Conto | Raiva - Capítulo 210 min de leitura

Perdeu o início da história? Clique aqui e leia a primeira parte. 


A rua, escura e deserta, era um gatilho hipnótico que levava Herberto de volta à realidade. O carro cambaleava entre as faixas. Para ele, Ana reagira melhor a tudo o que houve no hospital e, por isso, ele tentava guardar para si mesmo o impacto daquela noite. Sinais vermelhos eram sugestões a serem ignoradas.

Ana, por sua vez, fingia ter a atenção ocupada com o tornozelo machucado enquanto buscava em Herberto por qualquer sinal da doença. Depois de assistir aos colegas saírem da frustração comum de tratar um paciente com uma condição desconhecida, para a raiva de um animal que rosna e espuma pela boca; era um alívio ver em Herberto nada além de uma leve palidez no rosto e suor frio na testa.

O enfermeiro estacionou o carro junto ao corpo do gato morto e ajudou Ana a descer e a atravessar a rua. Ao pegar a chave de casa, ele notou que o portão estava emperrado, de novo, e xingando a si mesmo por ainda não o ter consertado, Herberto chutou o muro e gritou por Guilherme, que os atendeu vestindo uma samba-canção.

— Você chegou cedo — disse ele, esfregando o rosto inchado. — Oi, Ana! O que aconteceu com você?

— Eu torci o tornozelo correndo — resumiu Ana, para a irritação de Herberto. É essa a história?

— Gui, todo mundo enlouqueceu. Os médicos, os funcionários, os pacientes… — Herberto não sabia como contar a história sem soar como quem perdeu a cabeça. Ele buscava no rosto do namorado algum indício de expressão que o ajudasse, mas Guilherme só o olhava. Não parecia escutar. — Eles espumavam!

— Eu vi isso na televisão — respondeu. — Um homem foi morto no ponto de ônibus no final aqui da rua. A vizinha do lado disse que quando os policiais chegaram o casal que atacou o tal lá do morto estavam espumando pela boca e rindo, mas que não resistiram à prisão — comentou enquanto entrava em casa. Depois de um longo bocejo, ele concluiu. — Loucura.

— A gente devia ligar para a polícia.

Concordando com Ana, o enfermeiro pegou o celular no bolso. Guilherme não parecia ter interesse na conversa com a polícia e apenas foi para o quarto depois de dar um beijo no namorado. Enquanto Guilherme se retirava, Ana encarou Herberto. O enfermeiro nada disse, só tratou da tarefa em mãos. Do outro lado da linha, atenderam ao telefone.

— Polícia Militar. Qual é a emergência?

— Teve um… um ataque ao hospital…

— Em Cascadura? — cortou a atendente.

— É — respondeu Herberto confuso com a pressa da mulher. —  Eu…

— O senhor está dentro do hospital?

— Não, eu estou em casa. Acabei de sair…

— Fique dentro de casa. A polícia já está no local.

— O que disseram? — perguntou Ana.

— A polícia já está lá.

— O senhor precisa de mais alguma ajuda? Está ferido?

— Não. A minha colega, ela…

— Então fique em casa e não vá para o hospital.

— Que houve? — perguntou Ana vendo a confusão no rosto de Herberto.

— Ela mandou a gente não sair de casa.

— Ela desligou?

Não era preciso responder. Com a denúncia feita, Herberto podia cuidar do tornozelo de Ana. Foi até a cozinha e encheu um saco plástico de gelo. Lá, buscando por uma desculpa para evitar a conversa que os olhos de Ana prenunciavam, ele procurou por algo mais para fazer. Não encontrou. O maço de cigarro de Guilherme estava jogado sobre o balcão. Ele pegou o Camel e observou a caixa. “Você morre”, diziam as letras escuras e em caixa alta sobre a foto de uma mulher triste acariciando uma mulher morta.

— Eu não sabia que você fumava. — disse Ana apoiada na porta e equilibrando o corpo sobre o pé bom.

— Não fumo. — respondeu ele, jogando o maço de volta ao balcão.

— Guilherme está dormindo. Acho até que eu ouvi um ronco.

— Ele trabalha bastante.

— Ele parecia bem calmo.

— Pois é! — disse Herberto ao jogar o saco de gelo sobre a mesa. Ele inspirou profundamente e, controlando a voz, continuou.  — Acha que ele pode ficar violento?

— Não. — respondeu ela, segurando o gelo no pé inchado e roxo. — Estou mais preocupada com a nossa contaminação. A gente não sabe como funciona.

— Depois do que vimos no hospital…

— A incubação é rápida.

— Se for o caso do Guilherme… — o enfermeiro tirou um tempo para engolir em seco e limpar a garganta. — O que podemos fazer?.

— Não sei.

Herberto foi até a geladeira pegar água e serviu dois copos que eles beberam em silêncio. Incomodado com a calmaria, Herberto ofereceu o sofá para Ana passar a noite. Ela agradeceu e voltou para a sala, se equilibrando nos móveis e eletrodomésticos no caminho. Sozinho na cozinha, Herberto não sabia se deveria dormir com o namorado e arriscar uma contaminação — dele ou sua — ou se deveria ir para a sala e se deixar cair em uma das poltronas próximas à Ana. Indeciso, sentou-se à mesa de jantar e adormeceu sobre os braços cruzados. Acordou com o cheiro de café que Guilherme preparava. Ana, sentada ao seu lado, comia pão francês.

— Ele parece bem. — sussurrou ela ao vê-lo abrir os olhos.

Herberto não estava completamente desperto quando finalmente compreendeu o que ela dizia e, ainda que a intenção fosse reconfortá-lo, o “ele parece bem” era como a prova de que o risco era real. Os que espumam pela boca não foi um sonho. E com o choque dessa constatação, ele acordou.

— Quer café? — perguntou Guilherme.

— Não. — respondeu ele, ainda enjoado, mas desperto o suficiente.

— Não é saudável passar a manhã toda sem comer. — insistiu Guilherme, parafraseando um dos discursos matinais prediletos do próprio Herberto, que aceitou o café com uma risada envergonhada.

— Ligaram do hospital. — disse Ana entre goles na caneca que Guilherme comprara para ela alguns anos antes. — Disseram que precisam de enfermeiros hoje. Muitos não apareceram para trabalhar.

— Quem ligou? — perguntou Herberto, que logo percebeu o absurdo da própria pergunta. — E os infectados?

— Ela não falou. — disse Ana repousando a caneca sobre a mesa.

— Você perguntou?

— Claro! — respondeu irritada.

— E o que ela falou?

— Ela disse para eu não acreditar em tudo o que me dizem.

— A gente estava lá!

— Eu sei! — disse Ana, ouvindo dele o que ela própria dissera ao telefone. — Quem ligou foi a Tânia do RH. Eu não acho que ela esteja bem. Ela soava infectada.

— Como assim?

— Gentil demais. — quis concluir. — Ela não é assim.

— Eu não vou. — disse ele, levantado o corpo dolorido.

— Eles estão demitindo quem não aparece para trabalhar. — ele não respondeu. — Alguém tem que parar eles. Quem mandou a Tânia me ligar? Essa pessoa pode saber como resolver essa… situação. A Tânia, por ela mesma, não me ligaria. Muito menos infectada. Você viu a paciente ontem. Ela nem se mexia.

Herberto encarou Ana e ela o encarou de volta. Por alguns segundos isso foi tudo o que fizeram até que ela terminou o café e se levantou. A colega passou por ele e entrou no banheiro, depois de perguntar se podia tomar banho. Ao sair, ela reclamou do uniforme sujo que vestia. Na cintura da calça, sobre a camisa, Herberto viu o bisturi.

— Se quiser carona para o hospital, me liga. — disse ela, abrindo a porta da sala. — Vou passar em casa. Dá tempo de você se arrumar.

— Você parece bem! — comentou. — Está até andando.

— Encontrei uns analgésicos no banheiro. — justificou. E, batendo a porta ao sair, completou. — Espero que não se importe.

Herberto se sentou no sofá, mas o corpo dolorido reclamava das almofadas moles demais. O ouvido zumbia contra o silêncio. Tudo o que se ouvia era Guilherme lavando a louça. O pé esquerdo no joelho direito e o pano de prato pendurado no ombro. Era como se o mundo lá fora não existisse. Nada a declarar sobre a briga, Gui? Ele se levantou para ajudar com a louça, mas mal entrou na cozinha e Guilherme já disse estar terminando e o mandou de volta para a sala. Indignado, Herberto ligou a televisão.

Na tela, um repórter cobria o trânsito. As ruas estavam engarrafadas, como sempre, mas algo fugia ao normal. Alguns carros tentavam forçar os outros a se mover colando na traseira do automóvel da frente. Eles aceleravam ruidosos. Os pneus cantavam e fumaça subia. O jornalista, com o microfone na mão e baba na boca, listava as ruas engarrafadas e dava dicas de caminhos alternativos. Com os cotovelos sobre os joelhos e os olhos vidrados, Herberto gritou por Guilherme.

— Você está vendo isso? — perguntou Herberto. Guilherme abandonou a louça por lavar e foi para a sala. — Está em todo lugar!

— O quê?

— A raiva! — gritou. — Você não vê?

— Ele parece calmo.

— Ele está babando!

— É verdade! — disse Guilherme, com um riso contido. — Nojento.

— Você está bem? — perguntou Herberto se aproximando do namorado. — Você se sente diferente? Você sente alguma coisa?

— Não — respondeu.

Na televisão, os motoristas inconformados com o trânsito parado desceram dos carros e formaram uma massa de revolta à tudo ao redor. Alguns, com as mãos nuas, esmurravam os vidros dos automóveis que bloqueavam a sua passagem. Outros chutavam os próprios carros e gritavam ofensas de bocas cheias de espuma. Um deles, com as mãos sangrando por conta das porradas no para-brisa, andou em direção à câmera e gritou.

— Isso tem que acabar!

Insatisfeito com a mensagem, outro homem arrancou o microfone das mãos do jornalista e acusou a violência do agressor de automóveis com o dedo em riste e um soco na orelha. Espuma voava a cada rugido de palavra de ordem, mas o recado não estava claro o suficiente. Ele teve ainda que derrubar o repórter com um chute no estômago. Como quem pontua uma frase. O jornalista, por sua vez, nunca tirou os olhos da câmera e descreveu toda a cena do chão, mas logo ela também caiu e a transmissão terminou. Do outro lado da tela, Guilherme assistia a tudo com olhos mortos e baba na boca.

Herberto tentou ligar para Ana, mas ninguém atendeu. Ele queria levar Guilherme ao hospital, mas não tinha carro. Ônibus estava fora de questão. É dar chance demais para o azar. O enfermeiro, então, chamou um Uber pelo celular e socou as paredes por não ter nada para fazer enquanto esperava pelo motorista. Umas duas ou três vezes, ele procurou em seu celular por pistas na foto, no nome e na placa do carro que pudessem indicar qualquer alteração comportamental, fosse baba ou espuma, mas nada encontrou. Era inútil. Teria que esperar.


Sobre o texto 

Olá, pessoas!

Gostando da história? Espero que sim. Esse texto, na verdade, é meio que um exercício para mim. Eu queria melhorar a qualidade da minhas “cenas de ação” e, por isso, me desafiei a fazer a minha versão de uma das modinhas que mais curti nos últimos anos: zumbis. Ok. Eles não são exatamente zumbis, mas deu pra entender, né?

Se estiver gostando da história, fica atento aqui no site e nas redes sociais que já, já sai o terceiro e último capítulo.

Até lá,

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