Poema | Garota Reinventada

Ela caminha pelas ruas da Zona Sul, o vento alvoroçando os cabelos curtos, a saia tremulando ao seu redor e a mala de rodinhas batendo no chão de pedras portuguesas.

A cabeça sempre baixa, encarando os próprios sapatos. Atenção nos buracos. Mas quando levanta o olhar, o preto reluz ao ver o mar. E ela baila pelas ruas arborizadas feito uma pluma no ar salgado.

De vez em quando lembra a si mesma de olhar pra frente, com ares de quem quer capturar as imagens e guardar pra sempre em seu cérebro a bela arquitetura e decoração.

Ela é uma peça bruta num castelo de cristal. Se admira de todos os movimentos, o vai e vem dos pedestres, hóspedes, cachorrinhos…  É um mundo tão diferente do seu, mas ela aos poucos vai se chegando, conquistando o seu espaço, levantando os olhos e voltando a face ao céu.

Como chuva de verão, ela chega com um aroma de novidades. Ela é tão inteira que não cabe em qualquer metade. Ela transborda. Extravasa. Ela é só uma garota comum que reinventou a sua realidade.

Prosa poética | Habitat natural

Cada um habita o espaço que lhe convém.
Alguns habitam uma casa, um emprego, uma ideia.
Outros moram na vaidade, ególatras que são.
Hoje eu moro no vazio.
Habito o nada.

Já fui desses que tem uma razão, um motivo, um porquê.
Já vivi na certeza, já fui inteiro.
Agora trago comigo o oco, o vago, a lacuna, o hiato.
Hoje eu moro no vazio.
Simplesmente não pertenço.

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Poema | Manhã cinzenta

Mesmo depois do final fatídico e aguardado
Restaram tantas lágrimas
Eles vagaram como família
Buscaram por sua nova casa

Não precisa correr
Para curar aquela dor
Apenas acene adeus
A escuridão já passou

Quando ela voltar,
Temos esse fósforo
Segure com sua mão

Deixe que essa chama derreta
O gelo em seus olhos
Quando flamejar, esquentará seu coração.

Tantos inacreditáveis acontecimentos
Puderam ouvir trepidar no fogo
E no farfalhar das folhas de orvalho
Mesmo depois de tantos anos

As memórias se transformaram em histórias
Os gritos em música
A dança em força
Deve fazer parte de seu encanto

Mas, ainda naqueles dias, lembraram-se todos:
“O amanhã já está chegando, mamãe.”
Disse a menininha daquele povo