O dia amanheceu cinzento e chuvoso no Rio de Janeiro naquela sexta-feira de julho. Finalmente, uma temperatura compatível com a estação. Ah, o inverno. Pairava um clima preguiçoso no ar e as pessoas demoraram alguns minutos a mais para levantarem de suas camas. Menos Alice, ela era sempre pontual. Ao primeiro toque do despertador, ela já está de pé e leva um choque ao encostar os pés descalços no chão frio.
Cariocas sonolentos e desacostumados com a baixa temperatura retiram seus casacos e capas de chuva do armário enquanto Alice espia o dia por uma fresta em sua janela. Ela sorri ao ver os guarda-chuvas coloridos enfeitando a rua e o vento gelado arrepia todo o seu corpo quente sob a camisola fina de alcinhas. Alice ama a chuva e logo se anima para sair de casa. Amarra os cabelos em um coque frouxo no alto da cabeça e deita-se na banheira com água fumegante. Um dos motivos de ter alugado este pequeno e antigo apartamento era o fato de ainda ter uma banheira. Ela relaxa, sentindo-se abraçada pela água e fecha os olhos por uns minutos, absorvendo o prazer do momento.
Seu lema pessoal sempre foi aproveitar cada pequena centelha de felicidade que for possível, pois a vida é curta demais para deixarmos esses momentos apenas passarem…
Ela se arruma para mais um dia comum em sua vida. Coloca o vestido rosa de veludo e mangas compridas, meia-calça e suas botas pretas até os joelhos. Os cabelos caem em uma cascata negra até o meio de suas costas. O espelho lhe diz que está quase pronta, apenas risca os olhos com o lápis preto e aplica o batom vermelho nos lábios. Sua pele clara já está naturalmente rosada pelo banho quente e o blush é desnecessário. Uma mulher com o rosto cheio de vida lhe encara de volta. Seus olhos azuis cintilantes têm um brilho como nenhum outro e seu sorriso ilumina tudo ao seu redor.
Como sempre ela deixa o quarto apressada, mas não antes de resgatar o livro da cabeceira da cama. Passa correndo pela sala, alcança a bolsa no sofá e joga o celular dentro dela. Ela para na porta e olha ao redor, pensando estar esquecendo algo.
Há muito tempo, Alice vive só, cuidando apenas de si mesma e de sua calopsita Anne (uma homenagem à sua heroína literária favorita, Anne Frank). Nenhuma família lhe restou e seus poucos amigos ficaram pelo caminho em suas mudanças. A ausência de alguma coisa é um sentimento que vive à espreita, mas, como sempre, ela o arrasta para um local inacessível em seu subconsciente. Ao sair do prédio, Alice olha diretamente para o céu, deixando que a garoa fina molhe seu rosto antes de abrir o chapéu. Ela corre até o metrô e se aperta em um dos vagões lotados até o trabalho.
Ah! O Centro da Cidade. As livrarias belas e aconchegantes, as ruas apinhadas, os cafés, o contraste entre as construções antigas e os arranha-céus que conferem um poder da invisibilidade aos passantes. Alice adora andar pelas ruas sem ser percebida, se misturando, fazendo parte de um fluxo constante de pedestres, indo e vindo, cada um tomando o seu rumo sem prestar atenção em nada ao redor. Mas não ela. Alice está sempre atenta a tudo.
Um de seus passatempos favoritos é tentar adivinhar o que as pessoas pensam enquanto caminham, com quem falam ao celular, ou simplesmente o que as motiva a sair de suas casas diariamente. Mais do que isso, ela adora estudar as pessoas como se estivesse fora de um cenário e elas fossem personagens de seus romances favoritos.
A solidão obrigou-a a ter a imaginação como sua melhor amiga e os livros como seus parceiros inseparáveis. Alice vive cada dia de sua vida mergulhada em uma fantasia sem fim, já que a realidade nunca lhe fez sentido. Por muitas vezes, pensou pertencer a um outro lugar no universo que não este em que foi deixada para viver.
Sua maneira de ser, quieta e observadora, sempre manteve os outros à distância. A curiosidade aguçada a fazia querer desvendar as pessoas, mas sua timidez a impedia. Assim, ela passou a se fechar em suas próprias reflexões acerca da humanidade. A arte, a música e a literatura tornaram-se suas maiores fontes de pesquisa e aliadas em suas descobertas, mas a solidão continuava se fazendo presente em cada noite quando apoiava a cabeça em seu travesseiro.
Alice é bibliotecária na Biblioteca Nacional e todos os dias almoça atrás de seu balcão acompanhada de uma leitura leve. Mas não hoje. Ela resolve sair e aproveitar a calmaria das ruas encharcadas fazendo uma longa caminhada até a Confeitaria Colombo.
O garçom lhe serve sua sopa favorita de letrinhas enquanto ela retira o livro da bolsa, um romance clássico do século XIX.
Ela mexe a sopa com a colher para que esfrie um pouco enquanto mantém os olhos fixos em seu livro de páginas amareladas e soltas. Ela prova o caldo e se deixa envolver pelo aroma e sabor, fechando os olhos, apreciando. Quando ela volta seu olhar ao prato, novamente, se depara com a frase “Olhe para cima!” boiando na superfície. Ela sorri, como se isso fosse perfeitamente normal e ergue a cabeça.
Um buraco se abre no teto e ela contempla o céu negro e repleto de estrelas brilhantes. O rosto de seu belo príncipe aparece iluminado, quase como se uma aura dourada o contornasse, e ele estica os braços para tocá-la. Sem pestanejar, ela lhe dá as mãos e ele a puxa para cima. Em um segundo, ambos estão deitados sobre o telhado, ela surpresa e ele encantado.
― Por que demorou tanto? ― Ela o questiona.
― Não foi fácil lhe encontrar. Perdi a conta de quantos planetas visitei em busca de ti. Eu procurei por estes olhos em cada canto deste universo até ser atraído para este lugar louco que chamam de Terra.
Ele responde diretamente para seus olhos azulados enormes de fascinação.
― Como assim? Não existem apenas oito?
Sua curiosidade se manifesta.
― Ah, foi isso que lhe ensinaram por aqui? Que grande absurdo.
Seu rosto fica sombrio por apenas um segundo, mas logo ele sorri e a observa detidamente.
― Não, de jeito nenhum. Esse universo é bem maior do que você imagina, meu bem.
Ela suspira, entendendo tudo. Agora está claro como água cristalina que esteve certa todo o tempo. Todos os problemas em se encaixar nos lugares. Sua preferência por viver as histórias dos livros e não a sua própria. O modo distante como observava as pessoas obedecendo a rotinas intermináveis e irrelevantes.
Alice nunca se apegou a uma única atividade sem propósito. Tudo nela era amor e sentimento, e tudo que fazia, em tudo que tocava, estava impregnado com seu amor. Ela sempre foi o peixe fora d’água. O ponto fora da curva. Nunca pertenceu a este lugar automatizado e vazio. Ela deixa uma lágrima rolar.
― Desculpe. Eu sei que não deve ter sido nada fácil, querida. Mas eu te prometo que agora vai ser tudo diferente.
Ele se levanta e estende a mão para ela. Alice o segura com firmeza e a certeza de que está finalmente diante do caminho certo. Sua parte que sempre esteve em falta agora está completa e tudo faz sentido.
― Vamos para casa.
Um cavalo alado negro como a noite aterrissa em sua frente, mas ela já não se surpreende. Ambos tomam seus lugares atrás de suas enormes asas e eles voam entre as estrelas em uma velocidade inimaginável, invisíveis aos olhos de qualquer terreno que observe o céu.
Alice abraça firme a cintura de seu príncipe, que conduz o cavalo com maestria. Ela descansa a cabeça em suas costas e pensa que agora seu mundo entrou nos eixos. Onde quer que ele a esteja levando, lá é seu verdadeiro lar. Seu coração se enche com uma alegria vibrante e o sorriso largo lhe toma a face. Lágrimas mornas brotam de seus olhos e caem sobre a Terra como a chuva pesada do inverno.
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