Nesta série exclusiva do Conte Histórias, percorremos todos os caminhos que compõem a criação literária, da ideia à edição, passando pela criação de universos e personagens. Um espaço ideal para quem deseja conhecer as técnicas de contar histórias ou mesmo descobrir a matéria-prima que compõe a ficção.
Originalidade
Após abordarmos a importância das técnicas de storytelling e de como a ideia é concebida, chegou o momento de falar sobre originalidade. Como ser original num mundo onde tantas histórias foram contadas das mais variadas formas?
Antes de tudo, é preciso conectar originalidade ao conceito de relevância. Além de soar original, a história precisa ser relevante aos olhos do público. Precisa transmitir uma mensagem ou um sentimento para um conjunto de pessoas e, preferencialmente, estar ligada ao Zeitgeist, o chamado espírito da época em que está sendo escrita.
Uma das regras mais conhecidas da escrita é “escreva sobre o que você sabe”. Isso dá segurança na hora de escrever e aumenta a chance de ser algo original, uma vez que a experiência individual é única. Outra regra de ouro é “escreva sobre o que você ama”, pois a paixão é a maior força motivadora da escrita.

Contudo, é importante não vermos tais regras como limitadoras. Para Stephen King, é preciso interpretá-las da maneira mais ampla possível: “Você pode ser encanador, entender de encanamentos, mas isso está longe de abranger tudo o que você conhece; o coração também sabe das coisas, assim como a imaginação”.
Por sua vez, Gabriel García Márquez é mais específico em seu conselho: “escreva sobre algo que lhe aconteceu; é fácil perceber se um escritor está escrevendo sobre algo que lhe aconteceu ou sobre algo que leu ou ouvir falar. Diverte-me que elogiem minha obra, sobretudo, pela imaginação, quando, na verdade não há nela uma única linha que não se baseie na realidade”.
Mais do que qualquer fórmula, o poder de uma história está na forma de contá-la e no modo de ver de cada um. O diferencial está no detalhe que cada um viu. É a busca por esse detalhe que diferencia uma história de outra. Dentro de uma ideia básica, cada um terá uma concepção diferente.
Ainda na linha de observar detalhes únicos, a Pixar, num dos seus cursos para novos roteiristas, sugere que cada aluno escolha o filme que mais gosta e reescreva sua história, dando nova visão a ele. Um exemplo de história reimaginada é a saga Star Wars, que nada mais é que uma grande reinterpretação de clássicos do Western, filmes capa e espada, e de samurais.
Outro bom exemplo de originalidade é o livro/série Os 13 Porquês (Thirteen Reasons Why). A obra de Jay Asher mescla arquétipos do suspense ao narrar os motivos que levaram a jovem Hanna Baker ao suicídio com o drama Young Adult. Enquanto isso, o autor discute questões como bullying, estupro e relacionamentos abusivos. Olhando de perto, vemos que todos esses elementos são temas pertinentes e atuais. O diferencial está na maneira como Asher amarra a história.

Essa reimaginação não deve ser temida. Nenhum autor sensato quer criar uma cópia do que já existe. Porém, todos os escritores experientes sabem que a ideia de originalidade pura não passa de fantasia. Anton Tchecov declarou que, quando jovem, aprendeu o ofício reescrevendo histórias inteiras de Tolstói, transportando-as para sua linguagem. E se ele pode…
Um ótimo lugar para encontrarmos a ideia original é a nossa própria infância. Para o escritor estadunidense Richard Price, todos temos na infância dez grandes histórias sobre nossas famílias, nossos primeiros anos de vida. Talvez elas não sejam tão fiéis à realidade, mas ainda assim são nossas. Aproveite-as com uma boa dose de audácia e rebeldia.
Quando estamos escrevendo, nosso cérebro começa a trabalhar de um modo diferente. Passamos a prestar atenção no que confere vivacidade, sentimento e sentido. Tão logo nossas mentes se concentram, as coisas começam a se encaixar. Percebemos a magia em qualquer lugar.
Hoje, mais do que antes, a grande nuvem de ideias, referências e influências está disponível para os novos autores. E, paralelo a essa massa de histórias universais, existe o seu repertório. Tudo o que você já viu, sentiu e experimentou. Saia de casa. Ande por aí. Ou, no conforto do lar, assista a filmes, séries ou procure imagens inspiradoras. Consuma histórias de todos os tipos. Converse com pessoas. Talvez esteja faltando apenas a fagulha que fará a história original nascer. E, quando essa hora chegar, não tenha medo de arriscar.
Referências bibliográficas:
KOCH, Stephen. Oficina de Escritores: um manual para a arte da ficção. Trad. Marcelo Dias Almada. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2016.
M.C. Magnus
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