do personagem alude, há uma clara referência ao romance de Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. O diálogo entre as duas obras funciona como atualização dos temas, todavia, há uma leve diferença na abordagem, o que traz novos ares para as discussões.

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