Happy You, o plugin da felicidade! Laura estava estupefata. Quem leva um slogan desses a sério? Ela estava prestes a fechar a interface holográfica quando os reviews do plugin pipocaram no seu canto de visão. Quatro estrelas e meia, era bastante coisa.
Laura resolveu explorar os reviews com nota um. Além de proporcionar algumas risadas, esse tipo de review já a tinha salvo de alguns perrengues nos últimos tempos. E ela estava precisando de risadas.
“Fudeu com a minha cabeça!”, dizia um deles. Outro era um pouco mais filosófico: “Até que é bom, mas é só quando a gente perde algo importante que percebe o quanto perdeu. Não recomendo.” O terceiro também não era muito encorajador: “Foi bom enquanto durou. A experiência é ótima. Mas tive dificuldade de instalar. O suporte é uma piada.”
O embrulho no estômago voltou com tudo e as mãos dela tremiam. Não tinha nada de engraçado naqueles relatos. Fechou a loja de plugins com uma piscada longa e arrastou os pés até a cozinha. Precisava de um café.
Sentada numa cadeira, observou ausente o cair constante da chuva lá fora. Enquanto fervia a água num velho fogão de indução, riu baixinho e chorou da própria ingenuidade. Ela bem sabia que esses plugins não são bala de prata. O que estava pensando?
E então a sua atenção foi outra vez sequestrada pelo irritante alerta do governo. Já fazia três dias que este alerta estatal a atormentava como uma mosca que fica zanzando no canto do seu campo de visão. Ele tomava a forma de um retângulo de tom alaranjado berrante que piscava monótono como a pontualidade do ponteiro dos segundos de um relógio brega.
“CIDADÃO EM DESARMONIA MÉDIA: 4 DIAS PARA CORRIGIR”.
Quatro dias para se colocar na linha. O que raios podia fazer para equilibrar o emocional em apenas quatro dias ela não fazia ideia. Se falhasse nessa “autocorreção”, teria o mesmo destino do vizinho do apartamento de cima no mês passado. Ela não sabia os detalhes, mas coisa boa não era. Ele sumiu. Simples assim.
A água chegou ao ponto com um borbulhar levemente calmante. Enquanto caminhava até o fogão, cruzou com o olhar o canto proibido da lavação anexa à cozinha. O vazio daquele cantinho a esvaziou devagar, como se carregado pelo ar que respirava e impulsionado pela lembrança do que não estava mais lá. O tapete colorido que tinha jogado fora. Os pesados potes de ração e água que nunca mais seriam enchidos. O saco de ração que tinha jogado no lixo, ainda cheio. Memórias que tentara jogar num canto e esquecer, como um casaco velho e molhado, sem valor.
Uma ligação interrompeu o choro silencioso da moça. Era a irmã. Quem sabe conversar com alguém ajudasse a elevar o estado de espírito cambaleante dos últimos dias, pensou. Atendeu do jeito que pôde, desajeitada, ainda atrapalhada com o plugin de ligação. Laura nunca escondeu sua preferência pelo clássico, e nessas horas, o velho smartphone fazia falta. Era antiquado, como ela, e ainda tinha a vantagem de não causar aquela coceira irritante na têmpora. Ela odiava seu implante.
— Alô? Oi! Tudo certo? Sim, estou ótima — mentiu. — O quê? Preparou um álbum… pra mim? Legal — resmungou. — Obrigada. Mas não sei. Tá bem, vou ver. Pode deixar. Tchau.
Talvez a irmã ainda se importasse com ela, afinal. O link do álbum flutuou na frente de Laura por uma eternidade. Ela queria clicar, mas o título era como um muro. Um muro de uma única palavra: Toby.
O mesmo Toby que fora seu melhor amigo. O mesmo Toby que dormia com ela todos os dias e que adorava o sofá da sala tanto quanto ela. O mesmo Toby que morrera a menos de uma semana e levara junto um pedaço dela. A garganta apertou, comprimida pela culpa. Um minuto de descuido e estava feito, perdera o amigo, atropelado num passeio inofensivo.
Olhou em volta. Os quadros, o sofá, a poltrona, Toby estava em todo lugar, cada canto invocando dez anos de memórias felizes dos dois desfrutando da companhia um do outro nesse apartamento velho e antiquado, perfeito para eles.
Enxugou as lágrimas com as mãos, e abriu o álbum, não por causa da irmã, mas por causa do Toby. Ele merecia ser lembrado.
O álbum era enorme, com centenas de fotos e vídeos dos três. A maioria tirada pela própria irmã em festas de aniversário e natais passados. Com uma mão sobre a boca ofegante, parou em uma foto particularmente especial em que Toby estava à mesa com elas, comendo seu bolo de aniversário. Estava sentado na ponta com chapéu de aniversariante. Laura segurava uma pata e a irmã a outra. Eles estavam felizes. Era uma foto feliz.
Logo abaixo das fotos, no espaço para propaganda, um palhaço – ela odiava palhaços – chamava atenção para o plugin da felicidade. O sorriso exagerado daquele ser gelou a espinha de Laura. Ela tinha esse asco de palhaços desde sempre, e buscou ignorá-lo o melhor que pôde.
Olhou mais algumas fotos e fechou o álbum. Não aguentava mais. Talvez nunca fosse aguentar. Pegou o café. Estava frio e o gosto era horrível, mas bebeu mesmo assim. Precisava ocupar a mente, fazer algo para se distrair, mas seu corpo tinha a urgência de um réptil gelado. Cada possibilidade que pensava era apenas… desinteressante. Desejou que pudesse fazer algo a respeito, que pudesse afastar a dor. Não queria simplesmente ir dormir e sonhar com o Toby, só para acordar outro dia sem ele.
Paralisada. Ela estava paralisada. Desesperada. Precisava de correção. E sabia a solução.
O plugin. Talvez valesse à pena tentar, apesar da propaganda doente com o palhaço. Na pior das hipóteses, era só questão de desinstalar. Sentou-se à mesa, bebericando o resto do café gelado enquanto encarava nada em particular e fazia uma busca na loja virtual. Foi fácil: o que ela procurava estava na lista de destaques. Selecionou o botão para instalar, e dessa vez não hesitou. Com um clique de concentração, baixou e instalou o maldito plugin.
O processo não levou mais que três segundos, e logo foi apresentada à tela de configuração do Happy You. Podia escolher dentre três níveis de felicidade, o padrão era o nível 1. O padrão estava bom para ela. Logo abaixo, um aviso destacava que alterações na configuração poderiam levar algumas horas para surtir efeito por conta da latência da administração hormonal. Nada que um bom sono não fosse resolver, pensou.
Rolou na cama por três horas, incapaz de pregar os olhos. Levantou e foi lavar o rosto. No reflexo do espelho, notou algo diferente. Nunca gostou do rosto rechonchudo, mas agora ele estava… mais bonito? Não estava mais magro, nem as rugas de expressão na testa tinham sumido, mas de alguma forma, sentia que tinha um rosto bonito, agradável ao olhar. A diferença era sutil, mas o sorriso que viu refletido foi suficiente para que dormisse uma tão desejada boa noite de sono.
Foi arrancada de um sonho por outra ligação. Desta vez era o chefe do trabalho. Eram nove horas da manhã e chovia torrencialmente. Laura estava demitida. A voz áspera do chefe arrancou todo o apreço que tinha nutrido por ele em todos esses anos que dedicou à firma. Essa notícia repentina derrubou um dos últimos pilares da vida moça, que desmoronava em ritmo acelerado. Descartada como um lixo qualquer, por causa de umas poucas faltas no trabalho. Não precisou chorar baixinho, porque não havia ninguém para ouvir.
A cor do alerta mudou do alaranjado brega para o vermelho de desarmonia crítica: restavam dois dias para corrigir. Não eram três? As horas voaram enquanto remoía tudo aquilo num ciclo sem fim de culpa e remorso. O dia inteiro produziu apenas uma xícara de café, que repousava à sua frente na mesa da cozinha.
As luzes do apartamento se apagaram no início da noite, substituídas por pequenos LEDs que manchavam todo o ambiente de um vermelho pálido e marcavam o início do período da reclusão voluntária, imposto pelo governo. As travas das portas e janelas do apartamento foram acionadas automaticamente. Ninguém entrava. Ninguém saía.
Essa mudança no ambiente foi o estímulo que Laura precisava para sair daquele transe auto-infligido. Seu tempo estava acabando. Precisava de correção. Acessando a tela de configuração do Happy You, subiu o nível de felicidade para 2. Não. O plugin já tinha mostrado para que veio. Subiu para o nível 3 e correu até o espelho. Por vários minutos, tremeu agitada, mas não notou mudanças.
O telefone, outra vez. Sem tirar os olhos do espelho, atendeu a irmã. Decerto, ficara sabendo da demissão. Ela tinha um jeito de saber dessas coisas antes de todo mundo. Isso a irritava bastante, mas Laura se ressentia mesmo é pela distância que se criou entre as duas nos últimos meses, e que tinha ajudado a criar.
— Sim, estou bem. É, eu instalei um plugin, sabe, o Happy You. Já ouviu falar? Como? Não, eu não vou desinstalar. Nada a ver, tem sido ótimo! Não. Escuta, está sendo bom pra mim. E daí se um detalhe ou outro não bater? Não, se é assim então fica em casa. Não precisa se dar ao trabalho. — Doía dispensar a irmã assim, mas Laura não estava pronta para ver ninguém. — Olha, não vem, tá?
Quando desligou, uma brisa gelada causou-lhe um arrepio. Os pelos da nuca ficaram eriçados. Era o vácuo tomando os espaços vazios desse apartamento que se agigantava a cada nova perda. Grande demais para ela. Sem o cãozinho, o trabalho e a irmã. Estava só.
Desabou sobre uma cadeira na cozinha e se permitiu fazer nada por um tempo, só observando a chuva lá fora. Bebeu outro gole de café gelado, mas para sua surpresa, não estava tão ruim quanto esperava. Estava… saboroso, de uma forma estranha, como se as suas papilas gustativas se recusassem a encarar a simples realidade de que café frio não presta.
Algo roçou sua perna. Num reflexo ela chutou com tanta força que o seu pé acertou o tampo da mesa, derramando o resto café no seu colo. O forte ruído da tempestade parecia camuflar um barulho baixinho, vindo debaixo da mesa. Um som familiar que congelou cada músculo do seu corpo.
As mãos de Laura, pousadas sobre a mesa, tremiam incontroláveis enquanto o corpo rijo insistia em permanecer colado à cadeira, o olhar fixo nas gotas de chuva que pipocavam na janela, buscando ignorar o que os ouvidos insistiam em comunicar. Não queria olhar para baixo e não ia olhar, mas algo por entre suas pernas e lambeu sua coxa direita, encharcada de café. O horror venceu a paralisia inicial e ela desceu o olhar devagar.
A apenas quarenta centímetros do seu rosto, os olhos rasos da criatura golpearam-lhe com força. O coração disparou, martelando o peito por dentro enquanto ela desabava para trás, com cadeira e tudo, numa tentativa desesperada de se afastar daquilo.
Rastejou com dificuldade para longe, desvencilhando-se da toalha de mesa, que agora cobria a criatura ao lado da cadeira. Foi parar no canto proibido, aquele que evitava a todo custo. A coisa avançava, cada passo um relâmpago revelando uma fração da sua silhueta na escuridão escarlate do apartamento até que, enfim, não houve dúvidas e os pulmões de Laura travaram. Era o Toby.
Não podia ser o Toby. Ele estava morto. Morto, reciclado, e ainda assim, de alguma forma, estava ali. E parecia… errado.
Com uma força que achou ter perdido, Laura foi se levantando, o pescoço esticado e o rosto longe daquele impostor, mas não conseguiu sair do lugar. Estava encurralada, esmagada pelo medo. Não é real, sussurrou para si mesma. Vai embora, gritou, empurrando-o para longe com um dos pés, mas ele continuava vindo e pulando nela, pedindo carinho.
Um relâmpago tingiu o apartamento num clarão ofuscante, e com ele, Laura entendeu o que era aquilo. Se estivesse certa, tudo o que tinha de fazer era desinstalar o plugin. Mas naquele estado, o esforço para acessar a loja de aplicativos era abismal. Era como escalar um precipício durante uma tempestade. As mãos insistiam em escorregar e a maldita tela de desinstalação ficava oscilando. Precisava focar. A língua quente do cachorro lambeu a sua mão direita, que ela recolheu em repulsa para junto do peito, espremendo-se ainda mais contra a parede vazia.
Cerrou os punhos, como se a força física fosse segurar a tela no lugar. Estava funcionando. A tela oscilou cada vez menos, e aguentou tempo suficiente para ordenar a desinstalação do plugin. 10%, 30%, 65%. As patas do cão arranhavam as suas pernas. Fechou os olhos com força, os pulmões travados. Dois segundos depois, nada. O silêncio reinava. Abriu os olhos e se deparou com uma mensagem de erro. Mas o plugin sumiu da lista de instalados e o cão havia desaparecido. Estava acabado. Avançou cambaleando até o quarto e desabou na cama. Dormiu um sono sem sonhos.
O dia seguinte começou com um ar de paz interior e leveza no peito. O rosto magro no espelho era lindo, o sol brilhava lá fora e já não estava sozinha. O alerta sumira. Laura carregou um sorriso largo até a cozinha, onde preparou um café bem quentinho, tomando cuidado para não esquentar a água demais. Seu amigo latiu animado duas vezes, daquele jeito fofo que só ele conseguia fazer.
— Vem cá, campeão! — disse, afagando-lhe as orelhas. — Quer um biscoito?
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