Conto | Maldita Noite de Oktoberfest

DESABAFO – 10 de Julho de 2015

Recusaram outro conto meu. Já faz dois anos que escrevo e ainda não tenho um conto sequer selecionado para uma antologia. Talvez seja a minha insistência em escrever contos de terror. Já me disseram que tenho uma mania de inventar moda e tentar inovar demais. Quer saber? Que se fodam as antologias, e que se foda o que os outros pensam.

FIM – 11 de Julho de 2015

Este é provavelmente meu último post. Escrever talvez não seja para mim, e o meu ego já não suporta mais os golpes cruéis e desproporcionados da crítica, sempre dura e às vezes injusta. Assim sendo, não espere por novidades tão cedo.

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Conto | Um Levante na Noite

Havia uma goteira no abrigo. Uma goteira insistente que, mesmo após a tempestade ter se dissipado, persistia. Itta contava as gotas que caíam e agradecia internamente por aquela ser a única goteira. Nas últimas chuvas, o teto quase cedera e tiveram que passar muito tempo substituindo a madeira velha, que cobria o local abafado sem janelas e com portas reforçadas. Seu abrigo e prisão nos últimos três anos.

Ela rolou no chão de terra batida, procurando uma posição menos desconfortável. O dia fora longo. Os capatazes os fizeram trabalhar além do horário, pareciam ter pressa em extrair os minérios. Muita pressa.

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Conto | Dia de Carnaval

A rua se encheu de confete e serpentina. As fantasias brilhavam à luz do sol enquanto os foliões riam, dançavam e cantavam ao som das marchinhas de carnaval. O calor de fevereiro subiu do asfalto e invadiu os corpos pintados e suados no meio de Ipanema. A praia, ao fundo, abriu alas para os mascarados que desejavam recuperar as energias junto às ondas do mar.

Era mais um dia de festa no Rio de Janeiro.

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Conto | Liberdade

O vento carregou Laila para longe do penhasco, em direção ao abismo. Sem amarras ou segurança, ela se deixou levar pelo impulso, mergulhando de cabeça e abrindo os braços, pronta para abraçar o mundo. A barriga começou a formigar, e, logo, esse estranhamento se transformou em cócegas. Partindo do umbigo, o sentimento de liberdade se expandiu por todo o corpo até explodir em uma risada.

E, então, ela abriu os olhos.

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Conto | Aqui Jaz um Homem Nu

Luiza atravessou uma fronteira e, como consequência, chorou muito. Acostumada ao silêncio líquido, sua percepção do mundo e de si mesma a satisfazia. Alçada aos céus pelos pés – a luminosidade pontiaguda e o ar escorregadio revezavam na tarefa de desorientá-la –, não tardou até que fosse envolta em algo, em alguém. Lutando para voltar, porque ali não era seu lugar, ela experimentou medo e dor. A desconstrução demandou uma nova composição, assim como uma pausa – na música, na vida, no tempo – invoca um novo som. Foi a primeira vez que ela aprendeu a nascer. Mas há muito ela vivia. Continuar lendo “Conto | Aqui Jaz um Homem Nu”

Conto | O Mar de Prudence

Uma das maiores verdades da vida adulta é o constante desejo da volta à infância. Sinto saudade de quando era criança. De quando era inocente. Conheci tudo aos nove anos de idade. Eu e meus pais íamos com frequência a uma praia a alguns quilômetros de Liverpool. Foi lá que eu conheci Prudence.

Era a menina mais linda que eu já tinha conhecido — e olha que com nove anos de idade nenhum garoto da época sequer pensava em meninas. Continuar lendo “Conto | O Mar de Prudence”

Conto | Levon, a criança do Natal

Levon olhava para o relógio ansiosamente toda vez que a imagem da cabine de transmissão desaparecia da tela. Eram 22 horas da véspera de Natal e ele só conseguia pensar sobre o quanto queria estar em casa ao lado de sua esposa e filho. Detestava a ironia de que para dar uma vida mais confortável e melhor para eles, tinha que ficar longe pelo maior tempo possível. O mês de dezembro havia sido muito desgastante, mas isso era só uma impressão causada pelo ano inteiramente cansativo.

Ao fim da transmissão, Levon removeu seu equipamento, pegou as chaves do carro, desejou um feliz Natal para todos que, assim como ele, estavam longe de suas famílias trabalhando. Entre abraços e desejos de feliz Natal e aniversário, Levon se sentia mal por estar com tanta pressa e não ter mais tempo para dar atenção àqueles que considerava sua segunda família.  Continuar lendo “Conto | Levon, a criança do Natal”

Conto | Meu pesadelo de Natal

Tive minha primeira decepção com o Natal aos oito anos.

Fazia muito calor, como sempre faz nessa época do ano. Entediado, me larguei no chão da cozinha e fiquei deitado no piso gelado. Sem força para sequer levantar o braço e enxugar a testa, continuei sofrendo imóvel com o suor escorrendo pelo meu rosto.

Ouvi a chave girar na fechadura da porta da sala e o salto alto da minha mãe entrar correndo em casa. Em poucos segundos, vi dois pés calçando sapatos vermelhos aparecerem em meu campo de visão limitado, pararem por um momento e sumirem de novo. Então senti um cutucão forte nas costas e resmunguei baixinho em protesto. Continuar lendo “Conto | Meu pesadelo de Natal”

Conto | Mas é pavê ou pá…

Precisei abrir o primeiro botão da calça. Naquele ritmo, terminaria a noite mais obeso do que o leitão que devoramos. Largado para trás, começava a achar a cadeira o local mais confortável do mundo. O calor, tão comum em dezembro, era ainda pior com o estômago cheio. Meus movimentos eram letárgicos e suor escorria em grossas gotas. Seria culpa do vinho ou daquela lerdeza após uma refeição farta?

Não dispensava atenção a mais nada. Não que não quisesse, mas era simplesmente impossível. Estava curtindo aquele momento único de contemplação, perdido em pensamentos, sentido a barriga cheia e hipnotizado pelas luzes que piscavam coloridas do lado de fora da janela. Não dava para responder à tia que perguntava sobre “as namoradinhas”, ou ao pai pedindo que fosse buscar mais uma cerveja, nem ajudar a avó que trazia mais uma pesada travessa de alguma guloseima. Pelo amor de Deus, não cabe mais nada aqui dentro! Dava tapinhas pouco acima do umbigo esperando que houvesse algum alívio. Os primos menores, correndo e gritando pela casa, me perguntavam alguma coisa com insistência. Eles, eu fazia questão de ignorar. Continuar lendo “Conto | Mas é pavê ou pá…”

Conto | O que o Natal pode trazer

Houve um tempo em que as festas de Natal eram cheias de luz. As pessoas se reuniam em volta de grandes mesas cobertas com toalhas brancas e comida abundante. Todos riam, contavam historias e trocavam presentes. Mas esse tempo ficou para trás.

Nos natais da vida, Mariland não ganhava presentes. Não comia nada diferente; era sempre a mesma proteína de soja ou sopas enlatadas, como em qualquer outro dia. Entretanto a garota tinha algo raro nos dias atuais: ela tinha esperança. Mesmo quando os agentes do governo invadiam o assentamento e levavam os homens ainda saudáveis, mesmo quando o frio era intenso demais e todos eram obrigados a se amontoarem para compartilhar um pouco de calor corporal, mesmo quando a energia, racionada, era totalmente cortada e eles ficavam no escuro. Ainda assim, ela era capaz de sorrir e se encantar. Continuar lendo “Conto | O que o Natal pode trazer”